Fake news se tornam fonte de consolo em momentos de crise

Especialistas afirmam que fake news são frutos de mentes com necessidades primitivas e ideias delirantes e podem ser usadas como estratégia de marketing já que se espalham 70% mais rápido e com maior alcance que notícias verdadeiras

As notícias falsas, popularmente conhecidas como fake news, se tornaram um dos assuntos mais debatidos nos últimos anos. Todos os dias, surgem informações que deixam dúvidas sobre suas veracidades. Para a psicanalista Maria Auxiliadora Campos, que é médica psiquiatra e docente aposentada da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, “as notícias falsas existem desde sempre e há aspectos destrutivos, invejosos, de desejo por poder e negacionistas” que explicam suas produções. Segundo a professora, as fake news “são produtos de uma mente com necessidades primitivas e ideias delirantes”.

Mesmo que duvidosas e sensacionalistas, essas notícias conseguem atingir milhares de pessoas. É que “situações de crise tiram as pessoas da zona de conforto e favorecem a proliferação de muitas notícias e teorias que carecem de evidências, mas que servem de consolo às pessoas”, afirma a professora, que justifica seu argumento pela falta de recursos psíquicos dessas pessoas para lidar com sofrimento, perdas e incertezas, o que as tornam mais suscetíveis às fake news. De acordo com Maria Auxiliadora, vivemos o conceito de “pós-verdade”, em que as pessoas preferem acreditar no que as convém e não no que é o certo. “O medo e a ansiedade não convivem bem com a incerteza, levando muitas pessoas a se apegarem a notícias, mensagens e promessas que contemplam seus desejos e as tranquilizam, mesmo que ilusórias.”

Foto: Tanaonte/123RF

Como não conseguem tratar as fontes – mentes doentes – de notícias falsas em situação de crise e preocupados com a pandemia da covid-19, alunos da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP e os grupos de divulgação científica Vidya Academics e Pretty Much Science criaram o manual  Coronavírus, Fake News e como identificá-las”.  O objetivo é contribuir para o combate às notícias falsas, principalmente com relação ao novo coronavírus, já que “a facilidade de compartilhar conteúdo nas redes sociais é um fator importante para replicar informações falsas”, diz Wasim Syed, um dos autores do projeto.

O investimento em mecanismos de identificação das fake news, segundo Syed, importa pela dimensão que tomaram. Um estudo feito pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, apontou que as fake news se espalham 70% mais rápido que as notícias verdadeiras, além de apresentarem alcance maior. Para Syed, “a CPI das Fake News é um exemplo de que os maiores investidores e criadores de conteúdos falsos são políticos e empresários, o que explica como essas notícias conquistam uma dimensão absurda”. O aluno lembra que as fake news “também podem ser uma fonte de renda para sites, jornais alternativos e empresas”.

Syed destaca ainda o comportamento dos jovens diante das fake news. Para ele, os mais velhos são mais crédulos, enquanto os mais novos estão mais preocupados com a questão, não só priorizando as informações verdadeiras, mas sentindo “obrigação de se manter mais conectado com a realidade, para criar redes de interações interessantes, se manter no mercado de trabalho, estabelecer relacionamentos e não ser excluído da sociedade.”

Ouça no player acima íntegra das entrevistas com a psicanalista, médica psiquiatra e docente aposentada da FMRP da USP Maria Auxiliadora Campos e com o criador do guia “Fake News e como identificá-las” Wasim Syed ao Jornal da USP no Ar. o Regional.

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