Eventos culturais incentivam o cidadão a retomar o uso do Centro

O brasileiro é patrimonialista, tende a tratar assuntos públicos como se fossem privados, diz Guilherme Wisnik

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A Parada Gay, que ocorreu domingo (23), contou com sete horas de apresentações espalhadas em 19 trios elétricos. Conforme os organizadores, foram mais de três milhões de pessoas na Avenida Paulista. Já a Virada Cultural deste ano aconteceu em mais de 250 pontos, centralizados e descentralizados, movimentou cerca de cinco milhões de pessoas e teve uma avaliação geral do público de 8,6 em 10 pontos possíveis.

O professor Guilherme Wisnik,da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, defende a importância de ocupar as ruas com cultura. Isto começou, de acordo com ele, com a parada, a virada e, recentemente, com o carnaval de rua. “É o meio de levar a população a um outro entendimento do espaço urbano. A cidade é usada para trabalhar e circular, o que supõe um modo automatizado de uso. A proposta da arte é ligada ao lúdico, ao desfrute. Então, o cidadão percebe que pode usar sem se sentir em perigo”, explica.

Nesse sentido, o paulistano, incentivado por Virada Cultural, Parada Gay e outros eventos, vive uma certa disrupção do patrimonialismo. “Isto é, uma prática da cultura brasileira de tratar assuntos públicos como se fossem privados. Uma característica de sociedades coloniais que facilita a privatização dos espaços”, esclarece Wisnik.

Avenida Paulista durante o fim de semana – Foto: Diego Baravelli . via Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Ele conta que, até pouco tempo atrás, as pessoas de São Paulo estavam conformadas com morar em condomínios e agora há uma mudança de perspectiva. “Essa vontade de morar nas regiões centrais, principalmente entre os jovens de classe média alta, é um traço recente e muito positivo. Trocam a Granja Viana pela Santa Cecília, o carro pela bicicleta”, comenta.

Por isso, à medida que deixa sua zona de conforto nos afastados condomínios fechados, essa parcela da sociedade fica mais próxima às contradições da cidade. Assim, entendem melhor onde vivem,  de maneira a assumir um papel ativo frente à cidade, sugere o urbanista. Surgem, então, movimentos sociais, propondo uma São Paulo mais humana, como  o Buraco da Minhoca e o Movimento Parque Augusta. 

Fora a importância do Centro, por seu caráter democrático, em virtude do fácil acesso e da grande infra-estrutura pública e histórica, “fazer o cidadão bailar pelas periferias também é muito desejado”, defende Wisnik. Incentivando as redes locais,  dá-se asas a iniciativas comunitárias, como o São Mateus em Movimento, um dos expoentes atuais do grafite paulistanoA virada, este ano, além de prestigiar o Centro de São Paulo, passeou pela cidade em palcos descentralizados como o do Grajaú, no extremo sul, e o da Praça Brasil, na Zona Leste.

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