Clonagem da ovelha Dolly completa 25 anos com novas possibilidades para a ciência

Pesquisa possibilitou o desenvolvimento de célula-tronco pluripotente induzida (IPS) e avanços na medicina regenerativa

 30/07/2021 - Publicado há 2 meses
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“Até a Dolly, a gente achava que essa célula, uma vez tendo decidido ser célula de pele, ela não conseguiria se reprogramar”, diz Lygia da Veiga Pereira – Foto: Divulgação CTC-USP

A ovelha Dolly foi o primeiro clone de mamífero feito com sucesso a partir de uma célula somática adulta. Ela nasceu na Escócia em julho de 1996, há 25 anos, e morreu seis anos depois em decorrência de uma doença pulmonar. Dolly é considerada até hoje como um grande marco científico e abriu diversas portas para a ciência moderna.

Lygia da Veiga Pereira, professora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva do Instituto de Biociências (IB) da USP, conta que o núcleo das células contém o genoma, “uma receita que a natureza vai seguir para transformar aquela célula num indivíduo”. A clonagem é feita a partir da transferência nuclear.

Os cientistas retiraram o núcleo de um óvulo e colocaram o núcleo de uma célula da ovelha a ser clonada no lugar. “A gente trocou as receitas daquele óvulo, então, quando ele começar a se desenvolver, vai executar a receita da ovelha doadora daquela célula”, explica. Esse organismo se transforma em um embrião e dá origem a um ser geneticamente idêntico ao doador.

 

Legado

Segundo Lygia, a grande herança do experimento foi a demonstração de que uma célula adulta, ou seja, com função já definida, ainda pode ser transformada em outro tipo de célula. A professora utiliza uma célula de pele como exemplo: “Até a Dolly, a gente achava que essa célula, uma vez tendo decidido ser célula de pele, ela não conseguiria se reprogramar”. Com a clonagem da ovelha, ficou provado que isso é possível.

Os cientistas, então, passaram a buscar uma forma mais simples de realizar esse processo, sem precisar recorrer à transferência nuclear. Em 2007, um grupo de pesquisadores japoneses, liderado por Shinya Yamanaka, alcançou esse feito. Eles descobriram que é possível induzir quatro genes específicos para que uma célula possa ser reprogramada. Assim, as células-tronco pluripotentes induzidas (IPS) foram criadas.

Lygia comenta que essa descoberta revolucionou diversas áreas de pesquisa, como a medicina regenerativa. Por meio das IPS é possível, por exemplo, estudar doenças e órgãos em laboratório ou aprimorar o processo de terapia celular.

 

Clonagem em humanos

A clonagem reprodutiva, com o simples intuito de reproduzir um indivíduo, deixou de ser uma pretensão para grande parte da comunidade científica. De acordo com a professora, isso ocorreu principalmente por conta da baixa taxa de sucesso. “Foi feita a transferência nuclear em centenas de óvulos para que só 29 se desenvolvessem em um embrião. Desses 29, nasceu um viável, que foi a Dolly.” 

Para isso ser feito em humanos, seria necessária uma grande quantidade de óvulos e barrigas de aluguel para gestar o clone. Também existem alguns aspectos éticos acerca dos experimentos com embriões. “No Brasil, a Lei de Biossegurança tipifica como crime a clonagem reprodutiva” explica Lygia. “O fato é que, 25 anos depois, ninguém mais está falando em clonar seres humanos”, conclui.


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