A imprensa livre entre o poder, a transparência e o coração do público

Em encontro organizado pela SCS e pelo IEA, jornalistas discutem os rumos do jornalismo e da democracia

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Pedro Varoni, Luiz Roberto Serrano, Marina Amaral e Carlos Eduardo Lins da Silva no evento Liberdade de Imprensa e Democracia – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Um dos pilares do Estado democrático de direito é uma imprensa livre, independente e combativa. Não é à toa que, sistematicamente, vê-se a imprensa ser demonizada por governos com tendências autoritárias irrefreáveis – mesmo quando chegam ao poder pela via democrática -, elegendo o jornalismo e jornalistas como os inimigos públicos número um, aqueles que trabalham para desorientar um país, seja ele de qual latitude for. Basta publicar algo que não interessa aos poderosos de plantão. “Toda imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”, ensinou Millôr Fernandes. Mas muita gente não pensa assim. E ataca o mensageiro.

Justamente para trazer à reflexão o papel da imprensa hoje no Brasil, e ajudar a mapear seus caminhos – desde um novo modelo de negócio até formas de cativar um leitor cada mais exigente e desconfiado -, a Superintendência de Comunicação Social (SCS) e o Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP organizaram o seminário Liberdade de Imprensa e Democracia, que aconteceu no dia 19 e contou com a participação de seis jornalistas convidados. “A criação da imprensa inaugura a polêmica, inaugura o conflito. E sempre houve tentativas de calar a imprensa, já que é constitutivo dos governos o desejo de censurar a imprensa, em menor ou maior grau, dependendo dos dispositivos constitucionais”, afirmou o diretor do IEA, Paulo Saldiva, na abertura do encontro. E ele tocou ainda em um outro ponto essencial nos tempos atuais, quando se confunde acesso à informação, muitas vezes de forma excessiva, com a aquisição de conhecimento. “Achava-se que, com o acesso total à informação, a ignorância iria acabar, mas ela veio com força total. Sem uma imprensa livre, vamos nos perder no mar da ignorância.”

“A ideia deste seminário surgiu em função da hostilidade à imprensa manifestada por autoridades federais e autoridades de outros escalões”, esclareceu o jornalista Luiz Roberto Serrano, superintendente de Comunicação Social. “Hostilidade que se amplia para outros setores, atingindo as manifestações culturais, especialmente no cinema e teatro. Até as universidades são alvos. Temos convivido com ataques pessoais a jornalistas, às suas vidas pessoais. Assistimos também a tentativas de cerceamento econômico a grandes veículos”, afirmou ele, antes de passar a palavra aos convidados.

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Futuro da imprensa e da democracia

O encontro foi dividido em duas mesas, com três expositores se apresentando por vez, com a mediação de Serrano. No primeiro painel, intitulado Há democracia sem imprensa livre?, se apresentaram o jornalista, professor e colunista da Rádio USP Carlos Eduardo Lins da Silva, a jornalista Marina Amaral, uma das fundadoras da Agência Pública, e Pedro Varoni, diretor editorial do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e editor responsável pelo Observatório da Imprensa, criado justamente por Alberto Dines, que nos anos 1970 teve que deixar a direção do Jornal do Brasil por pressão do governo militar.

Carlos Eduardo Lins da Silva – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Lins da Silva começou sua fala com uma dúvida que fazia eco ao tema do encontro. “Hoje, não sabemos o que será da imprensa e da democracia diante do mundo que estamos vendo.” E foi adiante: “A situação americana serve como balizamento, já que entre 2008 e 2017 o número de jornalistas empregados nos Estados Unidos caiu pela metade. Isso mostra como os jornalistas estão perdendo espaço”, afirmou ele, mostrando ainda um outro dado americano: 20 anos atrás, o número de relações públicas era o dobro do número de jornalistas. Hoje, a proporção é de seis RPs para um jornalista.

Ele também salientou que, muitas vezes, o problema está dentro da profissão, com a tendência dos jornalistas se considerarem vítimas, por exemplo. Mas não só isso – a postura profissional também foi colocada na berlinda por ele.“A vitimização da imprensa não é boa para seu desenvolvimento. Muitas vezes, jornalistas são arrogantes, estão distanciados de seu público e falam de uma forma que a sociedade não consegue apreender”, afirmou. “Precisamos ter autocrítica.”

Outro ponto que o professor e colunista da Rádio USP frisou foi com relação aos governos de viés autoritário que querem calar a imprensa e como isso pode ser combatido. “Quem está hoje no poder no Brasil quer destruir a independência da imprensa. Vemos isso acontecer também nos Estados Unidos, Venezuela e Hungria, por exemplo, seja de formas legais ou paralegais. Mas, para combater ações assim, precisamos cativar nosso público. Temos que mostrar ao público que há saída”, afirmou. “Sem imprensa independente, não há democracia saudável.”

Marina Amaral e Carlos Eduardo Lins da Silva – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Já Marina Amaral enveredou por um outro caminho, não menos importante: como fazer chegar a notícia ao maior número possível de leitores. “O compartilhamento da informação pode ser uma grande arma para mudar a situação atual, já que a ideia de exclusividade está cada vez menos forte”, garantiu ela. O que Marina quer dizer com isso é que, ao ter uma informação nas mãos, uma agência de notícias como a dela deve disponibilizar para o máximo de publicações que puder, já que isso seria uma garantia de que a informação chegaria ao grande público. A ideia do furo – a chamada informação exclusiva -, tão cultuada anos atrás, pode estar com seus dias contados. Porque o que interessa, de fato, é combater com a verdade os ataques que a imprensa vem sofrendo e ampliar o escopo de vozes que falam com a sociedade. “Quando o governo brasileiro persegue a imprensa, ele persegue e ataca a verdade. Precisamos olhar de outra maneira nossa forma de fazer jornalismo.”

Pedro Varoni, editor responsável do Observatório da Imprensa

Essa outra “forma de fazer jornalismo” foi, de algumas maneiras, objeto da fala de Pedro Varoni, do Observatório da Imprensa. Afinal, tanto o observatório quanto o Projor, também dirigido por Varoni, se notabilizaram por fazer uma análise sistemática e acurada do papel social e informativo da imprensa. “Liberdade de imprensa e democracia sempre fizeram parte do nosso foco. Fazemos uma curadoria de crítica à imprensa, em um contraponto ao que mais vemos hoje, que é crítica à mídia vinda das redes sociais. Por isso temos o projeto de um ‘Atlas da Notícia’, já que que identificamos que 70 milhões de brasileiros vivem em um ‘deserto de notícia’, ou seja, as notícias não chegam a essas pessoas”, contou ele, emendando com uma possível solução para esse deserto noticioso. “O jornalismo local pode proporcionar um vínculo maior com o processo democrático. Por isso é importante reforçar o jornalismo local para as comunidades pequenas.”

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Credibilidade e transparência

Durante o debate e perguntas que se seguiram a essa mesa, um ponto foi comum nas falas: a questão da credibilidade. Carlos Eduardo Lins da Silva, por exemplo, chamou a atenção para o fato de que o furo jornalístico virou commoditie, e ao se ter pressa em publicar, pode-se errar, e isso mexe com a credibilidade que o leitor pode ter.

Foi justamente com relação a essa “credibilidade jornalística” que trafegou a fala de João Gabriel de Lima, editor-executivo de O Estado de S. Paulo. Ao lado de Vinicius Mota, secretário de Redação do jornal Folha de S. Paulo, e de Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP e ex-diretor da Radiobrás, eles formaram a mesa que tratou sobre Os desafios do presente e do futuro do jornalismo.

João Gabriel de Lima e Vinicius Mota – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“O jornalismo nunca está do lado do poder. Se isso acontece, alguma coisa está errada”, afirmou Lima, iniciando sua fala para, a seguir, chegar ao ponto de tangência das falas anteriores: “As fontes de informação se multiplicaram e muitas vezes são usadas para atacar a imprensa. Faz parte do processo democrático. Porém, muitos governantes usam as redes sociais para minar a credibilidade do jornalismo”. Segundo ele, isso faria parte de uma estratégia articulada. “A ideia é dizer, ou insinuar, que quando a imprensa ataca membros do governo, ela teria uma agenda oculta político-partidária. Quando se publica algo que desagrada o governo, isso não seria informação, e sim oposição. E mina-se a credibilidade dessa forma.”

Para o editor-executivo do Estadão, há um antídoto para isso: transparência. “Temos que deixar claro para o leitor qual é a missão do jornalismo, sem partidarismos, sem sectarismo, e como nossas reportagens são feitas. Temos que ser mais honestos com nossos leitores. Assim, podemos manter nossa credibilidade.”

Vinicius Mota e Luiz Roberto Serrano – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Nessa esteira de credibilidade e transparência, Vinicius Mota, da Folha, apresentou uma série de reportagens de seu jornal que sofreram ameaças de censura. “Estamos em uma sociedade de superpoderosos, como a Presidência da República, o Congresso, o STF. O jornalismo não tem esse poder, mas precisamos manter nossa independência, mesmo sofrendo com as ‘sutilezas do poder’”, argumentou ele. Essa “sutileza”, na verdade, seria um eufemismo para o nome que ela tem, de fato: censura. “É como se perguntássemos: quem fiscaliza o fiscal?”

A fala de Eugênio Bucci, da ECA, foi como um amálgama das falas anteriores. Ele traçou um fio condutor apresentando os desafios do jornalismo hoje. “Devemos vencer o preconceito, justificado, sobre financiamento público para o jornalismo. Por outro lado, devemos manter nossa independência, e seguir no caminho da transparência e do esclarecimento”, afirmou. “O jornalismo precisa levar mais em conta a função do esclarecimento, que tem a ver com educação, com a formação tanto de novos leitores como de novos cidadãos. Mas tudo isso ainda está por ser feito”, ponderou.

Eugênio Bucci – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Para Bucci, diferentemente do que muitos podem pensar, o grande desafio para o jornalismo não é a tecnologia. “A tecnologia é um desafio desde sempre, mas  não é esse o problema. Nossa grande crise é uma crise de pensamento, como se a imprensa tivesse desaprendido a pensar, se vendo como linha de montagem de publicação de notícias, não como manancial de pensadores”, acredita ele. “Dessa forma, o jornalista no Brasil acaba sendo uma espécie de ‘profeta do senso comum’, sem reflexão, e isso pode acabar desaguando no autoritarismo”, afirmou. “Se o discurso do governo não pertence ao campo democrático, não há ponto de equilíbrio, não há equidistância entre o jornalismo e a democracia e o que está fora do campo democrático. Só o pensamento livre pode nos levar a defender as causas democráticas que se opõem ao autoritarismo.”

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Ouça no link acima reportagem sobre o seminário Liberdade de Imprensa e Democracia, feita pela repórter Simone Lemos para o Jornal da USP no Ar, da Rádio USP (93,7 MHz), e transmitida no dia 20 de setembro de 2019.
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Paulo Saldiva

Paulo Saldiva é diretor do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP desde abril de 2016 e professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. À parte sua carreira acadêmica como professor e pesquisador, é fonte preferencial da mídia nas reportagens sobre doenças respiratórias, saúde ambiental, ecologia aplicada, cidades e saúde humana, humanidades e antropologia médica. É colunista da Rádio USP (Saúde e Meio Ambiente)

Luiz Roberto Serrano 

Superintendente de Comunicação Social da USP, é formado em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Foi, entre outras funções, repórter no semanário Opinião e na Gazeta Mercantil, editor de economia em IstoÉ, Exame e Veja e executivo sênior de Seminários no Valor Econômico. Foi assessor de imprensa do presidente do PMDB, Ulysses Guimarães, na Campanha das Diretas, assessor de imprensa do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e superintendente da Empresa Brasileira de Notícias, hoje Agência Brasil, em Brasília.

Carlos Eduardo Lins da Silva

Jornalista e professor de pós-graduação em Jornalismo no Insper, é mestre em Comunicação pela Michigan State University, doutor e livre-docente em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Trabalhou nos jornais do grupo Diários Associados e Folha de S. Paulo, no qual foi ombudsman, diretor-adjunto e correspondente em Washington, e no Valor Econômico, onde foi diretor-adjunto. Colunista da Rádio USP (Horizontes do Jornalismo).

Eugênio Bucci

Professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Escreve quinzenalmente na página 2 do jornal O Estado de S. Paulo. Foi presidente da Radiobrás de 2003 a 2007. Na Editora Abril, foi diretor de Redação das revistas Superinteressante e Quatro Rodas e secretário editorial. Desempenha funções de relevo em universidades como Unicamp e Insper.

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Marina Amaral

Jornalista desde 1984 com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, revista Globo Rural, TV Record e TV Cultura. A partir de 1997, passou a atuar no jornalismo independente, participando da fundação da revista Caros Amigos, da qual foi repórter especial e editora-executiva até 2007. Desde 2011 é diretora e cofundadora da Agência Pública.

Pedro Henrique Varoni de Carvalho

Jornalista, professor e pesquisador. Trabalhou 26 anos nas afiliadas da Rede Globo. Foi diretor geral da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) em 2016. Exerce atualmente a função de diretor editorial do Projor – Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo e é o editor responsável pelo Observatório da Imprensa.

Vinicius Mota

Secretário de Redação da Folha de São Paulo, escreve às segundas-feiras na coluna “São Paulo”, na página A-2. Trabalha na Folha desde 1998, onde já exerceu os cargos de editorialista, editor de Opinião e editor de Mundo. Formado em Sociologia pela USP.

João Gabriel de Lima

Editor-executivo do Estadão, professor de Jornalismo no Insper e na Faap e autor dos livros O Burlador de Sevilha e Carnaval.  Foi editor de Cultura da revista Veja e diretor de Redação da Época.

 

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