Governo transforma desmatamento e queimadas em pauta geopolítica

Pedro Luiz Côrtes aponta aumento de cinco vezes nos focos de incêndio na região amazônica em agosto, segundo Inpe

A quantidade de queimadas na região amazônica repercutiu muito esta semana. Na segunda-feira, uma chuva atípica mostrou que a fumaça proveniente dos focos de incêndio já estava atingindo a Região Sudeste, indicando a extensão do problema. Em resposta, o presidente Bolsonaro disse que “pode estar havendo, pode, não estou afirmando, a ação desses ‘ongueiros’ para chamar a atenção para minha pessoa (sic)”. E completou: “foi para lá o pessoal [de ONGs] para filmar e depois tacaram fogo (sic). Esse é o meu sentimento”. Nesta sexta-feira (23), a presidência francesa anunciou: “O presidente Bolsonaro decidiu não respeitar seus compromissos climáticos nem se comprometer com a biodiversidade” e, assim, a França se opõe ao acordo com o Mercosul. O governo finlandês já recomendou o banimento da importação de carne brasileira à União Europeia (UE).

Já na quinta-feira (22), Emmanuel Macron havia comentado a situação no Twitter: “Isso é uma crise internacional. Membros do G7, vamos discutir essa emergência”. O premiê canadense, Justin Trudeau, tomou o lado do francês nas redes. O primeiro-ministro irlandês Leo Varadkar pôs em xeque o avanço do acordo comercial UE-Mercosul, em anúncio na mesma noite. “Bolsonaro alegou que não admitiria participar de fóruns onde a soberania do Brasil sobre a Amazônia fosse contestada. Isso nunca aconteceu na realidade. A Amazônia Legal brasileira sempre foi soberana. Mas o governo transforma um problema local em geopolítico, com sua negligência”, argumenta o professor Pedro Luiz Côrtes, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE), no Jornal da USP no Ar.

Segundo dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e acessíveis a todos, desde o dia 1º de agosto até dia 22 do mesmo mês, o número de focos na Amazônia Legal brasileira foi igual a 356.422. Em 2018, no mesmo período, esse número foi igual a 71.710 focos. “Ou seja, tivemos um aumento de cinco vezes no número de focos de incêndio, apenas na região Amazônica”, aponta Côrtes. Além do que, o cientista fez um resgate dos dados de anos anteriores, para uma análise da série histórica. “Até hoje (23), já eram 359.911 focos. Em 2017, foram 152 mil; 2016, 120 mil; 2015, 145 mil”.

Este ano, os campeões foram Pará (com 29,6% dos focos), Rondônia (24,7%), Amazonas (22,4%) e Mato Grosso (19,3%), conforme informações do Inpe. “No ano passado, esses mesmos Estados também ocupavam a liderança”, lembra o professor. Todos esses Estados fazem parte da Amazônia Legal brasileira e fazem parte da fronteira agrícola.

Côrtes recorda que fechar o Ministério do Meio Ambiente estava entre as propostas de campanha do presidente. “Esse tipo de atitude tem repercussões na exportação. Enquanto os números de desmatamento assustam, não se vê reação direta do governo. Bolsonaro disse que criará uma comissão ou força tarefa, e esperamos que surja algo positivo. Mas, há vários meses, ele foge do assunto. A fiscalização foi extremamente abrandada nos últimos meses”, afirma.

Nesse meio-tempo, ruralistas reclamam da posição do governo. “Quem é que não está vendo, mais do que nós, agricultores, que as chuvas mudaram, a temperatura mudou, rios que não secavam antes, que eram perenes, e hoje secam? Quem nega isso está fora da realidade”, argumentou a senadora da bancada ruralista Kátia Abreu, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. “Corremos o risco de sofrer boicote às nossas exportações, a pressão dos consumidores e ambientalistas tende a aumentar e o Brasil pode perder mercado”, alegou Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura e acionista da maior trading de grãos de capital brasileiro.

A reação inicial do Governo Federal foi tentar negar a dimensão desse problema. “Primeiro, demitiu o diretor do Inpe. Esta semana, o ministro da Agricultura, Ricardo Salles, chegou a dizer que a chuva com material particulado e o céu escuro em São Paulo eram fake news. E, depois, veio a insinuação de que esses focos seriam promovidos por ONGs interessadas em atingir a imagem presidencial”, analisa o especialista.

O Laboratório de Estudos em Química Atmosférica do Instituto de Química (IQ) da USP analisou uma amostra, indicando a presença de reteno na água da chuva, um marcador de queimada e produto da queima de biomassa. “Dez dias atrás, olhei as imagens dos nosso sensores dos satélites em órbita e eles mostravam claramente os focos de calor separados, com colunas de fumaça enormes saindo daquelas áreas da fronteira agrícola”, alegou Douglas Morton, chefe do Laboratório de Ciências Biosféricas do Centro Goddard de Voo Espacial da Nasa, em Maryland, nos Estados Unidos, ao jornal Folha de S. Paulo.

Côrtes alerta sobre uma possível estratégia do governo Bolsonaro: “O governo está licitando um novo sistema de monitoramento, com uma maior precisão técnica. Esse novo sistema é desnecessário. O Deter (método de monitoramento do Inpe para desmatamento) opera com uma resolução de 30 metros. Isso significa que cada ponto na tela equivale, em campo, a uma área de 30 metros de diâmetro. As copas das árvores na região amazônica têm entre 20 m e 30 m de diâmetro. Portanto, ele tem sensibilidade suficiente para detectar se uma única árvore foi suprimida. Isso é o suficiente e o necessário para alertar a respeito do desmatamento”.

“Então, qual é a jogada? Com a adoção de um novo sistema de monitoramento, o governo vai iniciar uma nova série histórica sobre o desmatamento. Ele vai alegar que o sistema novo é mais completo e sofisticado do que o atual e que a comparação entre os dois não é possível. Assim, não será possível aferir se o desmatamento aumentou em relação a anos anteriores”, supõe o professor. Isso significaria outro retrocesso na fiscalização, já que a ciência trabalha com informações distribuídas ao longo do tempo.

Dessa maneira, “o boicote se aproxima. O governo abre a possibilidade para que aconteça um monitoramento internacional por imagem da Amazônia Legal. Dá espaço para outros países se organizarem e tomarem uma posição em relação à floresta. Isso seria um desastre”, alega Côrtes. A Amazônia tem impacto sobre o clima de toda a América do Sul. É responsável pelo regime de chuvas na Regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste do Brasil e de outros países como Argentina, Paraguai e Uruguai. O Pacífico Equatorial também está sob a sua área de influência. Fora isso, é uma imensa reserva de carbono. Sua queima aumenta a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera. “As repercussões são globais e não são apenas ONGs se posicionando. São governos”, defende o cientista ambiental.

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