Casos isolados não permitem concluir que pessoas vão se curar com a cloroquina

Esper Kallás diz que ato de prescrever medicações não é isento de risco. “Se for provado que ela tem benefícios, serei o primeiro a prescrever, mas não temos essa resposta”

Fotomontagem sobre imagens USP Imagens

A luta por encontrar uma vacina, um remédio eficaz contra um vírus problemático como o da covid-19, envolve muitos cientistas e inúmeras pesquisas. Estudiosos tentam, neste momento, trazer respostas efetivas para controlar a pandemia o mais rápido possível, mas, nesta etapa, todo cuidado é indispensável, pois atitudes impensadas podem trazer riscos desnecessários a toda a população.

A cloroquina, medicamento muito citado recentemente, devido a testes feitos em pacientes com coronavírus, aparece como algo milagroso, mas, para Esper Kallás, professor do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), infectologista e pesquisador do Laboratório de Imunologia Clínica e Alergia do Hospital das Clínicas, o remédio ainda é uma promessa. “Precisamos de mais informações para saber se a cloroquina realmente vai funcionar. Se for provado que ela tem benefícios aos pacientes, eu serei o primeiro a prescrever para todo mundo, mas não temos essa resposta. Essa questão traz inquietude, porque há uma pressão muito grande para que se prescreva cloroquina”, comenta Kallás ao Jornal da USP no Ar.

O ato de prescrever medicamentos é um dos mais complexos na medicina, pois “prescrever medicações não é isento de trazer algum risco, e a gente precisa entender que toda opção que a gente traz no tratamento de alguém tem sempre um risco e um benefício”, explica o médico, concluindo que “um caso isolado não permite concluir que a maioria das pessoas vai se curar”. De acordo com ele, a euforia em torno da cloroquina trouxe dois grandes problemas: o primeiro, é que por ser uma medicação que pode trazer danos colaterais (inclusive com casos de óbito), as pessoas estão usando o remédio demasiadamente sem orientação médica, e, segundo, devido à procura excessiva pelo medicamento, ele começou a ficar escasso em muitas farmácias, prejudicando aqueles que usavam a cloroquina para doenças crônicas.

Aparentemente, o organismo humano consegue desenvolver uma defesa eficaz para eliminar o vírus em duas semanas e é nesse período que os médicos devem atuar para que o paciente suporte esse tempo, pois, para Kallás, “o melhor remédio que temos hoje para combater a doença é o próprio sistema imunológico da pessoa”. O problema envolvendo os leitos em hospitais é que, durante essas duas semanas, nos casos mais extremos, um paciente pode precisar de um respirador, e a necessidade de se ter leitos de UTI acaba aumentando muito em pouco tempo, devido à elevação rápida no numero de pacientes.

Ouça a entrevista completa no player acima.


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