Democracias da América do Sul passam por período conturbado

O “Diálogos na USP” recebeu os professores Alberto Pfeifer e Everaldo de Oliveira Andrade para discutir a situação, atualmente instável, dos países da região

A América do Sul tem passado por intensas convulsões políticas e sociais. Renúncia de Evo Morales na Bolívia, protestos generalizados no Chile, crise no Equador e turbulências entre presidente e Congresso no Peru são apenas alguns dos fatores agravantes na situação. Nem mesmo as eleições na Argentina e no Uruguai foram capazes de tirar os países de debate. O cenário venezuelano, então, está longe de encontrar uma solução.

Para comentar o assunto, o Diálogos na USP convidou Alberto Pfeifer, professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, especialista em América Latina, que atua como coordenador do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (GACInt) da USP.
Além dele, o programa recebeu Everaldo de Oliveira Andrade, professor de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, mestre em História Econômica, que está lançando o livro Bolívia – A Revolução Boliviana.

Everaldo Andrade explica que as jovens democracias da América do Sul estão passando por um período conturbado devido ao sentido que se aplica à democracia. Ela não pode ser vista como uma palavra vazia, deve ter conteúdo, priorizando a ampliação dos direitos sociais, o zelo pelos mais pobres, a construção de políticas sociais e o pleno atendimento de reivindicações populares. O pesquisador diz ainda que parte da desorganização das economias de tais países e sua instabilidade são reflexos da crise econômica de 2008.

Alberto Pfeifer diz que o que está se passando é uma revisão de processo. Nota-se uma diminuição dos conflitos interestatais e fortalecimento da democracia formal. A primeira década dos anos 2000, com o aumento de preço das commodities e exportações, fez com que os países passassem por um momento de enriquecimento e bonança econômica. Todavia, crescimento econômico não é sinônimo de satisfação popular, já que, apesar de o país ganhar dinheiro, a distribuição não é realizada de forma justa. Pesquisas recentes divulgadas pelo Latinobarómetro indicam que a população sul-americana está decepcionada com o regime democrático dos países.

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O apresentador Marcello Rollemberg, Everaldo de Oliveira Andrade e Alberto Pfeifer Filho – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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O Brasil, de acordo com Everaldo Andrade, é um exemplo da situação ilustrada. A má distribuição de renda também desequilibra a possibilidade de uma democracia razoável. Ele explica que a corrupção é um problema que existe, mas que não é exclusivo da América do Sul e que, apesar de relevante, pode ser também um foco dado pela mídia para desestabilizar os regimes. Considerando manobras do passado, o historiador cita os novos processos constituintes apresentados na Bolívia, Equador e Venezuela, que buscaram caminhos alternativos para aumentar a participação popular. Ainda não é possível afirmar o sucesso da ideia, mas, acredita-se que o fato permitiu superar algumas crises passadas.

Alberto Pfeifer diferencia o formalismo democrático do exercício democrático propriamente dito. O segundo seria o acesso democrático aos bens públicos e ao bem-estar de forma geral, considerando que o crescimento de renda não reflete o acesso a serviços públicos de qualidade. O professor também explica que as Constituições são inspiradas em regimes populistas do início dos anos 2000, como o de Hugo Chávez na Venezuela. Ele foi o grande mentor da transformação na relação entre Estado e sociedade, e Rafael Correa no, Equador, e Evo Morales, na Bolívia, seguiram tal inspiração. No entanto, todos os processos devem ser pensados considerando o contexto do país em discussão.

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