Fechamento de fábrica da Ford tem motivações internacionais

Mercado interno não é único problema. Exportar não soluciona fechamento da fábrica em São Bernardo, afirma especialista

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A Ford anunciou que vai fechar, até o fim de 2019, a fábrica de São Bernardo do Campo. A fabricante afirma que a medida faz parte do seu plano de reestruturação regional, cujo objetivo seria o “retorno à lucratividade sustentável de suas operações na América do Sul”. Com isso, a montadora deixará de produzir e comercializar no Brasil e região o Fiesta, hoje único automóvel produzido na unidade paulista, bem como as linhas de caminhões Cargo, F-4000 e F-350. A redução com gastos com funcionários será de mais de 20%. A montadora informou que atualmente a fábrica no ABC emprega cerca de três mil colaboradores e que “haverá um impacto significativo nos empregos”. O fim da produção nacional de caminhões está relacionado à expansão de alianças globais com outras montadoras para unificação de projetos e corte de custos operacionais. Para entender o caso, o Jornal da USP no Ar conversou com a professora Adriana Marotti de Mello, do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP.

Fábrica da Ford em São Bernardo do Campo – Fotos: Reprodução / Google Earth

A decisão não se restringe ao território nacional. Exportar, em vez de atender ao mercado interno, não é uma solução. “O Brasil fabrica um modelo de veículo de baixo nível tecnológico, que não apresentaria mercado fora da América do Sul ou do México. As decisões tomadas aqui se relacionam com decisões de montadoras globais [de países como Alemanha, Estados Unidos, Coreia e Japão], que de certa forma dividem o mundo por regiões de interesse”, explica. No mercado europeu, alguns dos requisitos dizem respeito a carros híbridos e elétricos, que poluem menos. Em suma, o Brasil não possui competitividade em nível internacional.

A montadora é a quarta maior do País no setor de caminhões e demitirá cerca de 3 mil funcionários. Além desse impacto direto, “a decisão afetará a cadeia produtiva como um todo. Desde fabricantes de motores, peças de acabamento, bancos, vidros e pneus, até redes de revendedores de caminhões da Ford também, que provavelmente terão que fechar.” De acordo com a professora, a capacidade ociosa até certo ponto é tolerável, mas a situação tem um efeito cascata que se inicia com a recessão econômica enfrentada pelo País: “O caminhão é um bem de capital. Não há mercado para o setor, porque as empresas que o compram – em sua maioria de logística e transporte – estão em crise”.

Para evitar comprometimento de empregos, o governo de São Paulo está à procura de um comprador para a fábrica de São Bernardo. Na opinião de Adriana, entretanto, “quando chega ao ponto da empresa fazer esse tipo de anúncio, é difícil reverter a situação”. Ela ressalta como isso será ruim para a região do ABC: “Imagina que, até o fim do ano, 3 mil pessoas perderão o emprego. Serão três mil famílias com menor poder de consumo dentro da cidade.”

A especialista relembra que não é a primeira vez que a montadora anuncia mudança que abala a estrutura do eixo fabril de São Bernardo do Campo. “No final dos anos 90, quando a Ford fez o projeto do Ecosport e abriu uma fábrica em Camaçari, já havia um temor de paralisação ou fechamento da fábrica de São Bernardo. Mas, com o fechamento da fábrica no Ipiranga, a produção de caminhões foi transferida para o ABC e isso fez com que o sistema continuasse a funcionar.”

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