Barragem do Quati se rompeu em razão da falta de sangradouro

Paulo Teixeira da Cruz explica que quando existe capacidade de conduzir água do reservatório, no sentido de escoamento do rio, a segurança é garantida

jorusp


A barragem do Quati, no município baiano de Pedro Alexandre, se rompeu. A água do reservatório invadiu não só a cidade, como a vizinha Coronel João Sá, que sofreu mais com a inundação por estar em um nível mais baixo. As fortes chuvas que caíram na região aumentaram o volume de água do Rio do Peixe, que deságua no barramento. O percurso do rio entre as cidades tem cerca de 80 km.

A estrutura foi construída pela Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR) e entregue em novembro de 2000 à Associação de Moradores da Comunidade do distrito. Ela represa o Rio do Peixe para o período de estiagem. O Jornal da USP no Ar entrevistou o professor aposentado Paulo Teixeira da Cruz, da Escola Politécnica (Poli). Ele explicou que não se tratava de uma barragem, por não abarcar certas normas construtivas mínimas, mas sim de um barramento, feito de terra socada, com técnicas primitivas. A contenção de rejeitos, como em Brumadinho, exige muito mais técnica e cuidado.

Entretanto, “é de se estranhar a falta de acompanhamento técnico, sendo que estava sob responsabilidade de uma entidade oficial ”, declarou. O professor apontou a ausência de um sangradouro como detalhe crítico do rompimento da estrutura. “É um dispositivo que funciona como um ladrão. Quando a água chega em certo nível, escapa por ali. Em grandes obras é mais complexo e chama-se vertedouro. Não há barragem projetada para resistir a partir do momento em que foi submersa”, esclarece.

“Quando existe capacidade de conduzir a água do reservatório a jusante (sentido de escoamento do rio), a segurança da barragem está garantida. Esses barramentos são feitos por uma questão de sobrevivência. Resguardam água para consumo das pessoas e dos animais dali. Mas é necessário um mínimo de precaução”, argumenta Cruz. O engenheiro ressalta, de qualquer maneira, que esse tipo de acontecimento só vira notícia quando existem cidades e moradias a jusante do rio.

Duas rachaduras na Barragem do Quati, no curso do Rio do Peixe, no povoado de Pedro Alexandre, na divisa da Bahia com Sergipe, estão causando inundações de áreas e bairros do município de Coronel João Sá, a 30 km da barragem – Foto: Divulgação/Corpo de Bombeiros de Paulo Afonso

E qual a solução? “Não dá nem para fazer uma legislação muito rigorosa, que criminalize esse tipo de prática, nem para se iludir na esperança de formar engenheiros com o intuito de fiscalizar isso. São necessários profissionais técnicos. Os municípios têm de se mobilizar para disponibilizar esse conhecimento. As faculdades devem disponibilizar e divulgar esse conhecimento básico também”, afirma o engenheiro.

Cruz ressalta que, no limite, o barramento cumpriu sua função de reservatório por 19 anos, já que foi inaugurado em 2000. “Uma das dificuldades de se dimensionar essas estruturas, enquanto engenheiro, é prever as chuvas. O Nordeste tem secas de dois a três anos, mas tem suas cheias que são notórias”, expõe. Para tanto, são necessários estudos hidrológicos complexos.

Já os barramentos são obras simples, conforme o professor. “Têm entre oito e dez metros de altura e de quatro a seis metros de comprimento no seu topo. O suficiente para um caminhão chegar do outro lado. Esse sangradouro não precisa ser complexo. Talvez, um caminho para a água feito com pedras mesmo”, elucida.

Barragens e barramentos têm também um mecanismo chamado tomada d’água, com o intuito de encaminhar os recursos hídricos para a sua atividade fim. Isto é, os geradores, em casos de usinas, ou para os reservatórios. Grandes cheias ultrapassam a capacidade de escoamento desses dispositivos. Por isso, a necessidade de um sistema de drenagem.

Há outros estados críticos que podem ocasionar em danos às barragens. “Todo acúmulo d’água gera pressão. A água sempre vai achar um caminho para sair. A solução é colocá-la no lugar certo. Se vaza por baixo, passando na fundação, é um problema. Assim aconteceu em algumas estruturas da transposição do rio São Francisco”, conta. O professor, apesar de aposentado na USP, ainda dá consultorias na construção de barragens. Entre elas, as usadas na transposição, duas de rejeitos em construção e outros projetos da Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará.


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