Descompromisso do governo quanto às reformas causa frustração

Para economista, se o governo não aprovar a reforma da Previdência, pode ocorrer fuga de empresas do Brasil

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O governo de Jair Bolsonaro aproxima-se dos 100 dias e o setor empresarial começa a abandonar a expectativa de viver uma retomada nos negócios ainda em 2019. O crescimento pode ficar para 2020, principalmente no setor industrial. No caso da indústria, o movimento de retomada precisa superar uma limitação operacional: a grande capacidade ociosa nas linhas de produção. Segundo dados da FGV (Fundação Getúlio Vargas), a ociosidade média da indústria brasileira está na casa de 26%, um patamar muito elevado. Sem investimentos nas operações já existentes ou na abertura de novas unidades neste ano, o cenário no mercado de trabalho também se deteriora. Os sinais de melhora da economia são tímidos.

“Não se pode perder tempo discutindo o sexo dos anjos, cada trimestre passado tem consequências reais”, alega o professor Fernando Botelho, da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP. O economista fala que o Rio de Janeiro é um exemplo de quando há uma falência do Estado. Segundo ele, “sem resolver o nó da Previdência, não há caminho para a recuperação, o Brasil entrará em colapso”.

“A ociosidade média da indústria brasileira está na casa de 26%, um patamar muito elevado” – Foto: Divulgação / Honda da Amazônia

Botelho explica que é missão dos políticos fazerem a reforma passar. “Paulo Guedes deve planejar propostas, oferecer alternativas e esclarecê-las, mas os trâmites no Congresso e com a população são um dever do presidente, ou de algum preposto como a Casa Civil. Agora Bolsonaro tem de articular uma base de governo e mostrar seus planos para o País, tanto ao povo como aos investidores”, declara o professor.

De acordo com o docente, a situação é urgente e quase 100 dias de governo já se foram. “São os mais pobres que sentem o desemprego e a falta de serviços estatais, como saúde, segurança e educação.” O economista defende que, fora o desarrocho do orçamento, hoje ocupado pela Previdência em 70%, a reforma atrairia investimentos e estimularia o consumo. “As pessoas teriam mais segurança para adquirir um imóvel, ou um carro, dada a maior estabilidade econômica”, justifica.

Por outro lado, sem a economia prevista pelas mudanças no regime previdenciário, Botelho prevê empresas abandonando o Brasil. “O ambiente seria de incertezas, a moeda perderia força assolada pela inflação, levando o País a um cenário de altos juros, ocasionando o aumento da dívida e ausência de crédito”, elucida. Os investidores não apostam se não sabem onde colocam seu dinheiro, ou se há um provável aumento substancial dos impostos. “Muitos provavelmente migrariam para países mais responsáveis”, argumenta o professor.

O economista não deixa de ser esperançoso, todavia. Ele defende que, se o governo tiver êxito em aprovar nos próximos seis meses, os tempos seguintes serão mais tranquilos, já que haveria vontade de se investir no Brasil. “A conjuntura externa está favorável, a situação doméstica demonstra potencial de crescimento, se venceria essa ociosidade. Os ventos estão a favor, é dever do capitão guiar sua tripulação”, conclui.

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