Contestação presente em 1968 também se manifesta na postura dos cientistas

Segundo o colunista, o papel dos cientistas é fundamentalmente o de contestar, mas com educação

 

Na edição de hoje (22), o professor Paulo Nussenzveig faz uma associação indireta sobre os eventos de 1968 e sua relação com a ciência e os cientistas. Em várias partes do mundo, foram deflagrados movimentos de contestação, de revolta diante de autoridades estabelecidas, de clamores por mudanças, por liberdade, por auto-determinação. Bem, isso sim, tem tudo a ver com ciência e com a postura dos cientistas.

Nussenzveig chama a atenção para um traço de Galileo Galilei, que é comum aos cientistas. “Em geral, somos meio ‘rebeldes’, odiamos argumentos de autoridade, não nos curvamos a dogmas. Preferimos chegar a conclusões baseadas em investigação direta, experimental, da natureza, somadas ao raciocínio lógico. Como Galileo, somos movidos pela curiosidade e pela vontade de encontrar respostas por conta própria. Ele não acreditava que ‘o mesmo Deus que nos deu nossos sentidos, nossa voz, nosso intelecto, fosse deixar-nos de lado para nos ensinar coisas que poderíamos descobrir por conta própria, com o auxílio de tais dádivas'”, analisa o professor. “Os maiores avanços promovidos por Galileo nos estudos do movimento precisaram enfrentar a resistência de seus contemporâneos, presos a ensinamentos de Aristóteles, com base em argumentos de autoridade, mesmo quando confrontados com evidências experimentais.”

Para o professor, os cientistas são treinados para desenvolver aguçado espírito crítico e duvidar de afirmações cujo embasamento não se pareça firmemente estabelecido. Grandes cientistas, como Albert Einstein, manifestaram-se explicitamente contra os malefícios que a noção de autoridade traz à ciência. Ele disse, por exemplo, que “respeito cego por autoridades é o maior inimigo da verdade” e ironicamente teve de reconhecer que, para puni-lo pelo seu desprezo por autoridades, o destino fez com que ele mesmo se tornasse uma autoridade.

O físico Richard Feynman colocou a questão muito bem num discurso na Academia de Ciências dos EUA, em 1955. Ele disse: “Cientistas adquirem muita experiência valiosa sobre ignorância, dúvidas e incertezas. Descobrimos ser de importância fundamental para progredir que temos de reconhecer nossa ignorância e sempre deixar espaço para dúvidas.” A ciência não representa um conjunto acabado de conhecimento, com receitas definitivas para lidar com os problemas do mundo. Talvez uma das contribuições mais importantes da ciência para a sociedade seja a valorização da postura permanente de questionamento crítico que devemos manter. No mesmo discurso, Feynman afirmou: “Nossa liberdade para ter dúvidas nasceu de uma batalha contra autoridades nos primórdios da ciência. Para avançar, precisamos poder questionar livremente, precisamos ter o direito de duvidar.” Naturalmente, isso não quer dizer que a rebeldia sem causa é uma atitude saudável. É fundamental questionar as “verdades” das autoridades, mas é preciso fazê-lo com embasamento, buscando falhas que possam ser testadas. O papel dos cientistas é, fundamentalmente, o de contestar, mas com educação.

Ouça no link acima a íntegra da coluna Ciência e Cientistas.

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