Imunização contra covid está comprometida pela escolha de vacinas e ausências na segunda dose

De acordo com especialistas, intervalo de tempo e reações adversas da primeira dose explicam ausências para o recebimento da segunda dose

 11/08/2021 - Publicado há 4 meses
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“Em Ribeirão Preto, muitas pessoas querem escolher o tipo de vacina tendo em vista as viagens internacionais”, conta Luzia Márcia Romanholi Passos – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Com exceção da Janssen, todas as vacinas disponíveis no Brasil contra a covid-19 necessitam de duas doses para completar a imunização. E, apesar da aparente boa receptividade da população, boa parte das cidades brasileiras enfrenta dificuldades justamente no comparecimento das pessoas para a segunda dose do imunizante.

Em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, a Secretaria da Saúde vem convocando periodicamente as pessoas para tomar a dose da vacina. No dia 3 de agosto, por exemplo, a Prefeitura abriu agendamento para um grupo de mais de 14 mil pessoas para a segunda dose, mas, até o dia seguinte, apenas 5 mil delas haviam preenchido as vagas.

Para o infectologista e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, Fernando Bellíssimo Rodrigues, uma das razões da baixa adesão à segunda dose “é o intervalo de tempo muito grande entre as doses”, além das possíveis reações adversas provocadas pelas vacinas em algumas pessoas.

Segunda dose é importante para prolongar a proteção

Os aspectos imunológicos da segunda dose variam muito de uma vacina para outra, comenta o professor Rodrigues. Para a CoronaVac, por exemplo, é imprescindível a aplicação da segunda dose, já que não há evidências de que uma dose seja suficiente. No caso das vacinas da Pfizer e AstraZeneca, a efetividade já é maior na primeira dose. Assim, “a segunda dose tem a intenção de prolongar, não só intensificar, o efeito da vacina”.

Aqueles que tomarem somente a primeira dose estarão protegidos contra o vírus, mas é possível que a proteção dure menos que a de quem completou o ciclo da vacinação. “Essa é a grande importância de não perder a segunda dose”, afirma.

E, em Ribeirão Preto, quem perde a data da dose de reforço precisa esperar a disponibilidade de novas remessas da vacina. Mesmo assim, garante Luzia Márcia Romanholi Passos, diretora do Departamento de Vigilância em Saúde, órgão ligado à Secretaria Municipal da Saúde, todos terão a oportunidade de se vacinar contra a covid-19, recebendo o reforço da segunda dose. Basta que o tipo de vacina recebido na primeira dose esteja disponível “e a pessoa procure a unidade de saúde espontaneamente”.

Sommeliers de vacina atrasam vacinação da comunidade

As ausências para a segunda dose da vacina não são o único problema das Prefeituras e governos estaduais. Os chamados “sommeliers de vacina” – pessoas que querem escolher qual tipo de vacina vão tomar – estão espalhados pelo País. “Em Ribeirão Preto, muitas pessoas querem escolher o tipo de vacina tendo em vista as viagens internacionais”, conta Luzia. 

Mas a questão da escolha de vacinas é complexa e envolve também insegurança, desconfiança da eficácia, desconhecimento e medo de eventos adversos. A propagação de fake news também tem contribuído para o aparecimento dos sommeliers. É que as pessoas se apegam a informações não verdadeiras e constroem um conceito a respeito das vacinas. “O que mais preocupa é que têm pessoas que não chegam nem a agendar ou se cadastrar e, ao verem que não tem a vacina de preferência, vão embora”, conta a diretora da Vigilância em Saúde de Ribeirão Preto.

Essa situação preocupa, como afirma o professor Rodrigues, pela “escassez relativa de imunizantes”, o que torna “um absurdo a pessoa querer escolher vacina”. A partir do momento em que a pessoa deixa de se vacinar, estando agendada para receber o imunizante, adianta o professor, ela impede que outro morador receba a vacina, atrasando a vacinação da comunidade.

Em algumas cidades, os sommeliers sofreram punições e foram realocados para o final da fila de vacinação, medida que Rodrigues considera “válida e correta”, já que os imunizantes são a forma mais eficaz no combate à pandemia. Mesmo havendo diferenças entre as vacinas, “todas são efetivas, seguras e têm benefícios”, esclarece.


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