Depois do golpe, força das ruas indicará como será o futuro em Mianmar

Grandes potências estão atentas ao desfecho da ação militar, que impacta não apenas o Sudeste Asiático, mas a rivalidade entre Estados Unidos e China

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Os líderes das Forças Armadas alegaram fraude na eleição e, por isso, deram o golpe, numa tentativa de mostrar que o ato tinha legitimidade – Foto: Foreign and Commonwealth Office /Wikimedia Commons

 

No início de fevereiro, militares derrubaram o governo vigente de Mianmar, país do sudeste asiático. Tendo eleições democráticas desde 2011 e após uma vitória incontestável nas eleições de 2020, com mais de 80% dos votos, o partido liderado por Aung San Suu Kyi, ganhadora do Nobel da Paz em 1991, foi impedido de assumir suas posições no parlamento.

Os líderes das Forças Armadas alegaram fraude na eleição e, por isso, deram o golpe, tentando mostrar ao mundo que o ato tinha legitimidade. “O desenrolar dessa grande vitória do partido do governo foi esse golpe. E com repressão pesada, pois tanto Suu Kyi, líder do partido, quanto outros membros importantes do partido do governo, foram presos. O próprio presidente do país também foi”, explica Alexandre Figueiredo, pós-doutorando em Economia na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da USP.

Não demorou para que as ruas de Mianmar fossem ocupadas pelo povo, principalmente pela mobilização da juventude, que exigia respeito pela Constituição do país. Além dos mais jovens, funcionários públicos e até mesmo soldados demonstraram resistência aos atos comandados pelos oficiais militares. Figueiredo detalha que “é de se imaginar que, em uma eleição com uma vitória de 80%, há muitos eleitores de Suu Kyi e seu partido entre as Forças Armadas também”.

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O golpe dado em Mianmar não foi algo que surgiu de surpresa. O país tem um histórico político recente envolto em uma ditadura militar que durou até 2011. A democracia breve vivida pela nação nunca foi uma democracia plena, pois sempre esteve sob tutela das Forças Armadas.

EUA e China atentos ao futuro de Mianmar e ao impacto geopolítico do golpe   

Quando existe uma situação no mundo como a que ocorreu em Mianmar, as potências econômicas ficam atentas aos desdobramentos, inclusive, dando sanções em alguns casos. Sendo assim, não é surpresa que a rivalidade entre Estados Unidos e China também esteja presente aqui, cada qual atuando com suas próprias especificidades.

“No caso dos Estados Unidos, para o novo presidente Biden, essa foi uma oportunidade para que ele colocasse em ação sua proposta de uma política externa voltada a um discurso norte-americano mais tradicional de defesa da democracia. Aliás, esta foi uma das bandeiras que ele reivindicou durante a campanha eleitoral para fazer um contraponto contra Trump”, explica Figueiredo. Biden fez sanções a Mianmar depois do golpe, condenando a ação e bloqueando em torno de US$ 1 bilhão em fundos, o que no final pode prejudicar mais a população que está lutando nas ruas do que os próprios militares.

Já a China tem o interesse de manter boas relações com o governo de Mianmar, inclusive, gerando relatos de que Pequim estaria apoiando de forma velada os militares que deram o golpe no país. “Essa impressão surge, porque Pequim não assinou uma condenação aberta ao que aconteceu e não referendou, no Conselho de Segurança da ONU, uma declaração nesse sentido”, conclui o pós-doutorando. A China é um grande investidor em Mianmar, totalizando 25% do total de capital estrangeiro investido na nação.


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