Estudo indica invisibilização das alunas no curso de Direito

Objetivo da pesquisa é entender como e de que forma o processo de ensino é marcado por dinâmicas de gênero

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A pesquisa Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um currículo oculto? é organizada pelo grupo que faz estudos sobre desigualdade de gênero na academia. O objetivo é descrever e analisar as interações que ocorrem nas salas de aula, buscando compreender como e de que forma o processo de ensino e aprendizagem é marcado por dinâmicas de gênero. Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, a professora Sheila Christina Neder Cerezetti, do Departamento de Direito Comercial da Faculdade de Direito (FD) da USP, e Lívia Guimarães, doutoranda e uma das coordenadoras do Grupo de Pesquisa e Estudos sobre Inclusão na Academia (GPEIA), falaram sobre a pesquisa.

Segundo Sheila, o estudo surgiu a partir de uma demanda das próprias alunas. Em 2015, a professora foi procurada por um grupo de graduandas que relatavam não se sentir à vontade para participar da aula como os homens e nem ouvidas quando participavam. As alunas queriam saber se isso era um sentimento individual ou se era algo estrutural. Lívia explica que, tanto na graduação quanto na pós, é perceptível algumas atitudes como a não valorização da fala da aluna, ou a ausência de respostas. Para ela, isso interfere no desenvolvimento das estudantes, que, apesar de ocuparem aquele espaço, não têm suas ideias e pensamentos levados adiante em comparação aos seus colegas homens.

Foto: Arktrus2/Wikimedia Commons

Sheila explica a metodologia da pesquisa, que foi feita através de uma dupla abordagem metodológica: observação participante com inspiração etnográfica. Isso quer dizer que alunos e alunas observavam as classes de aula e relatavam suas observações, seguindo um protocolo. Depois, estudantes que estavam naqueles espaços foram entrevistados. Ela conta que o principal resultado do estudo, que é o fato de o marcador de gênero ser oculto, mostra a sutileza das relações de gênero. “É como se a gente tivesse uma suposta ‘invisibilização’ do gênero feminino e uma naturalização do masculino. Ou seja, existe um problema de gênero na medida em que a mulher é invisibilizada, já que o ensino é todo pautado na naturalização da figura masculina, seja na figura de aula, em exemplos e participação”, comenta. Para ela, o cenário precisa ser repensado, pois a sala de aula é o espaço de formação dos futuros profissionais. Se as relações que se travam naquele ambiente já são desiguais, isso mostra o potencial de impacto no resto do desenvolvimento da carreira jurídica.

Para Lívia, o resultado vai ao encontro do que era esperado. A ciência mostrou que as sensações faziam sentido. Isso mostra uma tensão entre masculino e feminino na ocupação do espaço público acadêmico, que resulta numa maior dificuldade para se perceber as situações de discriminação de gênero. De acordo com Sheila, o primeiro passo para mudar essa realidade é criar consciência. A pesquisa explicita a situação através dos dados e irá gerar debate sobre o tema. A segunda medida é não deixar que o tema se esvaia em questão de pesquisa. O estudo indicou alguns caminhos, como a relação entre discentes e docentes. Por exemplo, o fato de que os alunos têm outra percepção quando é uma professora, o que é raro na Faculdade de Direito. É momento de olhar para essa estrutura que não atrai professoras e ver como isso impacta a participação das alunas.

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