Despreocupação ambiental do governo atual pode comprometer economia

Saldiva diz que apoio da UE ao pedido dos cientistas por respeito à sustentabilidade pode pressionar o Brasil

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Foto: Ministério do Meio Ambiente via Flickr / CC

A mais recente edição da revista Science traz uma carta assinada por 602 cientistas de instituições europeias, pedindo para que a União Europeia (UE), segundo maior parceiro comercial do Brasil, condicione a compra de insumos brasileiros ao cumprimento de compromissos ambientais. O documento faz três recomendações para que os europeus continuem consumindo produtos brasileiros, todas baseadas em princípios de sustentabilidade. Pede que sejam respeitados os direitos humanos, que o rastreamento da origem dos produtos seja aperfeiçoado e que seja implementado um processo participativo que ateste a preocupação ambiental da produção, com a inclusão de cientistas, formuladores de políticas públicas, comunidades locais e povos indígenas. Pesquisador de questões de uso do solo, políticas de mitigação climática, combate ao desmatamento e cadeias produtivas, o brasileiro Tiago Reis, da Universidade Católica de Louvain, é um dos autores da carta. O Jornal da USP no Ar conversou sobre a iniciativa com Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP, diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) e colunista da Rádio USP.

Saldiva afirma que o equilíbrio entre agronegócio e preservação ambiental teve, neste atual governo brasileiro, um desbalance, com o desmonte de estruturas importantes de controle ambiental. “A desregulamentação dos defensivos agrícolas ou agrotóxicos (depende do lado que você assume na questão) e o avanço do desmatamento” são algumas dessas estruturas. Assim, a manifestação dos cientistas pretende retomar os tratados internacionais e políticas com que o Brasil vinha se comprometendo.  “A carta é positiva, ela sinaliza ao nosso governo que não pode fazer qualquer coisa. Mesmo se quebrar soberania, existem regras que podem agregar ou perder valor a um produto, dependendo das práticas de como aquele produto é produzido”, opina o professor.  Em suma, “o Brasil poderá fazer o que quiser, mas as consequências poderão ser grandes do ponto de vista econômico”.

De acordo com o diretor do IEA, a recente declaração do ministro de ocupar questões internas e deixar de lado as questões globais mostra desconhecimento: “Ele divide o local e o global, quando na verdade essa divisão não existe. Nós estamos embarcados no mesmo mundo e no mesmo planeta, então as condições que são feitas aqui melhoram o ambiente do Brasil e simultaneamente estão levando a uma melhoria global”. E complementa a necessidade de mais estudo e ciência, em detrimento da ideologia. “O discurso ficou muito ideológico. O Brasil terá consequências grandes e vai demorar muito tempo para consertar qualquer desafeto que tenha sido feito em nome de uma ideologia muito particular que o governo cumpre hoje.”

“Talvez a gente tenha que reformular e reequilibrar a política ambiental no Brasil não a partir de forças internas, que estão perdendo força hoje […]. As universidades estão sendo estigmatizadas por um processo que vem acontecendo há muito tempo” e o cientista brasileiro está perdendo sua voz, de tal modo que talvez a correção tenha que vir de fora. “Eu torço para que isso saia bem tanto para a questão ambiental global como também, principalmente, para o nosso meio ambiente e preservação dos nossos recursos. Para a preservação do ponto de vista da economia, porque hoje você não pode produzir qualquer coisa por qualquer preço”, conclui Saldiva.

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