Ambiente seguro e estável para a criança ajuda a prevenir transtorno de identidade

Valéria Barbieri comenta sobre o transtorno dissociativo de identidade, conhecido como “personalidade múltipla”, relacionado a traumas sofridos na infância, facilitando a manifestação de duas ou mais personalidades

 Publicado: 04/11/2021  Atualizado: 05/11/2021 as 22:34
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O TDI é mais comum em mulheres, e ainda pode assumir a forma de possessão, “como se o indivíduo fosse possuído por uma entidade ou espírito  Foto: Freepik

 

O transtorno dissociativo de identidade (TDI), retratado em obras como O Médico e o Monstro, escrita em 1886 por Robert Louis Stevenson, e filmes como As três faces de Eva, dirigido por Nunnally Johnson em 1957, e Fragmentado, de M. Night Shyamalan, 2016,  é caracterizado pela alteração da personalidade de um indivíduo, que se comporta como se fosse uma ou mais pessoas diferentes. 

Segundo a especialista em psicologia clínica Valéria Barbieri, professora do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, geralmente são manifestados até 10 estados diferentes no máximo, embora seja possível a existência de até 100 identidades. Mas lembra que a prevenção desses quadros é a melhor alternativa e pode ser obtida com o acolhimento das crianças quando vivenciam momentos traumáticos.

Como o transtorno dissociativo de identidade acontece?

Valéria Barbieri – Foto: LEEPS/FFCLRP-USP

O surgimento do distúrbio está relacionado a traumas sofridos na infância, como abuso físico e sexual, negligência e experiências traumáticas como guerras, terrorismo, procedimentos médicos e cirúrgicos invasivos na infância. A explicação, destaca Valéria, é que as crianças “não nascem com identidade integrada”, sendo esse um processo que acontece ao longo do desenvolvimento. Logo, em ambientes abusivos, os pequenos encontram dificuldade em “juntar” as experiências, pensamentos e sentimentos vivenciados.

Assim, o indivíduo que sofre de TDI se percebe incapaz de superar situações estressantes, de sobrecarga emocional ou na presença de sintomas severos de depressão, raiva e estimulação sexual, permitindo inconscientemente “que outra identidade apareça para lidar com a situação de ansiedade” vivida naquele momento.

Características do transtorno dissociativo de identidade

Devido à descontinuidade da identidade, a amnésia pode acompanhar o paciente: “De repente, a pessoa pode se descobrir em um lugar, sem se lembrar como ela foi até lá”, exemplifica Valéria. Repentinas mudanças nos hábitos alimentares, opiniões e no estilo de vestir-se também são sintomas do TDI, além de ansiedade, depressão, distúrbios somáticos e convulsões. São possíveis ainda alucinações visuais e auditivas, fobias, uso de substâncias psicoativas, despersonalização, desrealização e alguns comportamentos de automutilação. “Existe um risco de suicídio importante, principalmente quando uma das personalidades faz uma tentativa de suicídio e a outra não se lembra disso e não se sente suicida”, alerta a psicóloga.

O TDI é mais comum em mulheres, e ainda pode assumir a forma de possessão, “como se o indivíduo fosse possuído por uma entidade ou espírito”. No entanto, diferencia-se dos “estados de possessão religiosa”, adianta a especialista, pois no transtorno a “possessão acontece de forma involuntária, ela é angustiante e ocorre em momentos e lugares que não são compatíveis com as normas da religião e da cultura”. Segundo Valéria, crianças com TDI raramente apresentam sobreposição da identidade, mas costumam ter problemas de concentração, apego e brincadeiras que expressam experiências traumáticas.

Diagnóstico do transtorno dissociativo de identidade

O diagnóstico do TDI é feito por meio de entrevistas clínicas profundas e testes psicológicos com o paciente. Mas, adianta a professora, não se trata de um diagnóstico de fácil reconhecimento, pois suas características se assemelham a de outros transtornos mentais, como de estresse pós-traumático (TEPT), ansiedade, depressão, transtornos psicóticos, transtorno bipolar e o transtorno de personalidade borderline (TPB). Muitas vezes, conta, não fica evidente a presença de diferentes estados de identidade durante o processo de diagnóstico, já que a manifestação varia em função do estresse, condições emocionais e resiliência do indivíduo. Ainda assim, clínicos devem ficar atentos a possíveis alterações no “senso de si mesmo do paciente, seu domínio próprio” e presença de amnésias.

O  indivíduo que sofre de TDI se percebe incapaz de superar situações estressantes, de sobrecarga emocional ou na presença de sintomas severos de depressão, raiva e estimulação sexual    Foto: Pixabay

 

Sobre a prevalência da morbidade, em um estudo publicado pelo Journal of Psychiatric Research, realizado com 658 participantes adultos entre 2002 e 2004, no New York State Psychiatric Institute, na Columbia University, os pesquisadores observaram a incidência de 1,5% do transtorno dissociativo de identidade. No entanto, ainda existem incertezas sobre a quantidade exata de pessoas que sofrem com a condição.

Tratamento e prevenção do transtorno dissociativo de identidade

Já o tratamento do TDI, conta Valéria, acontece em dois eixos: a medicação e a psicoterapia. Os medicamentos auxiliam no controle dos sintomas da depressão, ansiedade, impulsividade e abuso de substâncias. No entanto, por não serem capazes de eliminar ou reduzir o transtorno, é necessária a psicoterapia, que pode ajudar a estabilizar o paciente, garantir sua segurança e o auxiliar na reconexão e integração de sua identidade. Enfatiza a especialista a possibilidade de uma das identidades do indivíduo não aderir ao tratamento medicamentoso, o que compromete a eficácia dos fármacos, apontando para a importância do apoio familiar.

Ainda assim, garante a professora que a prevenção do TDI é a melhor alternativa. Para o desenvolvimento de uma identidade integrada é preciso “oferecer um ambiente seguro e estável para a criança” e “ajudá-la no processo de integração da sua identidade quando ela é pequena”. A criança precisa compreender que, mesmo com variação de sentimentos e emoções, “ela permanece sendo sempre a mesma pessoa”. Ao lado do empenho familiar, Valéria acredita ser fundamental que “políticas públicas dirigidas à proteção da infância, da maternidade, da paternidade” possam promover o apoio à família.


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