Foto: Fotomontagem de Beatriz Abdalla/Jornal da USP sobre fotos de Kalyan Shah via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0) e Marcos Santos/USP Imagens

Informações simplistas e negacionismo levaram à baixa adesão ao isolamento

Para Christian Dunker, população teve que escolher entre informações pouco detalhadas sobre a necessidade do isolamento e a atitude do presidente Bolsonaro

19/06/2020
Por Cinderela Caldeira

Desde meados de março, quando a quarentena foi decretada no Estado de São Paulo, um dos fatores que preocupa os especialistas é a baixa adesão ao isolamento social – que nunca ultrapassou os 59%, quando o ideal seria permanecer na casa dos 70%. Além dos conhecidos fatores econômicos, o que leva as pessoas a não cumprirem as regras de isolamento? As pessoas não acreditam na ameaça do vírus letal que já passeou por quase todos os países do mundo e se estabeleceu entre nós? O professor Christian Dunker, do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise do Instituto de Psicologia da USP, diz que, em parte, isso se deve à forma como as medidas sanitárias de combate à covid-19 foram anunciadas.
Cinderela Caldeira, editora de atualidades do Jornal da USP - Foto: Arquivo pessoal

Cinderela Caldeira, editora de Atualidades do Jornal da USP – Foto: Arquivo pessoal

Durante um bom tempo, a mensagem sobre a quarentena foi dada de forma simplista: fique em casa, não saia e não tenha contato com os outros. Isto acabou produzindo dois grupos: “os negacionistas que desde o começo se acham narcisisticamente especiais, ou protegidos por alguma aura que vai fazer com que não peguem o vírus, e por isso não usam a máscara, pois já estavam desafiando as autoridades sanitárias; e aqueles que já eram afeitos “à ideia de tomar cuidado e usar máscara, que é a única coisa exigida pelas autoridades, numa estreita relação de obediência a lei, sem qualquer reflexão mais aprofundada de análise”, comenta.

Christian Dunker – Foto: Tatiana Ferro via WIkimedia Commons (CC BY 2.0)

“Tudo isso exigiu uma acomodação psíquica da nossa lógica de sacrifício”, diz Dunker, que ainda lembra que “alguns furavam a quarentena inspirados em referências simbólicas de autoridades políticas ou religiosas”. Por isso, o fato de o presidente Jair Bolsonaro negar, desde o início, a pandemia é, na opinião do professor, uma “atitude que terá consequências na história. Acredito que em algum momento isso será analisado e julgado como um ato de inconsequência, uma prática compatível com a necropolítica. A ideia de deixar morrer, seja porque a assistência é morosa ou custa muito caro, é um desrespeito, uma ofensa aos cientistas, às universidades, e um prejuízo tangível, [considerando] o número de mortos que nos coloca na segunda posição na escala mundial”.

Para o professor, a insistência do presidente em colocar a culpa dos problemas da economia no isolamento pedido por prefeitos e governadores faz parte do negacionismo. “O discurso faz parte da criação de inimigos imaginários, que foi a retórica de campanha de Jair Bolsonaro, que depois virou método de governo e que, ao final, se transformou em estratégia sanitária. Combater inimigos que tenham equivalência política, logo não posso reconhecer um inimigo que vem da natureza, um vírus, isso não pode ser admitido pelo governo”, esclarece.

O professor comenta, ainda, que no momento que temos que fazer um sacrifício, do ponto de vista da psicologia individual, apelamos para nossas autoridades simbólicas: em nome de quem vou fazer esse sacrifício? “Quando crianças, escutamos nossos pais, a escola… quando adultos, as autoridades religiosas e políticas. Nesse momento transfiro o meu poder e minha autoridade para essa discurso.”

Dunker analisa que a forma de condução pública do discurso do presidente não foi consequente com essa ideia, e sim com a de que se temos fé e tem uma identificação com um pai protetor nada vai te acontecer, e que ele é o pai protetor que ampara na hora em que o vírus se aproximar. “É possível que muitas pessoas tenham descoberto esse engano tarde demais”.

Sacrifícios coletivos e pessoais

O momento atual, de reabertura do comércio, também ocorre em um ambiente de falta de informações que possam conscientizar a população e mostrar o risco eminente de se contrair a covid-19, garante o professor. “O processo de abertura deveria envolver um grau de cálculo ético do risco, com informações das autoridades, como por exemplo: onde são as zonas de maior periculosidade? O que são zonas de maior perigo? Quais os horários de maior perigo?”

Dunker destaca que as únicas informações que a população recebe das autoridades são sobre o isolamento e a obrigatoriedade do uso de máscara. Desse modo, as pessoas não se dão ao trabalho de “analisar sua própria situação de risco e suas comorbidades, suas condições de vulnerabilidade, analisar sua continuidade na quarentena. Tudo isso envolveria um cálculo mais complexo, e com enunciados de saúde pública e de esclarecimentos detalhados à população”, diz o professor.

O uso de máscaras nas cidades de Salvador (esquerda) e do Rio de Janeiro (esquerda) – Fotos: Jefferson Peixoto/Secom e PMRJ

O uso da máscara, por exemplo, deveria ser melhor esclarecido à população: “Se todo mundo usar, todos nós estaremos protegidos. Mas isso implica numa moralidade não egoísta, altruísta, a partir da qual eu saio para a rua e tenho que proteger o outro de mim”, enfatiza Dunker. Na situação atual, não são raros os casos nos quais, ao sair de casa para ir ao mercado ou à farmácia, pessoas de quarentena encontram pessoas sem máscaras e acabam entrando em confronto. Dunker diz que, nessas situações, os negacionistas se aproximam ostensivamente do outro sem o uso da proteção, mas também ocorre outro fenômeno importante, que é o da aprendizagem coletiva. “A gente aprende com o outro, aprendemos com o distanciamento social que o outro convoca em nós. Aprendemos com as regras que vão sendo instituídas. Portanto, é um momento nevrálgico, e os procedimentos de proteção não são objetos de um gosto particular ou de uma política particular, é um cuidado de todos em nome de todos”.

Em todo esse contexto, o que explica, por exemplo, as cenas amplamente divulgadas nos meios de comunicação, de longas filas de pessoas à espera para entrar no shopping, no primeiro dia da reabertura do comércio na cidade de São Paulo? “Muitas pessoas se impuseram sacrifícios intoleráveis, por que se viram privadas de atividades como, por exemplo, fazer compras. O ato de comprar para muitos faz com que se sintam engajadas num contexto social, merecedoras de algo. E, nesse caso, a quarentena foi impiedosa para com essas pessoas”, esclarece.

O professor comenta que outras pessoas precisam sair de casa para se sentirem parte de uma comunidade. “A mínima abertura do comércio faz com que as pessoas saiam em busca de práticas de consumo, de reconhecimento, de circulação, que são parte da nossa saúde mental. São formas que as vezes integram nosso cuidado psíquico, nossa estabilização”. O ritual de comprar faz parte da liberdade de circulação. “Liberdade que me foi tirada antes, agora posso me restituir, escolher para onde eu posso ir. A liberdade de circulação é fator muito importante de emancipação e autonomia”, ressalta Dunker.