Guerra pela península da Crimeia é improvável, mas tensão deve perdurar

Segundo Angelo Segrillo, Estados Unidos, Rússia e Ucrânia não estão interessados em começar um conflito aberto, mas a complexidade da disputa pela região faz com que as soluções diplomáticas sejam improváveis

 10/05/2021 - Publicado há 1 ano
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Homens armados em patrulha no aeroporto de Simferopol, na península da Crimeia, Ucrânia – Foto: Wikipédia

Após o aval do presidente Vladimir Putin, tropas russas foram enviadas para a fronteira com a Ucrânia, onde fica a península da Crimeia, território disputado pelos dois países. Estados Unidos e União Europeia classificaram essa situação como uma “crise potencial iminente”, um alerta para a possibilidade de eclodir uma guerra armada em uma área de conflitos frequentes. Em resposta, o presidente norte-americano Joe Biden também deslocou tropas para a região e foi chamado de inimigo pelos russos.

De acordo com Angelo Segrillo, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, apesar da mobilização militar e da troca de ameaças, uma guerra aberta é improvável. “Neste momento, essas disputas estão mais na área de provocações e ameaças simbólicas ou um pouco mais que isso”, afirma. “Mas nem Estados Unidos nem Rússia querem entrar em guerra por causa da Ucrânia. Eu acho que deve se manter assim por um tempo”, acrescenta.

Relação russo-ucraniana

Apesar do envolvimento norte-americano, Rússia e Ucrânia protagonizam a disputa pela Crimeia. Segrillo comenta que os dois países têm a mesma origem, por isso sua relação é ambivalente, com acordos comerciais e proximidade cultural, mas também crises e conflitos. “Do século 9 ao 12 eles eram um povo só, depois foram se diferenciando. É como se fosse uma briga em família, relação de amor e ódio.”

A península da Crimeia fez parte da Rússia até 1954, quando Nikita Khrushchov, primeiro-ministro da então União Soviética, transferiu a região para a Ucrânia. O professor comenta que, na época, essa mudança não causou muitos problemas, pois ambos os países integravam o bloco soviético. 

Entretanto, com a dissolução da URSS em 1991 e a independência de seus membros, a Crimeia passou a integrar a Ucrânia oficialmente. “Quando eles se tornaram países diferentes, ficaram aqueles russos étnicos fora da Rússia”, comenta Segrillo. Dessa forma, grande parte da população que habita a Crimeia tem identificação russa, e não ucraniana. Essa divisão étnica da região é um dos elementos que intensificam a disputa.

Disputa pela Crimeia

Crimeia Karadag e o mar negro – Foto: Herica Magosso – Pixabay

 

No final de 2013, a população pró-Ucrânia, através de uma série de protestos contra a influência russa no país, derrubou o governo de Viktor Yanukovich, que tinha o apoio da população pró-Rússia e de Putin. Em 2014, foi estabelecido um governo provisório, reconhecido pelos EUA. A situação gerou uma crise política e social, com disputas entre os apoiadores da Rússia e os apoiadores da Ucrânia.

Putin acusou os norte-americanos de alimentarem um golpe e ordenou que suas tropas ocupassem a península, sob o pretexto de proteger a população e os navios russos que estavam na região. “Na Crimeia se encontra a grande frota russa marítima de águas quentes”, afirma Segrillo. “Putin resolveu proteger sua frota imediatamente e a maneira mais rápida de fazer isso foi anexar a Crimeia”, completa.

Nesse cenário de apoio de parte da população e de ocupação militar, o líder promoveu um referendo, em que 96% dos votos eram favoráveis à anexação da Crimeia pela Rússia, apesar de o resultado ser contestado por conta da influência dos militares. Desde então, a região passou a ser considerada um território ucraniano sob ocupação russa.

“A Crimeia, naquele momento de 2014, era parte da Ucrânia, que se sentiu lesada. A Rússia também tinha suas razões, porque havia um presidente pró-Rússia eleito democraticamente, que foi derrubado”, afirma. “São polos muito difíceis de se resolver”, conclui.

Angelo Segrillo, professor da FFLCH – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo Segrillo, além do fator histórico, os interesses russos e ucranianos na Crimeia se devem principalmente a uma questão estratégica. A região tem águas quentes e permite a conexão entre os mares Negro e Azov, por isso é uma importante rota marítima que não está suscetível ao congelamento de suas águas. No caso dos EUA, o interesse é geopolítico, com a possibilidade de exercer influência em uma região que faz fronteira com a Rússia, um de seus antagonistas.

Os sete anos de conflito na Crimeia causaram a morte de mais de 14 mil pessoas. Segundo estimativas da União Europeia, o efetivo militar russo dos últimos dias chegou a 100 mil soldados, maior do que em 2014, durante a anexação. O ministro de defesa russo declarou que essas tropas estão em exercício militar e retornarão às suas bases, mas ainda não está claro quando e se isso ocorrerá.

Para o professor Segrillo, apesar de uma guerra aberta envolvendo EUA, Rússia e Ucrânia ser improvável, a tensão na Crimeia pode ser considerada um conflito congelado, em que soluções diplomáticas são difíceis e novos embates podem começar a qualquer momento. “Está me parecendo que este vai se tornar mais um desses conflitos congelados, sem resolução e que dura muito tempo.”


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