Europa veta entrada de brasileiros por falhas no controle da pandemia

Para Alberto do Amaral, a decisão da UE surge como reflexo da falta de coordenação do governo federal e do negacionismo do presidente da República

 02/07/2020 - Publicado há 1 ano
Foto: Jan Vašek / Pixabay

A União Europeia (UE) permitiu na quarta-feira, dia 1º, a entrada de turistas de 14 países, entre eles Canadá, Ruanda, Tailândia e Uruguai. Devido à situação da pandemia fora do controle, outras nações importantes para a movimentação do turismo europeu permanecem com a entrada proibida, como Brasil, EUA e Rússia. Esses e outros países terão situação revista ao final de duas semanas e podem ou não terem restrições retiradas.

A proibição da entrada de turistas brasileiros pode ser vista como resposta ao governo federal pelo mau combate da pandemia no Brasil. Quem fala sobre o assunto em entrevista ao Jornal da USP no Ar é Alberto do Amaral Junior, professor do Departamento de Direito Internacional da Faculdade de Direito (FD) da USP. “A União Europeia impôs critérios. Países que podem ter nacionais ingressando na UE são aqueles que possuem 16 contaminados por 100 mil habitantes, o Brasil tem 197. Hoje, o Brasil se constitui como um dos epicentros mundiais do coronavírus e isso significa que a gestão da pandemia no Brasil tem sido extremamente malfeita”, avalia Amaral.

Para o professor, isso é reflexo da falta de coordenação do governo federal em relação ao combate da pandemia, inexistência da unidade na gestão de políticas públicas voltadas à saúde para minimizar os efeitos provocados pela crise sanitária e a questão de termos um presidente que nega a pandemia e sua gravidade. Jair Bolsonaro faz parte de um pequeno grupo de países com chefes de Estado negacionistas como Bielorrússia, Nicarágua e Turcomenistão. Somado a isso, há os resultados extremamente negativos do combate à pandemia em território nacional.

“São esses fatos que levam a UE a não aceitar o ingresso de brasileiros”, explica o professor, que também é colunista da Rádio USP. Porém, há algumas exceções que permitem o acesso especial conferido para diplomatas e profissionais de saúde ou pertencentes a serviços médicos. Por outro lado, a não entrada de brasileiros afeta ainda mais a imagem do Brasil no exterior, o que não é algo bem-visto, por exemplo, por investidores. “A imagem do Brasil vem sendo afetada desde o início do atual do governo. [Como] no caso da floresta Amazônia e seu desmatamento e queimadas excessivas.”

Alberto do Amaral lembra que, desde o começo do mandato do atual presidente, o governo brasileiro adotou uma posição chamada de “alinhamento automático em relação ao governo dos EUA”. Segundo ele, na prática, o Brasil endossa e apoia todas as ações do governo norte-americano em matéria de política externa. “Esse fato é extremamente negativo e contraria a tradição diplomática brasileira, que era de independência. Para o professor, os interesses da superpotência americana são naturalmente diferentes dos brasileiros. “Portanto, atrelar os interesses brasileiros aos dos EUA é um erro crasso.”

“O Brasil é uma potência média, não é uma grande potência. Dessa forma, há interesses conflitantes, como no caso da agricultura, entre o Brasil e os EUA. Quando o governo brasileiro decide atrelar sua política externa à americana, ignora as especificidades dos interesses brasileiros no complexo cenário internacional.” Amaral lembra que essa é uma contradição evidente entre nossa atual política externa e a praticada pelos governos anteriores de vieses ideológicos distintos. “Vimos que ministros das Relações Exteriores de governos muito diferentes depois da Constituição de 1988 assinaram uma carta condenando a política externa hoje praticada pelo Itamaraty”, lembra Alberto do Amaral.

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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