Genocídio Rohingya gerou maior êxodo do mundo contemporâneo

Especialista diz que vencedora do Prêmio Nobel da Paz corrobora o quadro social distópico da etnia

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Desde 2017, mais de 700 mil rohingyas fugiram de Myanmar, no sul asiático, para Bangladesh, em uma tentativa de escapar a uma brutal repressão do exército. Um ano depois, o campo de refugiados de Kutupalong é um dos maiores do mundo, e muitos dos seus moradores ainda não sabem o que o futuro lhes reserva. As Nações Unidas já alertaram para uma “geração perdida” de crianças nos dois lados da fronteira. Sem educação, estima-se que meio milhão de crianças esteja em risco. A questão dos refugiados é um dos maiores desafios do século 21, e a professora de Filosofia Política da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Marília Fiorillo, conversou conosco e analisou a situação dos rohingyas.

A professora explica que o povo é de origem tibetano-birmanesa, muçulmanos e apátridas, ou seja, sem uma nação definida, apesar de a maioria deles, até pouco tempo, se concentrar em Myanmar, antiga Birmânia. Ela conta que a crise migratória vem da situação social do povo: existia, até 2017, em uma província ao norte do país, cerca de 1 milhão de rohingyas, que não possuíam direitos civis ou políticos e nem sequer eram considerados cidadãos – no senso de 2014 eles foram ignorados. No entanto, apesar dessa condição de negação da existência do povo, a convivência entre as etnias rohingya e birmanesa era pacífica até agosto de 2017, quando houve, nas palavras de organizações humanitárias e da própria Organização das Nações Unidas (ONU), um genocídio.

Foto: DFID Burma via Wikimedia Commons – CC

Hoje, em decorrência desse genocídio Rohingya, ocorreu o maior êxodo do mundo contemporâneo e o campo de refugiados de Kutupalong abriga parte dos migrantes que fugiram de Myanmar. Marília conta que a situação dos campos, entretanto, não é nada acolhedora, devido à falta de infraestrutura e condições dignas de vida, e por isso foram levantados, nos últimos meses, os chamados “assentamentos espontâneos”. A professora conta que eles são ainda piores que os campos de refugiados, pois, em contraste com a escassa infraestrutura nos campos, esses assentamentos não têm nenhuma estrutura – não há tendas e nem mesmo banheiros. Marília lembra que a Corte Penal Internacional (CPI) alegou não poder interferir baseado no fato de que Myanmar não é signatária do Tratado de Roma, mas recentemente trouxe um novo argumento de que houve crime se houver ocorrência nas fronteiras do país.

Por fim, a professora lembrou que Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991, é birmanesa e política de oposição, mas que, no entanto, mantém-se em silêncio. Nas palavras de Marília, ela passou de “dama das flores” para “dama da matança”. Em nenhum momento ao longo desses 12 meses ela admitiu violência, e em discurso ainda no início do genocídio ela sequer citou a palavra Rohingya, corroborando a exclusão social e o quadro de não existência do povo.

Jornal da USP no Ar, uma parceria do Instituto de Estudos Avançados, Faculdade de Medicina e Rádio USP, busca aprofundar temas nacionais e internacionais de maior repercussão e é veiculado de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 9h30, com apresentação de Roxane Ré.

Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93,7, em Ribeirão Preto FM 107,9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular. Você pode ouvir a entrevista completa no player acima.

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