Com poucos testes de covid-19, mortes por todas as causas viram dado crucial

É o que defende Paulo Lotufo, alegando que não se pode priorizar apenas o número de infectados ou de casos notificados

jorusp

No Brasil ainda restam dúvidas sobre quando será atingido o pico de casos de covid-19 e qual deveria ser o melhor método de cálculo que retratasse essa realidade. O Jornal da USP no Ar conversou sobre o tema com Paulo Lotufo, professor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e diretor do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica da USP.

Lotufo defende que seja considerado no cálculo o número total de óbitos e não apenas o de infectados, como está acontecendo não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Ele destaca que o novo coronavírus é extremamente letal, se espalha e age em todos os órgãos, não sendo uma gripe que atua somente no sistema respiratório, causando uma pneumonia. “Ele faz uma pneumonia bastante grave, mas ele atua no coração, cérebro e rins. Com isso, está causando muito mais mortes do que prevíamos anteriormente, inclusive de pessoas que nem possuem diagnóstico de coronavírus”, afirma.

Segundo ele, o que está acontecendo hoje é um aumento expressivo de pessoas que têm problemas cardíacos e que estão morrendo em casa. Se não morrem em casa, é no hospital, antes mesmo de realizarem algum exame para detectar a covid-19. Devido a isso, São Paulo, Rio de Janeiro e Manaus deveriam contabilizar as mortes por todas as causas, para mostrar o impacto do que está realmente acontecendo, ao invés de apontar apenas os casos notificados.

“Isso porque pode haver pessoas que estão doentes e não vão procurar médicos, por causa da não realização de exames ou da falta de precisão dos mesmos quando feitos. Por isso, o excesso de mortes por semana está sendo um indicador muito importante”, explica o professor. Mesmo que a quantidade de mortes por coronavírus seja o principal indicador para cálculo do pico de casos, Lotufo diz não ousar falar em uma data específica para isso, além de pedir atenção para a capacidade de atendimento. “Manaus, Belém, Fortaleza e Rio de Janeiro já não possuem condições de atender ninguém. Isso já é suficiente para estender e ampliar todas as medidas de proteção”, alerta. Ele afirma que São Paulo está muito próxima da decretação de  lockdown.

“[Este] é um vírus muito distinto e muito mais letal do que se imaginava no início”, observa Paulo Lotufo. E, justamente por isso, países vizinhos, como Argentina e Uruguai, que aplicaram medidas de forma bem-sucedida, já demonstram preocupação com a situação brasileira.

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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