Baixa capacidade de pagamento das famílias aumenta endividamento

Nível de inadimplência no Brasil é elevado em relação a outros países e influencia dívidas familiares, diz economista

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O endividamento das famílias brasileiras alcançou em março o maior patamar desde setembro de 2015, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O total de famílias endividadas subiu de 61,5% em fevereiro para 62,4% em março, um aumento de 0,9 ponto porcentual e a terceira alta mensal consecutiva, de acordo com os dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic). Em março do ano passado, o indicador estava em 61,2%. A inadimplência também aumentou no último mês. O total de famílias com dívidas ou contas em atraso cresceu de 23,1% em fevereiro para 23,4% em março. Em março de 2018, era de 25,2%. Em março, as famílias endividadas tinham, em média, 29,1% da renda comprometida com contas a pagar em cheque pré-datado, cartão de crédito, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro ou seguro. Para entender esse quadro atual, o Jornal da USP no Ar conversou com o professor Márcio Nakane, do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP.

Tanto o endividamento das famílias quanto o nível de inadimplência segue o ritmo das atividades econômicas. “O que acontece com a renda das pessoas, com o salário delas, o nível de emprego… tudo isso afeta muito o quadro”, afirma Nakane. Ele explica que até 2015 a economia estava em um patamar de estabilidade em que o crescimento do endividamento era rápido por conta do financiamento imobiliário e de automóveis. A partir de 2015, com a desaceleração da economia brasileira, as famílias estavam em um patamar de endividamento relativamente elevado e começaram a se preocupar com isso. Do final de 2017 a em meados de 2018, quando a economia começou a ter uma leve recuperação, o nível de endividamento das famílias parecia se estabilizar, mas começou a aumentar aos poucos.

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

O mercado de crédito é um dos mecanismos para impulsionar a atividade econômica. De acordo com o professor, agora o Brasil está tentando fazer um processo de recuperação da economia ao mesmo tempo em que os agentes econômicos estão com dívidas relativamente elevadas. “Um dos motivos pelos quais a recuperação da atividade econômica tem decepcionado tanto com esses números fracos é precisamente esse processo de que o País está fazendo isso junto com um nível de endividamento alto das famílias e das empresas [no jargão econômico, processo de desalavancagem]”, explica.

O economista acredita que “a perspectiva ao longo do ano é de uma leve queda na taxa de juros básica (Selic) e com isso trazer algum alívio para as taxas de empréstimo bancárias”, um movimento gradual que acontece desde o ano passado. Essa análise advém dos números fracos de recuperação econômica somados a uma taxa de inflação razoavelmente controlada. “Objetivamente tem espaço [para a situação melhorar], mas dado que a gente está com uma nova administração do Banco Central, eu acho que não vamos observar isso nas primeiras reuniões, tem um pouco a ver também a nova administração tentar se comunicar com o mercado, com a economia e entender quais são suas intenções.”

O endividamento apresenta duas dimensões. A primeira trata de uma comparação mundial, em que o Brasil apresenta endividamento de famílias baixo comparado a outros. “Em outros países [desenvolvidos e mesmo em países da América Latina, como o Chile, que usa muito crédito] é comum que esse grau de endividamento seja acima de 100%, 200% da renda anual das famílias. No caso do Brasil, esse indicador chega a 40%, 45%”, explica o especialista. A segunda dimensão é ligada à inadimplência, ou seja, à capacidade de pagamento das famílias. Nesse indicador, o Brasil é muito elevado, beirando os 20%, de acordo com o Banco Central, e chegando a 28%, de acordo com a Confederação Nacional do Comércio. “Mesmo nos países que mencionei, isso não chega a 10%. É uma grande diferença. Esse é o lugar em que a questão do endividamento pega”, afirma Nakane.

“Não existe solução mágica. Esse tema é bastante complexo, tem muitos fatores afetando o patamar das taxas de juros, afetando o comportamento da inadimplência.” De acordo com o professor, é algo que envolve o aspecto institucional, de melhorar o ambiente de negócio, e um aspecto de conjuntura econômica, no sentido de que a recuperação da atividade econômica ajuda no mercado de crédito. “O ponto é que nenhuma das duas coisas vai acontecer da noite para o dia. A gente não vai observar números dramaticamente melhores do mercado de crédito do dia pra noite, é algo lento e gradual, mas que ao longo do tempo temos condições de observar.”

O cadastro positivo foi aprovado esta semana. Para Nakane, isso é um avanço na agenda institucional. “Basicamente, o que o cadastro positivo faz é dar um selo para essas pessoas de que de fato elas são boas pagadoras”, o que concede taxas de juros menores como um reflexo do fato de serem boas pagadoras. No entanto, para os que atrasam pagamentos, isso pode valer como selo negativo. “Esse selo vai refletir o risco de cada pessoa, então as pessoas que têm atraso vão ter esse registro negativo em seus cadastros”, explica Nakane.

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