Anvisa notifica possível primeiro caso de “Candida auris” no País

“Apenas três ou quatro hospitais públicos possuem a metodologia que usamos no HC para identificar fungos e bactérias”, diz Flávia Rossi, que alerta para a necessidade do diagnóstico rápido

 15/12/2020 - Publicado há 1 ano

Possível primeiro caso positivo de Candida auris, fungo resistente a medicamentos que pode causar infecções hospitalares, foi notificado pela Anvisa no Brasil. O micro-organismo foi identificado em amostra de ponta de cateter de paciente adulto internado na UTI de um hospital do Estado da Bahia.

Para dar detalhes sobre o assunto, a professora Flávia Rossi, diretora do Laboratório de Microbiologia do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), conversou com o Jornal da USP no Ar. Ela conta que o paciente em questão estava internado com covid-19 e então teve algumas complicações que o levaram a realizar um exame de microbiologia, com triagem no laboratório baiano e depois encaminhado ao HC, onde o diagnóstico de Candida auris foi fechado.

A partir de então, a notificação foi emitida e um grupo multidisciplinar ficou responsável por analisar o hospital onde o caso foi identificado. Isso porque, “embora tenhamos várias possibilidades de infecções por fungos, como a candidíase em mulheres e sapinho em crianças, a Candida auris apresenta uma resistência maior ao tratamento e, portanto, maior dificuldade, uma vez que não conseguimos prever rapidamente qual a melhor droga para tratar e a demora pode causar disseminação no ambiente hospitalar, afetando outros pacientes imunodeprimidos”, explica a diretora.

A investigação da doença para chegar a um diagnóstico passa por duas etapas: primeiro é feito um perfil de resistência considerando a situação do paciente e depois se recorre a sequenciamentos genéticos para ter conhecimento aprofundado sobre o tipo de micro-organismo localizado, possibilitando seu isolamento e comparação. A professora Flávia diz que a parte assistencial é a mais importante, pois, com a demora do reconhecimento do problema, a mortalidade tende a aumentar. Portanto, os diagnósticos precisam ser dados rapidamente, mas existe uma grande deficiência nos laboratórios públicos do País em relação aos equipamentos necessários para isso: “Apenas três ou quatro hospitais públicos possuem a metodologia que usamos no HC para identificar fungos e bactérias. Com os recursos corretos, reconhecer esses micro-organismos pode levar apenas 10 minutos, enquanto sem eles essa definição poderia demorar de três a quatro dias”.

A especialista também ressalta o perigo da automedicação nesses casos, que pode criar superbactérias ainda mais difíceis de serem tratadas. “O caso confirmado de Candida auris é isolado, mas isso não significa que podemos baixar nossa vigilância. É importante lembrar que é possível que outros casos podem estar sendo tratados como outra coisa, pela falta dos equipamentos corretos, e portanto é necessário ainda mais atenção aos pacientes no hospital”, conclui.


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