Eleição de vereadores transexuais torna espaços legislativos mais plurais

Para João Filipe Cruz, embora o resultado das eleições tenha sido positivo para os grupos marginalizados, o perfil dos representantes pouco mudou, o que deve se constituir num grande desafio para os novos vereadores

 01/12/2020 - Publicado há 1 ano
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Pela primeira vez, a cidade de São Paulo elege dois vereadores transexuais: Thammy Miranda (PL) e Erika Hilton (PSOL). Outra novidade são os dois mandatos coletivos, o Quilombo Periférico e a Bancada Feminista, ambos do PSOL, com a travesti Samara Sosthenes e Carolina Iara, a primeira pessoa intersexo a ocupar o cargo. Segundo a Associação Nacional de Transexuais e Travestis (Antra), das 294 candidaturas trans em 2020 no País, 30 delas se elegeram, representando um aumento de 275% de pessoas trans eleitas em relação a 2016. 

João Filipe Cruz, doutorando em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, aponta três motivos principais que explicariam o sucesso das candidaturas de pessoas trans no pleito deste ano: mudanças nas relações entre o movimento LGBTQIA+ e a política institucional a partir do governo Dilma; contexto político atual; e as mudanças no Sistema Eleitoral, que permitiu a destinação proporcional do Fundo Eleitoral em 2020 para candidaturas negras e de mulheres, o que ajudou indiretamente as candidaturas LGBTQIA+ como, por exemplo, de mulheres trans negras. 

Cruz coordenou o projeto LGBTI+ e Eleições, organizado pelo Núcleo de Sociologia, Gênero e Sexualidade (NÓS/USP), com apoio do Grupo Interdisciplinar de Raça e Política (Gira), no qual foi possível identificar a forte influência da política atual para o engajamento de candidaturas trans: “Nós entrevistamos 30 candidatos e candidatas LGBTI+ de um total de 50 candidaturas aqui em São Paulo e, olhando para essas entrevistas, parece possível dizer que houve uma reação à eleição de Jair Bolsonaro e a percepção de que havia necessidade dessas pessoas se organizarem para se contrapor a esse avanço conservador, inclusive em espaços de representação política”. 

Embora o resultado nestas eleições tenha sido positivo para a representação de grupos marginalizados, Cruz analisa que o perfil dos representantes pouco mudou, o que representará um grande desafio para os novos vereadores: Esses parlamentares [LGBTQIA+] vão ter que se fazer ouvir, articulando apoio para a tramitação dos seus projetos e nesse processo é muito provável que algumas pautas em prol dos direitos LGBT acabem ganhando bastante visibilidade na Câmara. Ao mesmo tempo, a atuação do campo conservador segue forte, ocorrendo muitos embates. Mas, de modo geral, acho que o cenário pós-eleições de 2020 é bastante animador, pois os espaços legislativos mais plurais acabam contribuindo para a construção e consolidação de outros imaginários sobre quais sujeitos podem ocupar a política institucional”.


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