A pandemia da covid-19  é antes de tudo uma crise social no Brasil

Ana Fani Carlos fala a respeito da diferença do isolamento social em áreas centrais e nas periferias das cidades, e do livro que aborda  os impactos da covid-19 nos espaços urbanos

jorusp

A pandemia do novo coronavírus exigiu que fossem utilizados elementos da geografia para observar diferentes mapas de bairros, cidades e estados. Baseado nessa premissa, o grupo de Geografia Urbana Crítica Radical (GESP) da USP lançou em junho o livro “Covid-19 e a crise urbana” que reflete os impactos da covid-19 no espaço urbano. Quem fala sobre o livro ao Jornal da USP no Ar é Ana Fani Carlos, professora do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e organizadora do livro.

Auxiliando na leitura dos mais diferentes cenários urbanos, a geografia vai além do conteúdo presente nos mapas disponíveis, por exemplo, sobre a atual pandemia. “O livro possui essa perspectiva de fazer uma leitura por trás dos dados. Nos encontramos com a cidade sendo o lugar onde a pandemia ganha visibilidade, se realiza e ilumina os processos urbanos”, explica Ana, que é coordenadora do GESP e do grupo de Teoria Urbana Crítica do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

Segundo a professora, o livro quer ir além das estatísticas e revelar que os rostos da pandemia são de pessoas. Ana deixa bem específico alguns tópicos que o livro aborda. Como o fato de que a pandemia não se reduziria a uma crise sanitária ou econômica, sendo antes de tudo uma crise social, representada com clareza pelo auxílio emergencial, que apontou nossa persistente realidade desigual. Outro ponto que o livro trabalha é que a pandemia agrava uma crise que já era urbana, com as diferentes realidades entre centro e periferia e em como a pandemia agiu em ambos lugares.

Por fim, o livro traz à tona o encontro da pandemia com a crise política brasileira. Evidenciada com a ampla diferença de discursos dos governos municipais e estaduais que seguiam até certo momento as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), ante o governo federal que por diversos momentos minimizou a pandemia e pedia por priorização da economia. “Esse cenário de crise que estamos lidando vem sendo agravado com as políticas neoliberais, que se escancaram hoje na orientação política e nos discursos que focam na economia em detrimento da vida, apesar do auxílio emergencial”, lamenta Ana Fani.

O livro tem um artigo que fala sobre o isolamento social tão necessário nesse momento e sua diferença de vivência nas áreas centrais das cidades e na periferia. De um lado temos o amplo acesso à informação e a fusão do ambiente domiciliar com o de trabalho, devido ao home office (teletrabalho). De outro, temos aqueles que não possuem “direito ao isolamento” com um modo de vida completamente diferente onde a água não sai pela torneira e a infraestrutura é precária.

“É onde encontramos as pessoas que não têm direito ao salário, porque não têm direito ao trabalho, e que vivem como podem com o auxílio emergencial”, revela a idealizadora do livro. Auxílio emergencial, ajuste demográfico, desigualdades urbanas e a solidariedade da periferia são outros temas atravessados pelo livro disponibilizado no Portal de Livros Abertos da USP que você pode conferir clicando aqui.

Ouça a entrevista na íntegra no player acima.


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