Baixo índice de leitura entre jovens brasileiros pode indicar futuro de dificuldades

Para Filomena Elaine Paiva Assolini, investimentos na educação pública brasileira são urgentes para evitar marginalização social

 Publicado: 23/11/2021
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Apenas 50% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível mínimo ou acima de letramento em leitura a ser atingido até o final do ensino médio – Foto: Joel Muniz/Unsplash

Baixo índice de leitura de jovens brasileiros pode indicar dificuldades no mercado de trabalho e demais esferas da vida em sociedade, além de apontar para a necessidade de investimento na educação do País, sobretudo de escolas públicas, avalia Filomena Elaine Paiva Assolini, professora do Departamento de Educação, Informação e Comunicação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP.

De acordo com o Relatório Brasil no Pisa 2018, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estudantes brasileiros de 15 anos de idade, avaliados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) em 2018, registraram média de proficiência em leitura de 413 pontos, enquanto alunos de outros 16 países da OCDE alcançaram média de 487 pontos, isto é, 74 pontos acima do Brasil.

“Quando existem essas avaliações externas, as crianças brasileiras e os jovens brasileiros sempre se saem muito mal. Por quê? Porque eles não aprenderam a interpretar, eles não aprenderam a fazer leituras outras além da leitura do livro didático, além da leitura que é pré-fixada pela escola”, explica a professora. Nesse sentido, Filomena acredita na importância de urgentes investimentos na educação pública do Brasil, que possibilitem ferramentas e recursos necessários ao aprendizado na leitura para os alunos.

Mercado de trabalho e exclusão

Ainda conforme o documento elaborado pela OCDE, apenas 50% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível mínimo ou acima de letramento em leitura a ser atingido até o final do ensino médio, em contraste com 77,4% dos estudantes dos países da OCDE. Trata-se de uma situação grave, afirma a professora da USP, pois “esses sujeitos já vão sendo excluídos do mercado de trabalho ou, por exemplo, não conseguem ser aprovados em um concurso público”, o que, em sua análise, os coloca em marginalização social. Nesse sentido, Filomena considera as exigências atuais do mercado: “Nós precisamos de sujeitos que pensem, precisamos de sujeitos capazes de contestar, capazes de refletir, capazes de se incomodar”.

De acordo com o Relatório, letramento em leitura é a “capacidade de compreender, usar, avaliar, refletir sobre e envolver-se com textos, a fim de alcançar um objetivo, desenvolver conhecimento e potencial e participar da sociedade”. 

A professora também analisa a relação direta entre o baixo índice de status econômico, social e cultural (ESCS) de países como o Brasil e o Peru, que registraram -1,1, e a Colômbia e o México, que registraram  -1,2 em uma escala de 1,0 a -2,0, e a baixa pontuação em leitura.  É que, segundo Filomena, “uma sociedade com baixo nível social e cultural é uma sociedade que vai sofrer em diferentes aspectos, porque não produz conhecimento, não produz tecnologia”, e, com isso, fica “sempre nas mãos de países e sociedades mais cultas, mais bem preparadas”, que valorizam a cultura, letramento e tecnologia.

Construir leitores

Em sua perspectiva, a leitura pode contribuir para o rompimento de tal círculo vicioso, com preços mais acessíveis para os livros, por exemplo, e investimento em construir leitores fora dos muros das escolas, mas também dentro, explica Filomena. “A escola é fundamental, porque é a escola que traz conteúdos, historicamente produzidos, traz os conteúdos acumulados pela história da humanidade”. Com isso, destaca a importância em mostrar aos alunos “que vivemos em uma sociedade letrada, marcada por práticas discursivas letradas”, o que “requer leitores” e “pessoas que escrevem, requer pessoas que saibam argumentar”.


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