Economista afirma que Brasil caiu na armadilha da renda média

Para professor, privatizar investimentos pode ser a solução para infraestrutura falida do governo

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Passados cinco anos do início da deterioração econômica brasileira, o trimestre entre abril e junho de 2014 foi o primeiro da recessão, nenhum setor produtivo voltou ao patamar pré-crise. Na mais lenta retomada da história do País, a construção civil ainda está 27% aquém do registrado no começo de 2014, e a indústria, 16,7%. Um pouco menos atingidos, serviço e varejo também sofrem para se recuperar e estão em níveis 11,7% e 5,8% inferiores aos de 2014. Um dos mais recentes diagnósticos para a situação brasileira foi feito pelo ex-presidente do Banco Central, Affonso Celso Pastore. Para o economista, o País está em depressão, pois o Produto Interno Bruto (PIB) per capita cresceu de forma insignificante nos últimos dois anos (0,3% em cada ano) e deve terminar 2019 no mesmo nível de 2018. Isso significa que, em dezembro deste ano, o indicador estará 8% abaixo do registrado antes da recessão.
“O que caracteriza a depressão é uma parada súbita da economia, onde a produção e o emprego derretem muito rapidamente”, que geralmente está relacionada ao estouramento de uma bolsa ou bolha especulativa, afirma Simão Silber, professor do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP ao Jornal da USP no Ar. Um exemplo é a depressão de 1929 (devido à crise econômica), com queda do PIB de 25% e uma diminuição de empregos na mesma proporção. A partir dessa definição,  o professor pontua que o Brasil não passa por uma depressão, pois não houve uma parada e queda acentuada. “O que está acontecendo no Brasil é algo em câmera lenta: a economia teve uma recessão e não consegue sair do buraco. Em vez de depressão, eu usaria ‘mais uma década perdida’. Pelos meus cálculos, nós só teremos a renda per capita de um brasileiro idêntica a 2014 em 2023, portanto, o padrão de vida do brasileiro piorou. A grande pergunta é: por que não se recupera?”
Montagem sobre foto de Eduardo Coutinho / Flickr via Wikimedia Commons / CC BY-SA 2.0
Silber comenta que o poder de compra do brasileiro, em média, está 10% abaixo do que estava em 2014 e tal diferença é perceptível no cotidiano. “Nas próximas semanas, vamos ter duas manifestações de rua. Isso é sinônimo de alguma insatisfação muito grande dentro da sociedade. Algum confronto que não é econômico, mas é político e tem reflexos econômicos monumentais.” Ele afirma que a construção civil, governo e empresas são três investimentos importantes no País, mas “historicamente, desde 1947 para cá, a taxa de investimento nunca esteve tão baixa. E se não investir, não cresce”.
Para o professor, a receita do bolo são privatizações e concessões. Primeiro, porque “a nossa infraestrutura é falida, quebrada, depreciada, então um ingrediente fundamental seria passar uma série de atividades para o setor privado”; segundo, porque “nós temos uma economia muito fechada, que exporta muito pouco, então temos que fazer acordo com outros parceiros: já que o mercado interno não está bom [é preciso], vender para fora”.
Além do problema econômico, o Brasil também passa por um problema social dramático. “Aproximadamente 25 milhões, quase a metade, dos brasileiros estão desempregados, uma parte importante trabalhando menos horas do que devia ou trabalhando em bicos. Cinco milhões de brasileiros nem procuram mais emprego, porque ficaram dois, três anos procurando e não têm nem mais para quem mandar currículo. Então, essa crise tem a seguinte dimensão: você prepara alguém para trabalhar, e depois tem que explicar que não tem emprego.”
A previsão de crescimento é de 1%, “um número decepcionante para um país da dimensão brasileira, com potencial de crescimento muito grande, e que caiu – isso tem um nome técnico – na armadilha da renda média” em relação ao mundo. O professor explica que o País, desde 1980, não saiu da média, com crescimento total da economia total de 2,2% e o per capita, de 1%. “Significa que a gente tem que esperar 70 anos para dobrar o poder aquisitivo da população. Ou seja, o seu bisneto vai ter o dobro de poder aquisitivo que você. O Brasil está nessa toada há muito tempo: os outros andando mais rápido, e a gente vendo a boiada ir embora.”

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