Abstinência sexual em adolescentes já foi testada e não trouxe resultados

Albertina Takiuti diz que no Reino Unido essa política não obteve aderência; modelo de São Paulo reduziu em 54% a gravidez na adolescência

jorusp

 

O governo federal lançou neste mês de fevereiro uma campanha de prevenção da gravidez na adolescência intitulada Adolescência Primeiro, Gravidez Depois. Com o objetivo de promover debate sobre os impactos de uma gravidez na adolescência entre os jovens e pais, o Ministério da Saúde e o da Mulher, Família e Direitos Humanos estão fazendo divulgação da campanha em diferentes mídias, como internet, rádio e TV. Uma parte do programa direcionada à abstinência sexual chama a atenção e é defendida pela ministra da pasta, Damares Alves.

“Todos os programas que focaram ou tentaram falar de comportamentos não deram certo. Uma revisão feita no Reino Unido em 2016 mostrou que políticas baseadas em tentativas de mudanças de comportamento não têm aderência dos jovens. A gravidez na adolescência é um composto de situações e as populações vulneráveis têm que ser pensadas”, afirma Albertina Duarte Takiuti, Coordenadora do Programa Saúde do Adolescente da Secretaria da Saúde do Estado de SP, em entrevista ao Jornal da USP no Ar.

Albertina, mestra e doutora pela Faculdade de Medicina (FM) da USP, conta que a Inglaterra deu resultados em programas do tipo ao oferecer métodos anticoncepcionais de longa duração que reduziram em 42% os índices de gravidez na adolescência. Em 20 anos, o Estado de São Paulo reduziu em 54,46% este índice, sendo um dos menores do País, focando oferecimento de métodos e diferentes formas de atendimento multiprofissional, o que poderia servir de modelo nacional. “Eu me somo a todas as vozes que, desde 2011, mostram que Estados dos EUA, que propuseram ou sugeriram abstinência, tiveram um aumento da gravidez e de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs).”

No Brasil, em 2018, foram 434,5 mil adolescentes que deram à luz, sendo uma média de 68,4 nascidos vivos para cada mil adolescentes e jovens. A atual Coordenadora Estadual de Políticas para Mulher teme que a proposta do governo possa fazer com que jovens mintam para seus pais e profissionais e, como há 30 anos, cheguem com uma gravidez avançada sem o devido acompanhamento e sem a prevenção que poderia ter sido feita. “Podemos falar de educação sexual e cotidiano dos jovens, mas jamais entendo porque nós vamos retroagir.”

“A decisão de começar a vida sexual é uma questão de foro íntimo. As famílias já falam ‘não tenha, não faça [sexo agora]’, as religiões já dizem. O que cabe como política pública é oferecer todos os caminhos para os adolescentes.”

Ouça a entrevista completa no player acima.


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