Uma gigante e seus desafios

Por Paulo Martins, professor de Letras Clássicas e diretor da FFLCH/USP, e Ana Paula Megiani, historiadora e vice-diretora da FFLCH/USP

Paulo Martins – Foto: Cicero Wandemberg

 

Ana Paula Torres Megiani – Foto: FFLCH/USP

 

Assumimos a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em setembro do ano passado, em plena pandemia, com nossas atividades didáticas, todas, em modo remoto. Nos sete meses anteriores à posse, o corpo docente já começara a se adaptar às novas tecnologias, formatando seus conteúdos ao Google Meet e ao Classroom, usando o e-Disciplinas, gravando aulas disponibilizadas em canais do YouTube e plataformas de podcasts. O corpo funcional, em sua maioria, já passara a responder por suas atividades, quando possível, em home office, e as necessárias atividades presenciais não foram descuradas, ambas executadas com muito esforço. Os estudantes, por sua vez, mudaram completamente sua rotina, ainda que a interação com os professores fosse possível nas plataformas, o olho no olho, o tête-à-tête, o calor da presencialidade estavam definitivamente ceifados do nosso cotidiano acadêmico. Afinal a faculdade tinha, e ainda tem, como marca diferencial as aulas expositivas presenciais em todas suas grades curriculares, mas mesmo assim conseguiu em boa medida superar os entraves desse triste novo mundo. Para estudantes, docentes e servidores a FFLCH e a USP procuraram oferecer, na medida de suas condições, para além dos kits de acesso à internet, notebooks para que as atividades remotas não fossem prejudicadas.

Se essa tarefa já seria difícil para gestores tarimbados, a diretoria “neófita” da FFLCH teria para si duplicada, pois simultaneamente deveria, de um lado, aprender os meandros da administração e, de outro, imediatamente gerir uma faculdade gigante, seguramente a maior dentro da maior universidade do Brasil, a USP. O tamanho da FFLCH é comparável ao de muitas universidades de classe mundial. Para tanto, basta pensarmos que temos: 11 departamentos; cinco cursos de graduação com 19 habilitações; 23 programas de pós-graduação; 13.035 alunos de graduação e de pós-graduação; 215 cursos de extensão com 7.237 participantes; 280 pós-doutorandos (mais de 10% da USP); 430 professores; 298 técnicos administrativos, seis prédios e uma biblioteca com 570 mil volumes. Vale lembrar que a Unicamp tem 20 mil alunos de graduação; Yale, somando graduação e pós, tem 13.574 estudantes; a Federal de Ouro Preto, entre graduandos e pós-graduandos, 11.082; a UniRio, instituição federal, 13.317 estudantes de graduação e pós; Princeton, 8.213 alunos. Enfim, nossos números assustam, o gestor com experiência e o leigo. Temos tamanho e importância, mas não temos recursos na mesma proporção.

Seríamos completamente incautos se supuséssemos que uma unidade de humanidades concorre em valores com aquelas que têm de sustentar laboratórios e pesquisas caras, ainda que realizadas em unidades, muita vez, menores do que a FFLCH. Aquelas que operam pesquisa tecnológica e/ou, como dizem, “dura”, devem, sim, ter mais recursos,  principalmente por mobilizar um arsenal de equipamentos e insumos muito grande e caro. Entretanto, a pesquisa em humanidades não é “mole”. Ela representa a essência no campo do desenvolvimento humano, portanto não pode ficar à mercê do beneplácito de autoridades governamentais. Ao contrário, deve delas ganhar espaço a partir de seus projetos que são, sim, fundamentais para o nosso aprimoramento e transformação da sociedade.

Além disso, dessa falta de recursos, teríamos de responder ao nosso plano de ação proposto à comunidade acadêmica durante a nossa eleição que obteve mais de 90% de aprovação, tanto na consulta popular como no colégio eleitoral, fato que, ao mesmo tempo nos legitima e nos impõe uma responsabilidade deveras grande. Nossas prioridades: preparar a FFLCH para o retorno seguro às atividades presenciais – não seremos responsabilizados por vidas perdidas –; construir nosso escritório de apoio ao pesquisador que extrapola aos padrões da Fapesp e busca dar o apoio institucional relativamente a todas as agências e assegurar à direção respostas imediatas quanto à pesquisa realizada na faculdade, numérica e qualitativamente; elevar nossa Biblioteca Florestan Fernandes a um patamar internacional, transformando-a em espaço de convívio acadêmico, simultaneamente nos nutrindo com seu magistral acervo; atualizar nossos cursos de graduação de maneira a tornar as grades curriculares menos engessadas de forma que nossos estudantes possam circular entre os cursos com mais agilidade e menos burocracia; criar cursos de graduação multi, inter e transdisciplinares que valorizem nossa vocação tão plural, buscando não afetar a carga horária docente, ou mesmo impor a necessidade de contratação de novos professores ou criação de novas disciplinas; resistir com respostas qualitativas às ameaças desferidas contra a universidade e sua autonomia e contra as humanidades, em particular, nos níveis estadual e federal; garantir a permanência de nossos estudantes cotistas com apoio acadêmico incisivo; superar a carência de funcionários com uma reestruturação desse quadro, além de buscar mais funcionários vindos de outras unidades e, por fim, e não menos importante, consolidar a interlocução com outras unidades e com a estrutura administrativa central, isso tudo sem descuidar de nossa excelência reconhecida internacionalmente e coadunada com nosso projeto acadêmico.

E começamos: os nossos primeiros meses (de setembro a janeiro) foram intensos: participamos de reuniões com Reitoria e Vice-Reitoria; com as Pró-Reitorias; ouvimos nossos centros interdepartamentais; organizamos nosso “Instrumento de Distribuição Orçamentário” – Portaria FFLCH, 002 de 13 de janeiro de 2021, a nossa LDO – que tornou possível o orçamento ser aprovado na primeira semana de janeiro com amplo debate com chefes de departamento; iniciamos o difícil e necessário rearranjo dialogado do corpo funcional; implementamos o escritório de apoio ao pesquisador, inclusive com espaço físico definido; atuamos junto ao DRH da Reitoria o remanejamento de verbas ociosas e começamos a redesenhar a estrutura administrativa da faculdade; afora termos melhorado a dinâmica de nossos colegiados e, por fim, retomamos as reuniões e ações da Comissão de Acompanhamento do Projeto Acadêmico.

Ainda que tenhamos um orçamento considerável e, certamente, invejável, afinal hoje nossa dotação básica/discricionária está em torno dos R$ 4.338.385,00 e já a carimbada/obrigatória por volta dos R$ 5.548.517,00, ainda assim, o nosso tamanho e nossas ambições ultrapassam a realidade desses valores. A FFLCH há de encontrar, além da recomposição negociada da distribuição orçamentária junto à COP e à Codage, isto é, de suas receitas do tesouro, recursos que permitam à FFLCH garantir alcançar patamares exigidos por nossa excelência. É mister, motu proprio, ampliar as receitas de renda industrial, já que nossas atividades de extensão universitária são as mais procuradas da Universidade.

Quando pensamos em meios alternativos de receita, imediatamente vêm à tona questões como: privatização; cobrança de mensalidades; desoneração do Estado; subserviência ao mercado, tudo isso, não sem razão, já que todos nós conhecemos a ganância que parte das autoridades governamentais tem sobre a nossa quota-parte do ICMS. Afora a desestabilização do sistema de ensino superior público por interesses absolutamente claros do “clube” de mantenedores de universidades privadas, abutres em sua esmagadora maioria. Quanto ao primeiro caso, no ano passado, viu-se uma verdadeira cruzada a fim de se manter nossa posição histórica na gestão orçamentária diante da iminente aprovação sem ajustes do PL 529/2020, uma afronta à autonomia das universidades estaduais paulistas. Sem pensarmos na tentativa de desmonte da Fapesp, esta, sim, invejada Brasil afora. Quanto ao segundo, o desgoverno Bolsonaro, foi o catalizador de um movimento de descrédito da universidade pública. A campanha iniciada por Weintraub, tirando as peculiares bravatas, é mantida pela atual gestão do MEC, comandado por um mantenedor confessional, ligado a uma instituição privada de ensino superior, aponta qual é o real interesse desse presidente iletrado: aniquilar a universidade pública a fim de passar às escolas particulares alinhadas e aliadas o comando dessa política de Estado tão virtuosa no Brasil.

A nossa faculdade produz muita renda industrial, mas haveria de aumentá-la também. Essa me parece a primeira linha de força sobre a qual devemos nos debruçar. A ampliação dos cursos de extensão cultural, aperfeiçoamento, difusão, especialização é fonte importante de nossa arquitetura orçamentária. Nosso “Instrumento de Dotação Orçamentária” garante ao gerador de recursos de renda industrial o uso completo desses valores para investimentos no ano de sua captação, garantido um overhead de 30% para a FFLCH, e os valores não realizados no ano por esse captador retornam para um fundo que irá gerir projetos comuns a toda a comunidade da faculdade. Ainda assim, queremos mais. Para tanto vemos apenas uma solução.

No futuro, por que não se discutir formas alternativas de captação de recursos? A constituição de um endowment a partir de uma “Associação de Amigos da FFLCH”, estrutura que já é uma realidade na Poli, na FEA e na FM, na Católica do Chile, no King’s College London (e maior parte das universidades da Grã-Bretanha), em Yale, em Princeton (e em quase todas dos EUA), na Sorbonne e, própria na USP, como um todo; isso facilitaria enormemente a gestão da “nossa gigante”. Para se ter uma ideia de valores: Yale atingiu 30.31 bilhões USD; Princeton, 25.9 bilhões USD; Harvard, 41.9 bilhões USD; KCL, 252.2 £m; Cambridge, 7.121 £m; Oxford, 6.100 £m; Poli, 33 milhões de reais; FEA, 4 milhões de reais; enfim, números que nos permitem sonhar.

Em outra perspectiva, a FFLCH e, em certa medida, a USP nutrem certo desprezo ou descaso com a suas marcas – hoje jogadas ao relento da pirataria. Isso é algo impensável em qualquer lugar do mundo. Se tal preocupação não atendesse a algumas necessidades, universidades de primeira linha não teriam lojas, expondo e explorando suas marcas em produtos licenciados[1]. Assim nossa “Associação de Amigos”, além de gerir o fundo patrimonial, captando recursos por doação, poderia se ocupar da exposição e exploração da marca FFLCH-USP com uma gama grande de produtos: da camiseta ao moletom; do lápis à caneta-tinteiro; do bloco de anotações ao caderno; da agenda à carteira, do pin à gravata; do boné à caneca, enfim tudo que denotasse o “Orgulho de ser FFLCH” – slogan criado por nossa Atlética vencedora.

Construir essa estrutura paralela e solidária em hipótese alguma significa abdicar dos recursos do tesouro e, portanto, abrir mão do caráter irrevogável do ensino público inclusivo, gratuito, de qualidade e para todos. Para tanto, essas ações de gestão devem ser alvo de ampla discussão na nossa faculdade a fim de que possamos tê-las reguladas com total democracia e participação da comunidade. Além disso, devem estar nas mãos de nossa instituição pública com toda transparência e independência necessárias. Assim, o fato de se explorar trademarks e/ou criar um fundo patrimonial e/ou constituir uma “Associação de Amigos da FFLCH” não significa subserviência ao mercado, ao contrário, significa usar um mercado consumidor que já existe – diga-se de passagem – para produzir ciência, para garantir permanência e amparo dos estudantes cotistas, para investir no acervo e na manutenção de nossa biblioteca e de nossos equipamentos didáticos; significa poder divulgar nossos trabalhos, garantir nossas intervenções internacionais de forma segura e, assim, com maior independência em relação aos recursos das agências de fomento hoje tão duramente assediadas pelo governo negacionista e obscurantista.

Assim, desafios e trabalho coletivo são nossos compromissos. Os recursos amealhados em atividades de extensão, garantidas todas as demandas sociorraciais, a parceria com ex-alunos e/ou com a iniciativa privada e a responsabilidade da USP com nossas demandas, tudo isso, não sem o controle da comunidade acadêmica democrática e republicanamente constituída, são nossos objetivos para podermos vislumbrar um futuro mais promissor. Isso não só para a FFLCH como também para a USP.

 

[1] Sorbonne: https://boutique.sorbonne-universite.fr/; La Sapienza: https://www.merchandising.uniroma1.it/it; KCL: https://www.kclsu.org/shop/ Oxford: https://www.oxfordgiftshop.com/; Harvard: https://www.theharvardshop.com/ Lisboa: https://www.ulisboa.pt/lojaulisboa; Yale: https://theuniversitystore-newhaven.com/; Toronto: https://uoftbookstore.com/.


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