Universidades e a defesa intransigente da democracia

Por Carlos Gilberto Carlotti Junior, reitor da USP, Antonio José de Almeida Meirelles, reitor da Unicamp, e Pasqual Barretti, reitor da Unesp

 Publicado: 18/01/2023  Atualizado: 30/01/2023 as 14:11
Carlos Gilberto Carlotti Junior – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Antonio José de Almeida Meirelles – Foto: Unicamp
Pasqual Barretti – Foto: Unesp
As universidades exerceram, ao longo dos últimos anos, um protagonismo cujas facetas se multiplicaram na mesma proporção em que emergiram aberrações advindas da condução errática do poder central. O embate, documentado a quente, foi árduo. A desqualificação do sistema de ensino superior esteve no cerne do ideário governista.

Os ataques sistemáticos à ciência, à pesquisa e ao debate manifestaram-se por meio de numerosas ações deletérias, desde o contingenciamento de verbas até falas inadequadas de representantes que deveriam zelar pelo bem público. Neste contexto, forjaram-se o caldo da intolerância e o ambiente beligerante.

Em um cenário de esgarçamento institucional e de esfacelamento de políticas públicas, as universidades, muitas das quais torpedeadas por inverdades e cortes orçamentários, constituíram-se em anteparo da incivilidade. As frentes de resistência gestadas na academia, independentemente de seus matizes e motivações, cumpriram um papel histórico.

No rol de contribuições da ciência, algumas sobressaíram-se em razão da urgência exigida pela gravidade do momento, tanto no campo da ação como no terreno das ideias. Cabe reportar, entre os exemplos, o combate ao negacionismo, o enfrentamento da pandemia de covid-19 e os alertas sobre posicionamentos com inclinações autoritárias.

Nesse último caso, são reveladores os episódios registrados no dia 8 de janeiro, em Brasília. Os atos de vandalismo não apenas materializaram o leitmotiv da extrema direita, bem como demonstraram que os inimigos do Estado democrático de Direito, saudosos de um período recente de triste memória, haviam adquirido a confiança necessária para agir à luz do dia.

A ofensiva terrorista, que mobilizou a sociedade civil e teve rápida resposta das instituições nas três esferas de poder — não por acaso alvos preferenciais dos delinquentes —, deixa lições. A história mostra que, paradoxismos à parte, situações traumáticas têm o condão de aperfeiçoar um vasto repertório de valores, inclusive os democráticos.

A academia, cuja reação à investida golpista foi também imediata, tem muito a depreender dos acontecimentos na praça dos Três Poderes. Para além de levar a cabo sua missão de difundir conhecimento, torna-se imperativa a união de forças para atenuar e, em última instância, debelar potenciais ameaças que se avizinhem.

Não é de hoje que as três universidades estaduais paulistas vêm atuando conjuntamente em questões fulcrais da vida nacional. Cientes do papel que lhes cabe, Unicamp, USP e Unesp manterão o seu protagonismo na defesa intransigente da democracia e dos princípios que as norteiam.

(Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 17/1/2023)


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