Artistas fazem uso crítico da Inteligência Artificial

Giselle Beiguelman visita a “Ars Electronica” e comenta projeto que alia visão computacional e defesa dos direitos humanos

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Giselle Beiguelman, artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, comenta a sua visita à exposição Ars Electronica, em Berlim, “inteiramente devotada ao uso crítico da Inteligência Artificial por artistas em suas obras”. A programação reúne, até 19 de fevereiro, 16 projetos de diversos países.

“Dois trabalhos me chamaram particularmente a atenção. O primeiro, The Normalizing Machine ,do artista israelense Mushon Zer-Aviv, questiona os métodos de padronização algorítmica dos sistemas de reconhecimento facial”, explica.

“É uma instalação interativa na qual cada participante é apresentado a um conjunto de quatro vídeos de outros participantes, gravados anteriormente, e é solicitado a apontar o visual do mais normal entre eles. A pessoa selecionada é examinada por algoritmos que adicionam essa imagem a um banco de dados projetado em uma parede, que reproduz as pranchas antropométricas do criminologista francês Alphonse Bertillon, pai do retrato falado. Surpreendente ver em segundos nossa imagem esquadrinhada em medidas de olhos, boca, orelhas e computada com as centenas de outros participantes.”

Beiguelman ressalta que o projeto discute o que a sociedade estabelece como padrão de normalidade. Questiona também como os processos de Inteligência Artificial podem, eventualmente, amplificar as tendências discriminatórias que as antigas teorias antropométricas calçaram séculos atrás.

Outro projeto que chamou a atenção da professora é VFRAME, de Adam Harvey, dos Estados Unidos. “É um conjunto de ferramentas de visão computacional para pesquisadores de direitos humanos. Nesse projeto, Harvey está trabalhando com o Arquivo Sírio, uma organização dedicada a documentar crimes de guerra e abusos de direitos humanos”, esclarece. “O foco é a identificação em vídeos captados nas zonas de guerra de bombas de fragmentação, um artefato explosivo que carrega diversos outros artefatos explosivos, e por isso é definido como uma arma container. É uma das criações mais horrendas da Alemanha nazista e que continua sendo usada nas guerras do Oriente Médio. O uso mais intenso desses dispositivos atualmente é feito na Síria.”

Beiguelmam esclarece que o VFRAME usa modelagem 3D e fabricação digital, combinados a um software que é ainda um protótipo, mas inclui ferramentas capazes de organizar, classificar e extrair metadados de 10 milhões de vídeos em menos de 25 milissegundos, identificando nesses vídeos a presença das bombas de fragmentacão. “O objetivo é preencher a lacuna entre a inteligência artificial de última geração usada no setor comercial e torná-la acessível e adaptada às necessidades de ativistas de direitos humanos e jornalistas investigativos comprometidos com um futuro orientado para a paz e a proteção da vida.”

Ouça no link acima a íntegra da entrevista. Para mais informações sobre o tema comentado, acessar: www.desvirtual.com

 

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