Articulação de pesquisadores é desafio na busca de novos tratamentos

Tema do livro Guerra contra o Câncer no Brasil, do jornalista Carlos Fioravanti, será discutido em evento no IEA

Motivar a reflexão sobre a capacidade criativa de cientistas brasileiros e a importância da articulação entre especialistas de centros de pesquisas biomédicas, órgãos de governo e empresas, de modo que as possibilidades de novos tratamentos que se mostrarem consistentes não sejam perdidas. Esse é o propósito do recém-lançado livro A Guerra contra o Câncer no Brasil – Médicos e Pesquisadores em Busca de Novos Tratamentos, de autoria do jornalista Carlos Henrique Fioravanti, que escreve sobre ciência para jornais e revistas desde 1985. O autor abordará em evento no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP a pesquisa histórica que realizou para escrever o livro. Ele é autor também das obras A molécula mágica (2016) e O combate à febre amarela no estado de São Paulo (2018).

A ideia do livro surgiu quando Fioravanti escreveu A molécula mágica, sobre a história do fármaco P-Mapa, um antitumoral, antiviral e antibacteriano. “É uma história realmente fantástica, que envolve grupos não acadêmicos e acadêmicos. Eu me perguntei que outras pessoas, outros cientistas estariam fazendo coisas parecidas. Ou seja, que outros fármacos e outros medicamentos estariam ou já teriam sido feitos”, conta o jornalista. A partir disso, conheceu três medicamentos feitos no Brasil e que completaram o ciclo de desenvolvimento — ou seja, foram da descoberta, passaram por testes e atingiram o uso por pacientes. Um em meados de 1935, outro na década de 40 no Instituto Biológico de São Paulo, e o último em Recife da década de 1970. “Nós podemos fazer medicamentos originais contra o câncer”, conclui.

O autor menciona que a situação atual é bastante difícil para quem desenvolve fármacos e descobre moléculas, porque as barreiras são muitas. “A universidade tem muita dificuldade para conversar com empresas, para negociar, para dialogar. As empresas se dizem inovadoras, mas não sei se realmente são na área farmacêutica. O governo que coloca regras, instrumentos indispensáveis, mas às vezes agem de um modo muito forte, quase hostil”, afirma. Para ele, o resultado são pesquisadores que se sentem angustiados, desamparados, porque eles vêm que têm moléculas fantásticas que resolvem problemas e não conseguem avançar.

“O atual distanciamento dos pesquisadores em centros de pesquisa público, a meu ver, começou há uns 50 anos.” Fioravanti encontrou que governadores do estado de São Paulo e alguns presidentes da República apoiavam as pesquisas nas décadas de 40 e 50, e havia um debate público em jornais sobre o andamento desses trabalhos. No entanto, a partir da década de 70, houve um silenciamento: “Os pesquisadores se encolheram. Não encontrei mais sinais de diálogo entre pesquisadores e políticos.”

A saída do meio acadêmico para outros espaços é uma grande dificuldade. “Ouvi várias histórias de pesquisadores que negociaram com empresas, que demonstraram interesse. Mas depois, na hora de investir, não investe”, conta o jornalista. Ele acredita que este desafio de investimento pode ser resolvido com maior visibilidade das descobertas da universidade. “Agora pesquisadores se preocupam essencialmente com a produção de artigos científicos, que às vezes saem em inglês… então nem todos dos espaços políticos sabem achar, ver, interpretar”. Fioravanti sugere que os pesquisadores façam produtos mais simples em português e mandem direto aos eventuais interessados para que pelo menos saibam o que está sendo produzido e possam eventualmente agir e colaborar.

O evento do IEA é gratuito e acontece nesta sexta-feira, 27 de setembro, das 14h30 às 16h. Para participar, é preciso fazer inscrição através deste link. Também é possível conferir a transmissão ao vivo da atividade a partir do link iea.usp.br/aovivo.


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