Grandes empresas usam ações de marketing para encobrir irregularidades

Paulo Feldmann expõe que a sociedade já boicotou grandes marcas, mas falta legislação sobre responsabilidade social das empresas

jorusp

A responsabilidade social corporativa, isto é, o envolvimento de grandes empresas com causas sociais e ambientais, tornou-se em muitos casos mera estratégia de marketing para encobrir irregularidades, evidencia o professor Paulo Feldmann, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, em artigo publicado recentemente. Feldmann recupera uma série de exemplos que ilustram esse fenômeno, como as tragédias de Mariana e Brumadinho proporcionadas pela Vale. O Jornal da USP no Ar conversa com o professor sobre o assunto.

Na década de 1980, ocorreu pela primeira vez um movimento mundial de boicote a uma marca importante, acusada de usar de mão de obra infantil – a Nike. Esse episódio desencadeou uma guinada para que as empresas começassem a promover ações sociais e ambientais. Na época, parecia que um novo capitalismo estava surgindo, menos selvagem e mais humanizado. Todavia, no início deste século, “percebeu-se que muitas corporações se diziam responsáveis quando, na verdade, não o eram”, esclarece Feldmann.

“Infelizmente está virando uma fraude”, discorre o economista sobre a responsabilidade social corporativa, e avança: “É algo que começou de uma forma muito bonita. As empresas pareciam realmente empenhadas em ajudar a sociedade, contribuir com o meio ambiente, diminuir a desigualdade”. Porém, “com o passar dos anos, se verificou que não é bem assim”, frisa Feldmann.

Essa tese ganha força, clareza, quando empresas ditas socialmente responsáveis são protagonistas de escândalos. “A contradição, a hipocrisia, ficam evidentes”, comenta Feldmann, relembrando episódios marcantes: “Aqui no Brasil tivemos um caso emblemático, a Vale. Primeiro a tragédia em Mariana. Ela continuou se dizendo socialmente responsável. Depois veio Brumadinho, mais de 400 mortes causadas por uma empresa que se diz socialmente responsável”.

O professor pondera que há casos de empresas que realmente contribuem com a sociedade, “mas que isso é exceção”. Feldmann cita o Prêmio Nobel de Economia, Milton Friedman, ao dizer que “não existe almoço grátis”. Em síntese, as empresas existem para dar lucro; querer que elas contribuam socialmente, de forma espontânea, é ingenuidade, na visão do professor. Contudo, Feldmann acredita que as grandes corporações têm que contribuir com a sociedade e para que isso ocorra é necessário uma pressão social e governamental, além de mecanismos efetivos de fiscalização.


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