Valdir Baptista, o cavalheiro do impossível

Por Luciano Maluly, professor do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes

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Luciano Victor B. Maluly – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

Quando fui convidado pelo professor Valdir Baptista para conhecer o seu acervo de livros e filmes, fiquei impressionado pela quantidade de obras raras e, ainda mais, pelas histórias em torno de cada aquisição. Aquele dia tornou-se tão especial que vislumbrei o roteiro infinito de um filme, especialmente quando ele abriu a porta do seu apartamento no Edifício Copan, no centro da capital paulista.

O também jornalista e cineasta me encantaria com seu universo cheio de personagens e autores. Em cada comentário, a cena paulistana se misturava às obras de arte, como se, naquele momento, eu fosse o protagonista de uma história em que o aluno descobria o mundo ao ouvir o professor.

Ao mostrar os livros dos amigos Jerusa Pires Ferreira (1938-2019) e Boris Schnaiderman (1917-2016), contextualizava o amor do casal e as contribuições de ambos à cultura brasileira, por meio de um conjunto de fatos sobre a dor e a beleza da humanidade. Com Jerusa como orientadora do mestrado na PUC-SP, estudou o mito de Fausto no cinema, especialmente sobre o trabalho do cineasta Carlos Reichenbach, no filme Demência (1987), como descreveu em especial para a revista Alterjor, em 2019.

Baptista era admirador do livro Pedro e os Lobos, escrito pelo jornalista e historiador João Roberto Laque (2010), que o inspirou a gravar o documentário inacabado sobre a vida do guerrilheiro Pedro Lobo de Oliveira.

O tema das ditaduras na América Latina o incomodava, tanto que, ultimamente, dedicava-se à pesquisa Quem cala morre contigo – a construção da memória das ditaduras militares em documentários brasileiros e argentinos, no programa de pós-doutorado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, com supervisão do professor Wagner Souza e Silva.

A busca pelo improvável e a incansável luta contra a desigualdade social e por novas políticas públicas no Brasil o fizeram trabalhar com o prof. dr. Paulo Rogério Gallo em pesquisas e produções audiovisuais sobre a dengue no Estado do Piauí e, em especial, sobre a mortalidade infantil dos povos indígenas no Acre, que originou a tese de doutorado Registro audiovisual da omissão do estado brasileiro nas políticas públicas de saúde segundo depoimento de lideranças indígenas, defendida na Faculdade de Saúde Pública da USP, em 2016. A repercussão da pesquisa foi tema de matéria publicada no Jornal da USP.

Destacou-se como professor e coordenador de cursos de comunicação da Universidade Anhembi-Morumbi, em particular nas graduações em Rádio e Televisão (que chegou a ser o curso com maior número de alunos da cidade de São Paulo durante a sua gestão); de Cinema (em que foi um dos idealizadores e, como dizia: “a concretização de um sonho”) e de Jornalismo (como um dos professores mais queridos e requisitados para orientação de TCC). Seu último trabalho como docente foi nas Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam), na qual orientou o excelente trabalho de Iara Aisha Oliveira sobre o radialista Gil Gomes, que foi transmitido pela Rádio USP, por contar com uma das últimas entrevistas do famoso comunicador.

Na Universidade de São Paulo, participava ativamente de atividades na Escola de Comunicações e Artes, especialmente no Alterjor (Grupo de Pesquisa em Jornalismo Popular e Alternativo), como colunista e pesquisador; no CELACC ( Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação), como coordenador de parcerias internacionais como a de Angola; e do Departamento de Jornalismo e Editoração, onde ainda colaborava, como professor conferencista, da disciplina Conceitos e Gêneros do Jornalismo.

Considerado um lutador em defesa do cinema brasileiro e um intelectual admirado por alunos, colegas e amigos (como veremos nos depoimentos a seguir), Valdir Baptista dizia que deixaria os livros e os filmes como legado à filha, Barbara, e à esposa, Thais Helena dos Santos Buvalovas, também jornalista, doutora em História Social pela USP e autora do livro Hipólito da Costa na Filadélfia. Imprensa, maçonaria e cultura política na viagem de um ilustrado luso-brasileiro aos Estados Unidos (1798-1800) (Hucitec, 2011).

Nosso último encontro foi durante uma viagem ao Rio de Janeiro para uma difícil missão: conversar com o professor Miguel Angelo da Luz, para acertamos os detalhes para a produção, junto com o jornalista e professor Marcelo Cardoso, da biografia do treinador da Seleção Brasileira Feminina de Basquete, campeã mundial em 1994. Naquele dia, também encontramos alguns amigos da Nova Zelândia, como o professor Leonel Alvarado, que trazia alunos daquele país para conhecer a cidade e aprender a língua portuguesa. Valdir estava muito feliz pelos nossos acertos e, se pudesse retornar no tempo, gostaria de lhe dizer que sua sabedoria, generosidade e prosa ficarão conosco registradas na imagem do “Cavalheiro do Impossível”:

Diomedio Piskator (cineasta): Minha agonia é enorme e amarga com a perda do amigo Valdir Baptista, professor, jornalista, cineasta, pesquisador, militante progressista e, sobretudo, lutador em defesa do cinema brasileiro. Pertenceu aos quadros do Sindcine (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual) e foi diretor de relações institucionais da Associação Memorial do Cinema Paulista, desde a fundação. O Valdir preparava um trabalho escrito sobre o tipo de cinema que realizamos; igualmente a realização de uma mostra de filmes, intitulada Mostra de Cinema do Impossível. Valdir possuía um farto conhecimento de cinema, como poucos. Muito culto. Convivi com ele desde a década de 1980. Quando preparava a produção do filme Memórias da Boca (2014), o convidei para dirigir o episódio Bangue Bangue, antenado com a produção de cinema popular realizada em São Paulo nos idos dos anos de 1960, 1970 e 1980. Realizou com maestria. Em seguida, produzi SP Zero 15 (2015) e o convidei para novamente dirigir outro episódio e ele nos deu o poético Sob o Céu de São Paulo. Antes da crise epidêmica, o convidei para um novo projeto, o que ele aceitou de pronto. Não veremos mais seu novo filme sobre racismo. Um camarada iluminado que jamais será esquecido.

Alunos do curso de Jornalismo da USP: Tivemos a oportunidade de cursar a disciplina Conceitos e Gêneros do Jornalismo com o professor Valdir Baptista durante este semestre. Apesar da interrupção das aulas presenciais, pudemos aprender muito neste período e admirar o trabalho e a pessoa do professor Valdir, sempre muito dedicado e solícito no ensino e atendimento de cada aluno. Seu cuidado em responder ao e-mail de cada um de nós, sua delicadeza e sua terna compreensão com nossas dificuldades neste momento de pandemia serão sempre lembrados. Ficamos continuamente impressionados e admirados com seu extenso conhecimento, tão generosamente compartilhado conosco através de suas aulas, recomendações e referências. Lembraremos dele com muito carinho, e gostaríamos de prestar nossa solidariedade à sua família e desejar muita força neste momento extremamente difícil.

Piero Sbragia (professor e crítico de cinema): Fazíamos aniversário quase juntos e era sempre uma alegria ouvi-lo gritar na sala dos professores da Fiam me enchendo pelo Palmeiras. O corintiano Valdir estava sempre de bem com a vida, sorrindo, tirando sarro de todo mundo e injetando leveza numa sala dos professores que a cada semestre ficava menor. Com frequência assinávamos o ponto juntos, bem depois do horário oficial de término da aula. Assim como eu, ele gostava de prosear com os alunos. Geralmente reclamavam que o som do filme que exibíamos estava alto, ele também dava aula de documentário como eu. Por diversas vezes eu ia espiar o filme que ele mostrava e vice-versa. Era sempre gostoso debater cinema e política com ele. Recentemente compartilhei com ele minha alegria por lançar um livro sobre documentários. Ele me deu parabéns e contou, todo feliz, que estava fazendo pós-doutorado na USP. Faço questão, pela memória dele, em compartilhar suas últimas palavras comigo. Sempre com esperança, sempre resistindo! Tamo junto Valdir!

Marcelo Cardoso (professor e cronista): O meu contato com Valdir Baptista se estreitou bastante nos últimos anos. Professores, fomos vizinhos de sala de aula e, quando terminávamos, muitas vezes, íamos caminhando e batendo papo: ele ia para casa e eu para o metrô. Aliás, Valdir era ótimo contador de “causos”. Duas passagens com ele me marcaram. A primeira, em 2014, quando foi um dos diretores do filme Memórias da Boca. A película mostra oito histórias e faz uma homenagem ao período e aos diretores do Cinema da Boca, movimento cinematográfico surgido em São Paulo. O lançamento do filme ocorreu no Cine Belas Artes (que hoje tem outro nome), na esquina da Avenida Paulista com a Rua da Consolação. Estava com a minha esposa, Lenize, quando o filme ia começar e um “grandão” passou pelo corredor como se estivesse procurando algo ou alguém. Chamamos e ele sentou-se para assistir à estreia ao nosso lado. Quanta honra ter a companhia de um diretor de cinema numa ocasião como essa. E digo isso pelo fato de que Valdir era dono de um saber amplo sobre o cinema brasileiro, principalmente nos períodos entre os anos de 1960 e 1980. E foi o cinema que nos uniu em outra ocasião. Telefonei para Valdir chamando-o para ver a exposição sobre José Mojica Marins, o Zé do Caixão, personagem que aterrorizou o espectador brasileiro até os anos 1980.  À meia-noite levarei sua alma, nome da exposição e de um dos filmes mais importantes estrelado, dirigido e roteirizado por Zé do Caixão. Foi em um dia no mês de novembro de 2015. Lembro-me que estava uma tarde agradável naquele dia quando entramos no prédio do Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo. E mais uma vez o jornalista, cinéfilo, cineasta, professor e amigo Valdir ia me guiando e me ajudando a compreender melhor este universo. Ficam na memória os momentos e a certeza de que perdemos todos com a ausência de Valdir.

Dennis de Oliveira (professor da ECA-USP): O professor Valdir Baptista, em uma banca de defesa de Trabalho de Conclusão de Curso na ECA, disse solenemente: “O cinema nacional da Boca do Lixo era veiculado em salas de cinema baratas no centro da cidade nos anos 1970. Como eram filmes nacionais, falados em português, possibilitaram a pessoas com baixo grau de instrução frequentarem o cinema. Pouca gente fala deste potencial democratizador do cinema nacional”. Falou isto ante a outros membros da banca, espantados, todos envolvidos em uma discussão sobre os padrões estéticos da produção fílmica nacional. Este era Valdir, o cinéfilo e intelectual que nunca deixou de lado o seu compromisso na luta contra as injustiças sociais e por uma sociedade mais igualitária. Desde a sua militância no movimento estudantil nos anos 1980, quando cursava Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, no seu engajamento no movimento cineclubista, quando tocou o Cineclube do Centro de Cultura Operária no bairro da Bela Vista – ele levava na mochila películas super-8 que eram veiculadas aos sábados à noite. A energia combativa do seu período de juventude não deixou de estar presente junto com a seriedade no seu trabalho como docente e pesquisador. Coordenou e lecionou em cursos em várias universidades particulares, como a Anhembi-Morumbi e a FMU, desenvolveu programas internacionais de capacitação em comunicação com o governo de Angola e nunca deixou de lado sua paixão pelo cinema, participando de projetos como o longa O Cinema da Boca e outros documentários. Amante de bons vinhos, não dispensava uma boa cerveja ao lado de amigos. O Departamento de Jornalismo e Editoração teve a honra de contar com esta pessoa entre os seus pós-doutorandos. Colaborou em disciplinas de graduação de jornalismo e em projetos e núcleos de pesquisa, mantendo sempre o que mais o caracterizava: o compromisso, a seriedade e a lealdade com os amigos. Deixou muitas marcas positivas e saudades. O que podemos dizer, por ora, é “muito obrigado, professor Valdir”.

Enio Moraes Júnior (jornalista em Berlim, na Alemanha): O que mais chamou minha atenção foi o sorriso gentil que ele trazia nos lábios, quase como uma placa onde se lia: “Aceitam-se novos amigos”. Ambos jornalistas e pesquisadores, até então não nos conhecíamos, mas por conta de amigos em comum, iríamos juntos a um congresso do Alterjor, na Estância Turística de Piraju, em 2011. Encontramo-nos no Terminal Rodoviário Barra Funda, em São Paulo, e logo entramos no ônibus. Durante seis horas, conversamos um bocado sobre jornalismo, sobre cinema e sobre a vida. Ao chegarmos ao destino, a inteligência do meu companheiro de viagem havia me impressionado, mas nada tinha sido mais marcante do que aquela placa em forma de sorriso onde parecia estar escrito: “Aceitam-se novos amigos”. Por isso, antes do desembarque, olhei com mais atenção e notei que algo novo sutilmente se esboçava ali: “Seja bem-vindo ao meu ciclo de amizade”. E quem poderia deixar de ser amigo do Valdir?

Paulo Rogério Gallo (orientador de doutorado e professor da FSP-USP): ouça depoimento em áudio.

Valdir Baptista partiu em seu Encouraçado Botequim (como intitulou a sua coluna no site do Alterjor) no último dia 29 de junho de 2020, aos 58 anos.

 

 

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