Há 10 anos Brasil adotou acordo visando à língua portuguesa forte

Mudanças vão do fim do trema ao uso do hífen, e o objetivo é facilitar a comunicação entre os países lusófonos

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O Brasil adotou em 2009 o novo sistema ortográfico, firmado entre países lusófonos para unificar algumas regras e facilitar a difusão internacional da língua portuguesa. Aprovado em 1990 por nove países, incluindo Portugal, o acordo substituiu sistemas ortográficos instituídos na década de 1940. Implementado, afetou 0,8% das palavras usadas pelos brasileiros. O Brasil foi o primeiro país a começar a aplicar as novas regras — assuntos políticos, econômicos e burocráticos atrasaram a adoção das normas no mundo. Aqui, foram sete anos de transição até o sistema se tornar definitivamente obrigatório em 2016. A adoção do acordo resultou em mudanças nas principais regras de acentuação e hifenização do português no Brasil.

“O desafio é incutir na sociedade essas novas regras. Tem de começar na imprensa, que tem grande difusão, formar sistematicamente nas escolas e enfim chegar ao uso cotidiano”, argumenta Maria Célia Pereira Hernandes, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Apesar das dificuldades de implantação, nos meios de comunicação e no mercado editorial a reforma foi um alívio. A especialista em filologia argumenta que a maior sistematização do português facilita a edição e revisão de texto, gerando ganhos econômicos.

O novo acordo garantiu reconhecimento da língua portuguesa como idioma oficial da ONU, uma vez que dá mais formalidade à língua, falada por 244 milhões de pessoas, em oito países. “Outro objetivo era simplificar o intercâmbio cultural, comercial e científico entre essas nações”, diz Maria Célia. O próprio português é a primeira ponte.

Essa diversidade entre os falantes também pode ser um desafio. Cada etnia dá sua própria fonética ao português, e o choque do idioma luso com outros nativos proporcionou peculiaridades na evolução da língua em cada lugar. A professora defende, em detrimento disso, que a língua escrita é conservadora e letárgica diante de transformações. Exemplifica com o romance Iracema, de José de Alencar, o primeiro livro em língua portuguesa com forma brasileira. “Era o mesmo português que todos usavam, o que mudou foi a forma de organizar as palavras, dando um revestimento brasileiro”, completou. No acordo é igual, muda-se a ortografia, mas a sintaxe, a estruturação das frases e períodos continuam como eram, assim como cada modo de falar específico.

Existem dificuldades, todavia. Embora o desaparecimento do trema tenha se dado de maneira natural, o hífen ainda gera dificuldades. A especialista aponta que grande parte dos atuais professores foi formada antes da implementação do novo acordo, encontrando dificuldades para criar ferramentas didáticas para explicar a regra. A falta de investimento no ensino é outro obstáculo para a consolidação do novo sistema. As pessoas mais velhas e que estão saindo do mercado de trabalho têm uma adaptação mais lenta, da mesma forma.

“No fim, o escrito e o falado impactam-se de forma recíproca. Teve um artigo no Estadão cuja manchete era O que muda na Língua Portuguesa. Isso gerou bastante confusão, as pessoas pensaram que surgiriam novas palavras com o novo acordo. A oralidade segue igual”, esclareceu Maria Célia.

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