História indica que desmatamento na Amazônia ocorre de forma desorganizada

Pedro Luiz Côrtes, que pesquisa o tema em busca de uma possível solução para o problema, diz que o desmatamento intensivo na Amazônia começou com a construção das rodovias que cortam o Estado

Nos últimos anos o aumento do desmatamento e das queimadas na Amazônia passaram a preocupar ambientalistas. Porém, esse problema não é novo. Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, o professor Pedro Luiz Côrtes, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, comenta os antecedentes históricos que fizeram com que a região tivesse um modelo de desenvolvimento não conciliável com a preservação ambiental. Ele está desenvolvendo uma pesquisa sobre o tema na busca de possíveis soluções para os problemas enfrentados atualmente.

O desmatamento intensivo começa na Amazônia, com a construção das rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém, na década de 1970, tornando possível chegar ao interior da floresta e promover uma ocupação não planejada, de caráter extrativista. “Assim, passou a ocorrer a retirada da madeira das árvores e a utilização das terras para fins agrícolas, mas sem qualquer tipo de infraestrutura por parte do governo. Esse foi o começo do problema, que só aumentou ao longo dos últimos 50 anos”, comenta Côrtes.

O professor também comenta que havia uma maior preocupação naquela época, vinda principalmente dos militares brasileiros, com uma possível internacionalização da Amazônia – movimento que nunca foi discutido efetivamente. Do ponto de vista ambiental, a visão da situação era predominantemente antropocêntrica, ou seja, baseada na utilidade da área em termos de disponibilidade de recursos. Como os movimentos ambientalistas ainda estavam se articulando, eles não conseguiram ter influência relevante nessa questão.

“Os militares queriam mostrar que a Amazônia era ocupada e, para isso, acharam que uma estratégia era realizar grandes obras, como as rodovias. Se houvesse melhor planejamento, ao invés de apenas a vontade de marcar presença, os colonos poderiam receber suporte em relação a como aproveitar a área de forma organizada, o que nunca aconteceu”, explica o especialista. Apenas nas décadas de 1980 e 1990 se começa a entender a importância climática da Amazônia e a influência de suas chuvas nas demais regiões do País. No entanto, mesmo com esse conhecimento disseminado, nunca houve um movimento de recuperação da floresta.

Hoje Côrtes considera que, para reverter essa situação, é necessário aliar o potencial amazônico com sustentabilidade. “Para isso, são necessárias duas ações: uma que atenda à população carente, incentivando um extrativismo sustentável (como ocorre na economia do açaí) ou promovendo um turismo de qualidade, e outra que incentive a criação de centros de pesquisa para o aproveitamento do bioma com a síntese de medicamentos, por exemplo, além do investimento no reflorestamento nas áreas degradadas para recompor a questão climática a nível nacional”, conclui.

Saiba mais ouvindo a entrevista na íntegra.


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