Habilidades cognitivas precisam ser estimuladas no aprendizado on-line

A suspensão das aulas presenciais, cuja realidade era a de professores e alunos ocupando um mesmo espaço, trouxe para o primeiro plano a importância das habilidades cognitivas no aprendizado remoto, as quais necessitam de estímulo neste momento de quarentena

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Arte: Jornal da USP

Desde criança até a vida adulta somos levados por diversos fatores a colocar em prática habilidades cognitivas. Elas são representadas pelas funções executivas do cérebro: foco da atenção, planejamento, memória do trabalho, flexibilização mental, controle de impulsividade, entre outras. O desenvolvimento dessas atividades pode se dar com a prática, por exemplo, de jogos de tabuleiro e leitura de livros.

Passados mais de 100 dias do início das aulas remotas, devido à suspensão das aulas presenciais em todo o País, as aulas e atividades on-line trouxeram à tona a importância das habilidades cognitivas no aprendizado. Suas funções, neste momento de confinamento, necessitam ser estimuladas para que não haja prejuízo no intelecto tanto das crianças quanto dos adolescentes e adultos. Foi a necessidade global de improviso, gerada pela crise sanitária, que tornou este momento atípico e diversificado.

Foto: Hatice Erol/Pixabay

Após três meses de aulas on-line, a rotina repetitiva exige um cuidado ainda maior com essas habilidades que estão em constante atividade (ou deveriam estar). “A motivação é um fator essencial para manter as habilidades cognitivas. O cansaço está predominante”, aponta Betânia Dell Agli, professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (PSA) do Instituto de Psicologia (IP) da USP.

A adaptação

Na sala de aula, os professores tinham um contato maior com os alunos e podiam observar seus desenvolvimentos e dificuldades. A adaptação para o on-line inibiu esse contato mais próximo, exigindo das habilidades cognitivas, que sempre estiveram presentes na nossa vida, um cuidado maior.

No geral, são muitos os agentes que ajudam a manter as funções aprimoradas e, por isso, a cognição não deve ser restrita à aprendizagem escolar, explica Betânia. Principalmente agora, quando levado em consideração que “há uma sobrecarga no ensino remoto [especialmente] para essas habilidades”, aponta Maria Thereza Coelho de Souza, professora do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do IP-USP. Essa sobrecarga acontece quando, por exemplo, há um desequilíbrio recorrente na ordem de aulas, em que um dia tudo ocorre bem e no outro a internet cai, podendo causar ansiedade no aluno.

Foto: Max Francioli dos Santos/Flickr

Para além das próprias dificuldades que este momento apresenta, há ainda os estudantes que já possuíam transtornos mais sérios, por terem algum problema neurobiológico. O que configura um desafio enorme, pois nas aulas presenciais isso demandava um esforço pedagógico específico que pode não ser oferecido a distância.

Além disso, é importante dizer que a variabilidade de contextos e o momento atual exigem um ritmo diferente para pensar, somados à incerteza do que virá no futuro e às crianças e adultos que estão perdendo parentes. “Não é o contexto mais favorável do mundo para se aprender conteúdos acadêmicos [e escolares]” destaca Maria Thereza.

Neuropsicologia como aliada

Sendo difícil a aprendizagem habitual, algo que está em alta atualmente é o exercício da criatividade, o que a professora Maria Thereza chama de “currículo oculto”. Isso ajuda a manter ativas as funções executivas das habilidades, que também possuem importante auxílio da psicologia cognitiva e neurociências. É a neuropsicologia que faz intervenções clínicas para o aprimoramento das habilidades com terapias e exercícios de memória e atenção específicos. “Temos redes envolvidas na questão da atenção e sua manutenção”, diz Betânia Dell Agli.

De forma resumida, a professora especialista em Neuropsicologia explica que o nosso tronco encefálico é responsável pela ativação da manutenção do estado de alerta e vigília do corpo, fazendo o córtex cerebral ficar vigilante, mais “ligado” para prestar atenção em determinada tarefa executada, como assistir às aulas e resolução de exercícios. Ao mesmo tempo, há uma grande participação do lobo frontal, que regula e monitora o quanto de atenção precisamos ter em certa atividade. “Isso envolve questões de ordem emocional, valores, interesses e complexidade da tarefa.”

Para as crianças e adolescentes, as distrações se fazem muito necessárias ao enfrentar longas aulas ao vivo ou listas de exercícios. Essa alternância de tarefas, principalmente na rotina repetitiva das aulas na quarentena, acontece, pois é natural que não se fique muito tempo em uma mesma atividade nem que se consiga executar duas delas simultaneamente.

É possível aprimorar as habilidades?

Foto: Elisa Riva/Pixabay

Apesar da possibilidade de intervenção clínica, as habilidades podem ser mantidas por simples execuções de tarefas. “Ter uma rotina e interesses são essenciais”, recomenda Maria Thereza. De acordo com a professora, estresse, ansiedade, falta de regularidade e instabilidades de dias e horários de estudos podem, aos poucos, “relaxar as funções”, como se elas não entendessem se é para funcionarem ou não. “Elas têm um substrato cerebral e nosso cérebro funciona com regularidades.”

Por isso, é preciso combater a ansiedade e estresse neste contexto de pandemia. Mas como fazer isso além das individualidades? A resposta das entrevistadas está em manter uma boa qualidade de sono, além da própria rotina e interesses ativos, mesmo que não seja por coisas relacionadas à escola. “Você gosta de música? Ler sobre ficção? Escute e leia, mesmo que não tenha ligação com [o conteúdo que você aprende], pois você vai exercitar a memória, deixando-a ativa para quando a quarentena acabar”, indica.

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