Dor do crescimento pode acometer até 20% das crianças

A patologia, que ainda não tem causas conhecidas, pode trazer prejuízos ao paciente e tem tratamento simples, que envolve a mudança de hábitos

 06/11/2020 - Publicado há 1 ano
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Arte: Jornal da USP

Você não deve conhecer a dor musculoesquelética inespecífica, mas já deve ter ouvido falar da dor do crescimento. As duas são a mesma coisa e a patologia é mais comum do que parece. Ela acomete entre 10% e 20% das crianças, especialmente entre 4 e 12 anos de idade, e pode provocar fortes dores, principalmente, nas pernas. O paciente se refere à dor como uma pontada, uma dor queimando, apertando ou, também, aguda, como explica Hugo Rodrigues Gomes, médico do Serviço de Reumatologia Pediátrica e do Ambulatório de Dores em Membros do Centro de Reabilitação, ambos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP. 

“Geralmente ela piora no final do dia ou durante a noite, e com atividade física”, conta Gomes. Mas a dor melhora com medidas simples, como massagem local, banho ou compressa de água morna ou um analgésico. “Outra característica é que depois que acabam as crises de dor, a criança retoma as atividades sem prejuízos. Ela volta a brincar, a fazer atividades físicas, sem nenhuma limitação.”

Apesar do nome, a patologia nada tem a ver com o desenvolvimento em si, e o termo “dor de crescimento” é inadequado, segundo Gomes, já que, quando se ouve o nome, costuma-se associá-la às fases de crescimento da criança, o que não é o certo. “A gente mantém o termo ‘dor de crescimento’ porque ele já foi consagrado no literário popular e a população já imagina que essa dor é benigna, que não traz grandes prejuízos para a criança”, diz o médico. Outra curiosidade da patologia é que, mesmo sendo comum, ainda não existe uma causa estabelecida para o seu desenvolvimento. Existem apenas alguns fatores que podem contribuir, como antecedente de dor na família ou situações de estresse ou ansiedade na criança.

A prática de atividades físicas em excesso pode agravar o quadro do paciente. Mas, ao mesmo tempo, é um dos tratamentos mais eficazes contra a dor, desde que seja feito de forma equilibrada, “para que evite uma sobrecarga e uma piora da dor ao final do dia, já que existe uma correlação da dor com o aumento da atividade física durante o dia”, como conta Adriana Barone, fisioterapeuta do Centro de Reabilitação e do Serviço de Reumatologia Pediátrica, também do HCFMRP. Além disso, ela destaca que a fisioterapia tem um papel importante no tratamento. É que a fisioterapia “visa, principalmente, ao alívio da dor”. Para isso, é recomendado o uso do calor no local e massagem no membro acometido, além de técnicas de alongamento específicas.

Mesmo sendo comum, a dor de crescimento pode ser confundida com outros problemas, como uma doença neoplásica ou com doenças inflamatórias e ósseas. Para descartar essas possibilidades, é preciso fazer uma avaliação clínica detalhada e prestar atenção nas características, já que a “dor do crescimento acomete os dois membros, então, quando a dor é unilateral, já podemos descartar esse diagnóstico”, ressalta Gomes. Além disso, são feitos exames de sangue, de imagem, raios X e ultrassom, para poder ter o diagnóstico de dor de crescimento, que “é um diagnóstico de exclusão”.

O fator psicológico também está ligado ao desenvolvimento do problema. “Os aspectos emocionais não são a causa da dor, mas podem predispor o seu aparecimento”, resume Flávia Querido, psicóloga do Serviço de Reumatologia Pediátrica do HCFMRP. Ela ressalta que crianças que já apresentam outras dores crônicas, como dores de cabeça ou abdominais, sem causa específica, tendem a desenvolver a dor do crescimento, já que “são mais sensíveis à dor”. Além disso, destaca que o problema diminui a qualidade de vida da criança que, por conta das dores, “pode ter prejuízo no rendimento escolar, além de atrapalhar a socialização do paciente e gerar estresse e ansiedade”.

Ouça no player acima a entrevista com Hugo Rodrigues Gomes, Adriana Barone e Flávia Querido ao Jornal da USP no Ar, Edição Regional.


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