Viva o oceano!

Por Tássia Biazon, pesquisadora da Cátedra Unesco para Sustentabilidade do Oceano, Monique Rached, bióloga, e Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da USP

Tassia Biazon – Foto: Arquivo pessoal
Monique Rached – Foto: Reprodução/ Facebook
Alexander Turra – Foto: Reprodução
Dias comemorativos! Quem não gosta? Às vezes eles se transformam em feriado, festa, luta ou aquele bolo especial. Suas criações são pelos mais variados motivos, como religiosos, culturais ou históricos. Você sabia que ontem, 8 de junho, foi o Dia Mundial do Oceano? A primeira comemoração da data aconteceu em 2009 – ela foi pensada pela primeira vez em 1992 no Rio de Janeiro, durante a Rio 92 (a Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento) mas só foi assinada pela ONU em 5 de dezembro de 2008.

Pois é, embora o oceano esteja intrinsecamente relacionado à vida humana, demorou para as pessoas chegarem a um consenso mundial de que ele merecia um dia – seja para agradecer todas as experiências maravilhosas advindas dele, informar as pessoas sobre o impacto das ações humanas no oceano, desenvolver um movimento mundial de mobilização sustentável que reflita no continente e no mar, aproximar as pessoas do maior ambiente da Terra e aumentar o conhecimento sobre a sua influência para a humanidade. De fato, o oceano oferece mais da metade do oxigênio que respiramos, absorve a maior parte do dióxido de carbono emitido por nossas atividades, abriga a maior biodiversidade do mundo, possui relevância econômica mundial, regula o clima da Terra, dentre outras importâncias. São tantos os motivos que o oceano deve ser lembrado todos os dias, mas ainda não chegamos a essa realidade compartilhada.

Contudo, a maré de ações em prol do oceano está aumentando. Em 2015, ele ganhou destaque na nova agenda de desenvolvimento sustentável, a Agenda 2030, com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 14 – Vida na Água. Em 2017, a ONU, na Conferência do Oceano, propôs que a década entre 2021 e 2030 fosse dedicada à Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, a fim de fortalecer a cooperação internacional para desenvolver a ciência e a consciência que precisamos para o oceano e o futuro que queremos.

O Dia do Oceano é alicerçado em um componente histórico, que revela o avanço no entendimento de sua importância. Entretanto, o simbolismo desta data está mais associado à necessidade de se destacar um tema que precisa de atenção da sociedade, a exemplo das campanhas de combate ao câncer de mama ou próstata, materializadas pelo Outubro Rosa e o Novembro Azul, respectivamente.

Embora seja um dia comemorativo, se pensarmos bem, há muitos motivos para lamentarmos. A qualidade do ambiente marinho está sendo perdida ao longo do tempo, como um câncer que rapidamente se alastra e que demanda imediata remediação. A demora para tomar atitudes pode determinar a vida ou a morte. Ou seja, quanto antes medidas forem tomadas, inclusive na prevenção, melhor tende a ser o resultado. A morosidade em cuidar do oceano pode ser considerada como negligência da humanidade em relação a um grande aliado de sua existência. Por outro lado, essa demora também pode ilustrar uma falta de clareza dos líderes mundiais sobre esse papel central do oceano na sustentabilidade do planeta.

Como um grande sumidouro dos rejeitos gerados pelas atividades humanas, como o esgoto, o lixo e os poluentes industriais, o oceano também vem sofrendo com outros tipos de agressões. Extinções de espécies que sequer foram conhecidas pela ciência, invasão de espécies exóticas, destruição de ambientes, como manguezais e recifes de coral, pesca irregular, ilegal e não reportada e mudanças do clima correspondem a importantes ameaças que ilustram a ampla crise que assola o oceano.

Essas alterações se desdobram em catástrofes para a humanidade. Ao perdermos a qualidade do ambiente marinho, perdemos benefícios providos para as pessoas e inúmeras oportunidades de desenvolvimento de atividades socioeconômicas, como turismo, pesca e aquicultura. São oportunidades para ampliar a oferta de alimento e a segurança alimentar; para gerar milhões de empregos e produzir a energia limpa e renovável que tanto precisamos para caminharmos na direção de uma economia de baixo carbono.

E se olharmos para o Brasil, a nossa responsabilidade sobre o oceano é grande, pois cerca de 20% do Produto Interno Bruto do País depende direta e indiretamente do oceano. Esse número é reflexo de uma faixa litorânea de 8.500 km, banhando 17 Estados e 13 capitais. Corresponde também a uma área marítima de aproximadamente 5,7 milhões de quilômetros quadrados, denominada Amazônia Azul, que concentra 95% do petróleo, 80% do gás natural, 45% do pescado produzido no País e por onde é realizada a quase totalidade do comércio exterior (95%), conforme dados da Marinha do Brasil.

Além disso, há o simbolismo do oceano que inspirou e inspira a música e as artes plásticas, a literatura, a cultura popular e a mística do desbravamento de um ambiente ainda incógnito para nós. Sem o simbolismo do oceano não teríamos a Suíte dos pescadores de Dorival Caymmi, os quadros de José Pancetti, os romances de Jorge Amado, os contos populares compilados por Câmara Cascudo e as aventuras de Júlio Verne.

Essa simbologia moveu inúmeras pessoas a conhecer o mar. Aqui citamos duas histórias que repercutiram amplamente e que ilustraram a magia que o mar exerce sobre as pessoas. Em 1995, em relato do jornalista Roni Lima à Folha de S. Paulo, a sra. Maria do Carmo Jerônimo, mineira de 124 anos, conheceu o mar. Tendo sido escrava até os 17 anos, aguardou muito tempo até ter podido realizar esse desejo, uma segunda alforria, que só se igualava à sua vontade de conhecer o Papa.

Em 2021, Pâmella Rocha, uma menina goiana de 9 anos, também conheceu o mar. Com um câncer em fase avançada e que levou à amputação de uma de suas pernas, Pâmella tinha um enorme desejo de estar próxima ao mar. Desejo que foi concretizado. Junto com sua família e diversos apoiadores, ela conheceu o que achava ser uma “grande represa”. “Foi maravilhoso ver os olhinhos dela brilhando”, registrou sua mãe, Vannina Rocha, em um terno desabafo à jornalista Vanessa Chaves, do G1.

A exemplo de Maria e de Pâmella, cerca de 70 milhões de brasileiros nunca tiveram a oportunidade de ver, sentir e se banhar no mar. De sentir a energia das ondas, o sal no corpo, a brisa na face e a areia salpicando na pele. De ver o Sol nascer, “emergindo” de um horizonte oceânico.

Neste momento, façamos uma reflexão sobre o que conhecemos, o quanto compreendemos, como usamos e por quê exploramos o oceano. No final, o Dia do Oceano é para ouvir, mesmo imaginariamente, o som que vem das águas do mar, um som que pode significar muitas coisas, como um clamor pedindo respeito pelo que te sustenta. A compreensão pessoal das ameaças, dos mistérios, das belezas e das importâncias do oceano para qualquer vida que pulsa agora, como a nossa, é um dever de todos nós.

Enquanto você faz essa leitura, diversas atividades, em todo o mundo, em terra e mar, estão acontecendo de maneira insustentável, deixando muitos ambientes em apuros, entre eles o oceano. E se o oceano está em apuros, nós também estamos. Não importa onde você mora, se você não gosta de nadar ou de tomar banho de sol na praia, você está conectado ao oceano. Estamos conectados a ele desde antes de nascermos, pois sem ele, provavelmente não haveria vida na Terra. Por isso, é nosso dever transformar a forma como vemos e nos relacionamos com ele.

E para tanto, comece hoje a reduzir a pegada de carbono, a escolher conscientemente os alimentos de origem marinha que podem ser consumidos, consumir de forma consciente, denunciar o comércio ilegal de itens de exploração animal, apoiar organizações que trabalham para proteger o oceano ou mesmo influenciar a mudança na comunidade por meio de suas ações.

O Dia do Oceano é uma oportunidade para reforçar o simbolismo do oceano como um lugar para se conectar com a essência da vida. Pois, considerando o planeta como um ser vivo, o oceano seria uma de suas partes vitais!


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.