Discurso de Bolsonaro na ONU apresenta incoerências refutadas por especialistas

Paulo Artaxo e Pedro Luiz Côrtes criticam o discurso do presidente Bolsonaro na abertura dos debates da 75ª edição da Assembleia Geral da ONU

(Brasília – DF, 22/9/2020) Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante gravação de discurso para a 75ª Assembleia Geral da ONU – Foto: Marcos Corrêa/PR – Fotos Públicas

O Jornal USP no Ar de hoje (23) traz a repercussão do discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura dos debates da 75ª edição da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. Bolsonaro citou em seu discurso que há “interesse em propagar desinformação sobre o nosso meio ambiente”. Para o professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física (IF) da USP e membro da equipe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a campanha de desinformação citada por Bolsonaro é, na verdade, feita pelo próprio governo federal. Artaxo informa que há satélites de diversas nacionalidades ao redor do globo terrestre capazes de identificar os incêndios na Amazônia e no Pantanal, de forma a confirmar que os incêndios não são causados por índios ou caboclos, mas fazem parte da destruição do ecossistema como política governamental, o que demonstra a incongruência das informações apresentadas pelo presidente: “Não é possível esconder a verdade tentando contar uma mentira. Essa estratégia pode enganar alguns cegos, mas não engana nem a população brasileira nem os demais governos do nosso planeta”.

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Já o professor Pedro Luiz Côrtes, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e do programa de pós-graduação em Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, compartilha que o presidente insiste em “brigar com os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mas esquece que ele é um órgão federal e que tem uma ligação umbilical com a Força Aérea Brasileira”, sendo um órgão reconhecido tanto nacional quanto internacionalmente.

De acordo com Bolsonaro, “os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”. Segundo Côrtes, mesmo que se tome esta alegação como verdade, o crescimento intenso do desmatamento não acompanha a taxa de natalidade dos Estados que compõem a Amazônia, sendo inferior a 10% ao ano. “É muito fácil verificar nos levantamentos do Inpe, nas imagens de satélites, que há várias áreas que antes eram totalmente preservadas, áreas que antes eram reservas e vêm sendo atacadas por grupos de grileiros, por pessoas interessadas no comércio ilegal e no garimpo ilegal.”

Artaxo compartilha que dados do Inpe revelam que 90% das reservas indígenas, protegidas pela Constituição Federal, e terras públicas foram atingidas pelas queimadas, o que torna os incêndios ilegais e criminosos. O professor acredita que o Brasil corre risco de destruição desenfreada dos recursos naturais: “Nós temos um governo que está atualmente protegendo atos ilegais, que afrontam a Constituição brasileira. A sociedade, sob hipótese alguma, pode compactuar com a ação predatória que está destruindo os recursos naturais do nosso planeta de uma maneira explícita”.

Outra frase polêmica, desta vez proferida pelo ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Heleno, em entrevista para a Rádio Bandeirantes, indica que o Brasil pode retaliar países que adotem políticas de boicote ao País. Cortês comenta a questão ao analisar que o Brasil, enquanto produtor de commodities, não possui um produto único no mercado. “Como o Brasil vai retaliar se o poder está com o comprador e não com o vendedor?” Segundo o professor, o discurso não se sustenta: “Em geral, as falas do governo são voltadas para um determinado público interno e elas estão muito longe de prestar qualquer tipo de satisfação ao público externo, aos outros países que, efetivamente, são quem têm o poder de retaliação e o poder de embargo aos nossos produtos”.

O discurso do presidente Jair Bolsonaro apresenta informações incoerentes quando comparadas a dados oficiais de desmatamento e queimadas. O professor Artaxo afirma que a atitude do presidente é uma afronta à credibilidade do povo brasileiro em relação aos líderes mundiais, o que pode prejudicar, inclusive, a economia do País, tão estimada pelo governo federal. “O Brasil acabou virando uma piada do ponto de vista de política externa. Isso é muito ruim para a economia brasileira, isso é muito ruim para a credibilidade do Brasil.”

Ouça a entrevista do professor Paulo Artaxo na íntegra.

Ouça a entrevista Pedro Luiz Côrtes na íntegra.

 


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