Brasil precisa investir em logística para acabar com subnutrição

Segundo especialistas, fome no País não é resultado de falta de alimentos ou de recursos, mas de má gestão

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Durante 17 semanas, o Jornal da USP no Ar, no quadro UrbanSus, discutirá um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Nesta semana, o tópico em discussão foi a fome. Globalmente, a proporção de pessoas subnutridas em regiões em desenvolvimento caiu quase pela metade desde 1990, de 23,3% em 1990-1992 para 12,9% em 2014-2016. Mas, atualmente, uma em cada nove pessoas no mundo (795 milhões) ainda é subnutrida. A vasta maioria das pessoas do mundo passando fome vive em países em desenvolvimento, onde 12,9% da população é subnutrida. A má nutrição causa quase metade das mortes de crianças abaixo dos cinco anos de idade – 3,1 milhões de crianças anualmente. A urgência da fome, as doenças causadas por alimentos contaminados, o desperdício de comida. Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Estudos Avançados (IEA), e Ana Lydia Sawaya, da Universidade Federal de São Paulo e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Nutrição e Pobreza do IEA , falaram sobre o tema.

Ana Lydia explica a diferença entre fome e desnutrição. Desnutrição significa má nutrição, o que pode ser subnutrição ou obesidade. Especialmente na subnutrição brasileira, há três fatores que a causam e sempre estão relacionados: quantidade insuficiente de alimentos, má qualidade dos alimentos, que carecem de proteínas, vitaminas e minerais, e a insalubridade da moradia, que aumenta a frequência de infecções. Já a fome, do ponto de vista científico, é quando não há o que comer, como em situações de seca ou guerra. No Brasil, o que ocorre é subnutrição: comer mal e pouco, por falta de acesso aos alimentos, não por falta da existência deles. Ela ressalta a importância do saneamento básico, serviço ao qual cerca de 50% da população ainda não tem acesso. Onde não há saneamento básico, a frequência de infecções é maior. Para a professora, são problemas interligados: não se resolve a subnutrição sem saneamento.

Foto: Alessandro Zangrilli via Wikimedia Commons / Domínio público

Ela chama atenção para um dado importante: a taxa de mortalidade infantil cresceu 5% nos últimos anos. “Quando as crianças morrem mais, é porque a situação de saúde, condições de vida e alimentação estão muito ruins. (…) O aumento da taxa é uma ponta do iceberg. Embaixo, a situação está muito pior”, afirma a pesquisadora.

Marcos Buckeridge fala sobre a produção de comida. Para ele, o grande problema são as perdas, que ocorrem quando o alimento está sendo produzido no campo, quando é transportado e em casa, depois de ser consumido parcialmente. Essas perdas, somadas, resultam em 30% de todo alimento produzido no planeta. Segundo o professor, não adianta produzir mais comida se será desperdiçada. Portanto, o sistema precisa ser ajustado, e desenvolver tecnologias que baixem esse desperdício já seria uma grande vitória.

Para Ana Lydia, o problema é o mau uso dos recursos, que são mal administrados. Num seminário no IEA, feito com responsáveis pela merenda escolar, o gargalo apresentado de onde o problema estava foi a gestão. “A questão que eles trouxeram foi um problema de gestão e logística. O que está faltando é o alimento saudável chegar na boca da criança de forma frequente. O que eu diria para os governos atuais ou para os futuros é que a gente precisa investir em tecnologia de gestão e logística. E também de transparência em recurso”, finaliza a pesquisadora.

Jornal da USP no Ar, uma parceria do Instituto de Estudos Avançados, Faculdade de Medicina e Rádio USP, busca aprofundar temas nacionais e internacionais de maior repercussão e é veiculado de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 9h30, com apresentação de Roxane Ré.

Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93,7, em Ribeirão Preto FM 107,9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular. Você pode ouvir a entrevista completa no player acima.

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