Cientistas cultivam otimismo em meio ao caos ambiental global

Último USP Talks de 2019 reuniu quatro pesquisadores para debater o futuro do planeta e da espécie humana

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Motivos para pessimismo na área ambiental não faltam: 1 milhão de espécies em risco de extinção, desmatamento em alta, poluição disseminada de todos os tipos e por todos os lados, temperaturas globais cada vez elevadas, eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, população global em ascensão, cooperação internacional em declínio, demanda por recursos naturais cada vez maior. E por aí vai.

Mesmo assim, apesar de todos esses indicadores negativos, ainda é possível contemplar o futuro com otimismo, segundo pesquisadores brasileiros. Essa, talvez, tenha sido a maior surpresa — certamente, a mais positiva — do último USP Talks de 2019, que reuniu quatro cientistas num auditório da Avenida Paulista para discutir O Futuro do Planeta e, consequentemente, da espécie humana.

O evento aconteceu no dia 16 de dezembro, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp), encerrando uma agenda de nove programas realizados ao longo de 2019, em que foram abordados temas como autismo, armas de fogo, alimentação saudável e universidades públicas. 

Veja os vídeos e alguns destaques deste último evento abaixo.

Vídeo 1: No debate com a plateia, pesquisadores falaram sobre negacionismo climático, a importância de ações individuais e o fracasso das negociações na COP 25 em Madrid

“Sei que muitas vezes o otimista é confundido com ingênuo; (mas) eu sei que em algum momento a gente vai reverter esse processo, essa tendência de degradação, e a gente vai conseguir viver de forma mais equilibrada com a natureza”, disse o ecólogo Jean Paul Metzger, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). Sua apresentação focou na importância dos chamados “serviços ecossistêmicos” — nome técnico usado pelos cientistas para se referir aos diversos benefícios que a natureza presta gratuitamente ao homem e que são essenciais para a nossa sobrevivência, porém raramente valorizados de maneira adequada. 

“A natureza não é um empecilho ao nosso desenvolvimento, não é um empecilho ao nosso bem estar; a natureza é parte da solução. A gente precisa dessa natureza para ter um futuro de bem estar”, destacou Metzger. As evidências, para quem quiser se aprofundar no tema, estão no primeiro grande relatório da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES, em inglês), divulgado neste ano e retratado nesta reportagem.

Vídeo 2: Jean Paul Metzger, da USP, falou sobre serviços ecossistêmicos

Carlos Joly, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual da Campinas (IB-Unicamp) e um dos coordenadores do BPBES e do programa Biota Fapesp, falou sobre a importância da conservação da biodiversidade como condição básica para a manutenção desses serviços ecossistêmicos; e alertou para o risco de uma sexta “extinção em massa” que estaria em curso no planeta, causada pelo homem. A Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, em inglês) estima que, “se nada for feito”, 1 milhão de espécies de plantas e animais poderão desaparecer do planeta até o final deste século.

“O número parece assustado, e é assustador”, destacou Joly. Ainda assim, ele segue otimista de que essa previsão sombria não se concretizará: “Vejo como um desastre evitável; um desastre cujo desfecho depende somente de nós, somente das decisões que nós viermos a tomar.”

Vídeo 3: Carlos Joly, da Unicamp, falou sobre a importância da biodiversidade

De onde vem todo esse otimismo? A principal fonte, segundo os pesquisadores, são as novas gerações — “muito mais atentas à questão (da sustentabilidade) e começando a cobrar dos tomadores de decisão as devidas responsabilidades”, como disse a professora Gabriela Di Giulio, do Departamento de Saúde Ambiental, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. “A gente enxerga uma luz no fim do túnel”, disse ela, inspirada por seus alunos. 

Gabriela falou sobre os riscos das mudanças climáticas e da crise ambiental global para a qualidade de vida das pessoas nas cidades — incluindo estresse térmico, escassez hídrica, enchentes e outros desastres relacionados a eventos climáticos extremos. 

“Não há dúvida de que a forma como a gente vem usando os recursos naturais, a forma como a gente vem se desenvolvendo, tem mudado drasticamente o sistema terrestre, trazendo uma série de prejuízos e impactos às nossas vidas”, disse. Muitos autores já defendem, inclusive, que a mudança climática não seja mais encarada apenas como um problema a ser resolvido, mas como uma “condição” das sociedades contemporâneas. “Como condição, significa que ela perpassa todas as dimensões e todas as esferas da nossa vida cotidiana”, disse Gabriela.

Vídeo 4: Gabriela Di Giulio, da USP, falou sobre o impacto da crise ambiental nas cidades

A pesquisadora Thelma Krug, recentemente aposentada do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), também elogiou o engajamento dos jovens com a questão climática; mas disse temer pelo efeito da frustração gerada por esse engajamento, uma vez que essa voz da juventude não encontra acolhimento nas decisões políticas nacionais e internacionais que estão sendo tomadas.

Vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), Thelma falou sobre os riscos do aquecimento global para o planeta e a frustração com os resultados da última Conferência das Partes (COP 25) da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU, em Madrid — na qual o Brasil foi apontado como um dos principais empecilhos ao avanço das negociações. 

“A situação, realmente, é bastante dramática”, disse. Os relatórios do IPCC, segundo ela, deixam claro que é preciso agir com urgência para manter o aumento da temperatura média da Terra abaixo de 2 graus Celsius, com mudanças profundas e imediatas em todos os setores da economia, da indústria e da sociedade global. 

No caso do Brasil, a ação mais importante para a redução das emissões de gases do efeito estufa é a redução do desmatamento na Amazônia. Mas o que está se desenhando para os próximos anos, segundo Thelma, é um aumento no ritmo de destruição da floresta. “Estamos numa situação muito delicada, em que nós precisamos de recursos (para proteger a floresta), mas não se está demonstrando a mínima boa vontade para manter a Amazônia de pé”, disse a pesquisadora, em uma crítica direta ao atual governo. “Ninguém dá dinheiro de graça para quem não está disposto a fazer alguma coisa para segurar o desmatamento.”

Vídeo 5: Thelma Krug, do IPCC, falou sobre a crise climática global

Serviço

O USP Talks é uma iniciativa da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP que busca aproximar a comunidade científica e acadêmica da sociedade, por meio de eventos mensais em que especialistas são convidados a conversar com as pessoas sobre temas que estão em evidência no noticiário nacional. Para acompanhar a programação e assistir aos eventos anteriores, siga nossas páginas no Facebook , TwitterYouTube. O projeto conta com apoio da Fusp, da Nic.br, e da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP.

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