Auxílio Emergencial é essencial para reduzir a extrema pobreza na zona rural

Segundo Nicole Rennó Castro, sem o benefício, quase 30% da população rural, cerca de 8,4 milhões de pessoas, ficariam em situação de vulnerabilidade

O Auxílio Emergencial, criado para proteger trabalhadores informais, desempregados e microempreendedores individuais durante a crise causada pela pandemia, abrange cerca de 68% da população que vive no meio rural, o que tem sido essencial para a manutenção da renda e evitar o empobrecimento extremo de 7,3 milhões de pessoas, de acordo com estudo da USP. O programa já beneficiou cerca de 65,5 milhões de brasileiros, segundo a Caixa Econômica Federal, e foi prorrogado pelo governo federal até dezembro deste ano, com o valor reduzido de R$ 300. Segundo a especialista, o benefício é fundamental para garantir a sobrevivência de grande parcela de moradores das áreas rurais.

Em entrevista ao Jornal da USP no Ar, a pesquisadora Nicole Rennó Castro, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da ESALQ da USP e autora do estudo sobre os impactos do Auxílio Emergencial no meio rural, explica que, apesar de já viverem em situação de vulnerabilidade antes da pandemia, com o auxílio emergencial, grande parte dos domicílios do meio rural tiveram aumento da renda, o que tem sido essencial para o enfrentamento da crise.

Os principais motivos do impacto positivo do programa são a alta cobertura e o valor, já que alguns beneficiários podem receber até R$ 1.200 se forem chefes de família. O valor médio recebido pelas famílias da zona rural foi de R$ 900 e, quando comparado ao Bolsa Família, o Auxílio Emergencial foi quase cinco vezes maior e atingiu mais pessoas. “Esse programa chegou a muita gente. Em maio, 56% dos domicílios rurais do País receberam o auxílio, em julho a gente teve uma expansão dessa cobertura para 60%. Então, considerando o valor alto e essa cobertura, a renda das famílias no meio rural, com o auxílio, foi cerca de 20% maior do que seria caso a pandemia não tivesse existido e tudo tivesse corrido normalmente.”

O estudo informa que o impacto do auxílio foi diferente, de acordo com a faixa de renda, o que indica, inclusive, a eficiência do programa, cujo objetivo é ajudar as pessoas em situação de vulnerabilidade econômica durante a pandemia. Pensando na abrangência do programa, em média, 68% das pessoas que moram no meio rural receberam o auxílio. Das famílias que constituem a faixa de renda mais baixa, ou seja, que recebem ao todo até R$ 400 mensais, 93% receberam o benefício. Já as famílias da faixa de renda mais alta, ou seja, aquelas que recebem mais de R$ 4 mil por mês, a cobertura do auxílio foi de 30%.

“Para as famílias de renda mais alta, a pandemia chegou e abaixou, então eles tiveram uma perda de renda do trabalho e o auxílio compensou, portanto, é como se tivesse ficado equilibrado, o que perderam de renda do trabalho ganharam em média com o auxílio. Quando olhamos para as famílias da menor faixa de renda inclusive cerca de 10% das famílias ficaram sem renda nenhuma por conta da pandemia –, o valor que eles receberam, considerando o auxílio, superou em 360% o que eles habitualmente recebiam. Essas famílias estão ganhando mais do que seria sem a pandemia”, afirma Nicole.

A pesquisadora compartilha que, se não fosse o auxílio emergencial, quase 30% da população rural, cerca de 8,4 milhões de pessoas, ficariam em situação de extrema pobreza: “Com o auxílio, essa taxa caiu de quase 30% para 3%. Em números, o auxílio emergencial tirou de situação de extrema pobreza no Brasil 7,3 milhões de pessoas. Foi muito importante e teve um impacto muito expressivo”.

Para a pesquisadora, o fim do Auxílio Emergencial é preocupante, já que tem se mostrado uma política fundamental para proteção social e garantia da sobrevivência das famílias mais pobres: “Com o fim da política, muitas famílias vão entrar em condições de extrema vulnerabilidade e, considerando meio o rural, que já saiu de uma situação ruim e que foi agravada pela pandemia, mesmo considerando um eventual controle, a gente não sabe ainda com que velocidade a economia brasileira vai se recuperar”.

Segundo dados divulgados pelo IBGE na última terça-feira (01), o agronegócio apresentou desempenho positivo no segundo semestre de 2020, apesar da queda do PIB. Contudo, mesmo com a boa perspectiva para a agropecuária no Brasil, o estudo desenvolvido pela Esalq não foca nos trabalhadores do setor, mas, sim, abrange moradores da zona rural e, por essa razão, são observadas as disparidades sociais. Nicole informa que são dois conceitos diferentes, já que os trabalhadores podem ser do agronegócio ou de outros setores: “A gente está olhando em geral para todo mundo do rural, independente se essa pessoa trabalha no agronegócio. O setor [agropecuária] está muito bem e com uma perspectiva muito boa mesmo na pandemia”.

De acordo com a pesquisadora, o PIB do agronegócio é gerado por uma parcela relativamente pequena de pessoas que trabalham no setor, muita gente ali fica à margem, sobrevive numa agricultura sem tecnologia, com uma situação de vida muito ruim. O resultado bom do PIB do agronegócio não indica que todo mundo que trabalha no setor vai ter essa perspectiva boa também”, finaliza.

Ouça a entrevista na íntegra pelo player acima.


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