Cerca de 63 mil pessoas desapareceram no último ano no Brasil. Como reagem as famílias?

O desaparecimento de pessoas é um problema coletivo, gera ambiguidade e desgasta a saúde física e mental de familiares que buscam entes desaparecidos

 05/08/2021 - Publicado há 4 meses
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Desaparecidos – Foto: alesc.sc.gov / Fotomontagem: Jornal da USP

 

De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2021, divulgado no mês de julho, o número de pessoas desaparecidas no Brasil no ano passado foi de 62.587. Em São Paulo, Estado com maior registro de casos, a taxa foi reduzida em 15% em comparação ao ano anterior, mas o número de 18.342 desaparecidos ainda é preocupante. Para além do dado, os familiares  sofrem com esta condição e demandam necessidades específicas durante o processo de busca pelo ente, conforme revela o relatório Ainda? Essa é a Palavra que Mais Dói, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), também lançado em julho. 

Analisando a situação de 27 famílias do Estado de São Paulo, o órgão humanitário internacional constatou necessidades nas esferas econômica, social e de amparo à saúde física e mental dessas pessoas. “O desaparecimento de uma pessoa gera um sofrimento muito grande entre os seus familiares, embora seja difícil a gente generalizar essas questões”, comenta Maria Júlia Kovács, professora sênior do Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, ao Jornal da USP.

O que diz o relatório

De acordo com o documento, é caracterizado desaparecimento quando os familiares da vítima não têm mais notícias sobre seu paradeiro, em razões de conflito armado, violência interna, desastre natural ou crises humanitárias. E esse desaparecimento é muitas vezes acompanhado de ambiguidade para os familiares da vítima, já que “o desaparecimento não configura morte, mas deixa a suspeita de que a pessoa possa, de fato, ter morrido ou ainda estar em alguma condição de sofrimento”, explica a professora, “porque como não se sabe se a pessoa está de fato morta, não dá para entrar em processo de luto, que, do ponto de vista formal, se inicia quando há morte de uma pessoa, mas do ponto de vista psíquico já se inicia porque há uma suspeita”. 

Ruth e o marido não têm notícias do filho Jairo há 10 anos – Foto: Andrés Monroy – Flickr

 

Também foi identificado que as consequências no âmbito da saúde acabam sendo potencializadas por outras fontes externas de desgaste, constantemente enfrentadas pelos familiares de pessoas desaparecidas. Entre elas, estão as experiências negativas ocorridas durante ações de busca, a piora da condição econômica e a percepção de que não há reconhecimento social do desaparecimento como um problema coletivo e que vai além de experiências ou dramas individuais. “Como todas as questões que envolvem crise, violência, dor e sofrimento, o problema do desaparecimento atinge a sociedade como um todo e nenhum núcleo familiar é invulnerável a este problema”, comenta Maria. “É importante entender que esse é um problema coletivo e de toda a sociedade.”

O documento traz à tona um detalhamento feito pelo Ministério Público de São Paulo através do Programa de Localização e Identificação de Desaparecidos (Plid), em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dos Boletins de Ocorrências de desaparecimentos em São Paulo no ano de 2017. O órgão constatou que dos quase 24 mil casos registrados, pouco mais de cinco mil são registros de desaparecimento de adolescentes entre 14 e 19 anos e quase quatro mil, entre crianças de zero a 14 anos. 

Para Maria, o desaparecimento de crianças é ainda mais doloroso para os familiares e deve ser tratado com mais cuidado, já que se trata de uma pessoa que depende totalmente da família. Mas mensurar e comparar o sofrimento dessas famílias não é possível. “Não dá para dizer que uma família vai sofrer mais do que outra porque o enfrentamento dessa crise é muito particular das famílias e de como elas se organizam diante da situação”, destaca. 

Saúde mental de familiares de desaparecidos

 

Foto: Flickr-CC

 

Segundo o relatório do CICV, todas as famílias entrevistadas revelaram que o desaparecimento do ente impactou a saúde mental de alguma forma, desde condições psicológicas até consequências psiquiátricas, em seus diferentes graus de duração e intensidade. Dentre os relatos presentes no documento, ansiedade e depressão são condições comuns entre quase todos os entrevistados. E esse desgaste emocional e físico, gerado pelo desaparecimento de um ente, está ligado às necessidades que cada um encontra no processo de busca pela pessoa. 

De acordo com o órgão internacional, muitos problemas jurídicos e administrativos que familiares de desaparecidos enfrentam não encontram soluções na legislação nacional atual e sequer há definição jurídica da situação do desaparecido e dos direitos de seus familiares até que se tenha esclarecido o paradeiro da vítima. Para Maria, a atuação do governo e das políticas públicas devem ser fundamentais nesse processo. “Como se tem visto, o número de desaparecidos aumenta e é muito importante a atuação pública para identificar os lugares com maior potencial e frequência de desaparecimentos, além de oferecer um serviço de apoio aos familiares tanto no enfrentamento quanto nas buscas pelo ente desaparecido.” 

Nessa mesma linha, a psicóloga reforça que este é um problema coletivo e não individual dessas famílias, e que as políticas públicas são muito importantes para remediar este entrave na segurança pública.


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