Expectativa de imunidade coletiva por contágio prejudica o combate à pandemia

Ao comentar a nota técnica da Congregação da Faculdade de Saúde Pública, Claudia Moreno diz que se observa no País uma política de Estado que promove o espalhamento do vírus e o agravamento da pandemia

A nota técnica da Faculdade de Saúde Pública diz que não existe uma dicotomia entre proteção da economia e proteção da saúde – Foto: Francisco Emolo/Jornal da USP

No último dia 29, a Congregação da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP divulgou uma nota técnica que aponta que a expectativa de imunidade coletiva por contágio causa a morte de centenas de milhares de brasileiros e ameaça o Sistema Único de Saúde (SUS) no curto, médio e no longo prazo, enquanto este responde a uma enorme demanda no segundo ano da pandemia no País.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar 1ª Edição, a professora Claudia Moreno, do Departamento de Saúde, Ciclos de Vida e Sociedade da FSP da USP, responsável pela nota técnica, explicou que estamos observando no País uma política de Estado que promove o espalhamento do vírus e o agravamento da pandemia. Isso estaria ocorrendo a partir de medidas que incentivaram a expectativa de imunidade coletiva por contágio – também chamada de imunidade de rebanho. A professora explica que essa imunidade, na verdade, seria alcançada a partir da vacinação de 70% a 90% da população e, por este motivo e pela gravidade da doença, esta não seria a estratégia adequada de resposta à pandemia.

Claudia destaca que a política que promove a expectativa dessa imunidade está associada a uma propaganda contra a saúde pública realizada pelo próprio governo, através de discursos que minimizam a gravidade da doença e atitudes como a promoção de aglomerações em eventos políticos. Além disso, o desencontro entre os discursos políticos, segundo a professora, gera um trânsito de informações falsas e discursos distorcidos, confundindo a população e levando ao descrédito informações técnicas e científicas.

Falsa oposição

A nota técnica da FSP também discute que não existe uma dicotomia entre proteção da economia e proteção da saúde, mas esta é uma falsa oposição que precisa ser desfeita. Claudia destaca que uma política coerente cuidaria da saúde da população e daria um subsídio àqueles que não poderiam trabalhar por conta do isolamento social. “Essas coisas têm que ser feitas em conjunto, por isso é importante a discussão da crise sanitária a partir de políticas de saúde pública”, afirma a professora, que também chama a atenção para a “necessidade urgente” de uma coordenação nacional adequada.

A Congregação da FSP também aponta que o SUS, que já não era adequadamente financiado, está evitando que a catástrofe sanitária seja ainda maior, mesmo sem ter recebido recursos financeiros suplementares em 2020. Segundo Claudia, o SUS tem capacidade para agilizar o processo fundamental de vacinação, desde que tenhamos as doses necessárias. Ela também destaca a importância da utilização de máscaras, do isolamento físico e da higienização das mãos, principalmente enquanto não se alcança uma quantidade ideal de vacinados e não se tem conhecimento suficiente a respeito das variantes surgidas a partir de mutações do vírus.

Acompanhe neste link a íntegra da nota técnica da Faculdade de Saúde Pública da USP.


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