Caça autorizada não soluciona desequilíbrio por invasão de javalis

É essencial entender a espécie para elaborar controle reprodutivo e evitar prejuízo na agricultura e suinocultura

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.A invasão de javalis está causando prejuízos para agricultores e ameaça também a suinocultura em Santa Catarina. Estima-se que existam cerca de 200 mil javalis naquele Estado. O cenário no interior catarinense é o exemplo mais drástico do estrago causado pelo animal, que já está presente em pelo menos 563 municípios brasileiros. Atualmente, o javali é o único animal cuja caça é permitida no país. Em 25 de março, uma nova portaria do Ibama regulamentou o uso de cães para o manejo da espécie e informatizou o sistema de autorizações para caçadores. A espécie exótica invasora ameaça criação de suínos e produção de milho no Estado. Por outro lado, a caça pode afetar espécies nativas, como queixada e cateto. O Jornal da USP no Ar conversou sobre a situação com o professor Adroaldo José Zanella, do Centro de Estudos Comparativos em Saúde, Sustentabilidade e Bem-Estar Animal do Departamento de Medicina Veterinária Preventiva e Saúde Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.

Foto: Simply Viola on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

De acordo com o professor, o fenômeno não está restrito ao Estado de Santa Catarina, mas a situação ganha maior foco na região por conta da importância que a suinocultura tem para aquele estado – e o suíno doméstico é a maior proteína que a gente consome no mundo. Vale ressaltar que “o javali, que é ancestral do porco doméstico, tem essas características fenomenais de adaptação: você encontra suínos e javalis nas áreas do Ártico e do Antártico, então eles trazem essa capacidade de se ajustar aos ambientes humanos”, explica Zanella. Os animais chegaram ao Brasil como uma maneira de trazer uma proteína de carne a mais e, de forma voluntária ou involuntária, eles foram liberados para a natureza. Além da alta capacidade de adaptação, o cruzamento entre javalis e suínos domésticos aumentou o número de leitões nascidos: eles tem condições de ter 2,3 ou 2,4 partos ao ano, sendo que cada um desses partos pode gerar até 30 leitões por fêmea. “Hoje se transformaram nesse enorme risco para a natureza e biodiversidade e para a nossa agricultura.”

O veterinário avalia que “os dados sobre javalis ainda são muito modestos para fazer uma tomada de decisão inteligente, mas a caça como medida de mitigação não vai funcionar”. Para ele, está faltando uma estratégia nacional e até mesmo internacional – países europeus e a China também passam por riscos sanitários de peste suína e na agricultura – para elaborar um plano estratégico que envolva os interessados, como entidades de produção animal, produtores rurais e população urbana. “O primeiro passo é entender como essa espécie opera. O risco maior, no nosso caso, é que a gente não tem um predador rural que seja eficiente no controle de javalis. Então, a gente vai ter que atuar para a fonte de controle reprodutivo e ele pode envolver técnicas de controle material”, afirma Zanella. “A fundamentação da estratégia na minha opinião seria um edital público”, porque utiliza o conhecimento científico para favorecer ideias inovadoras. Uma delas é o controle da espécie através da reprodução a partir de machos inférteis.


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