Um rato ou um elefante?

Por Janice Theodoro da Silva, professora titular aposentada do Departamento de História da FFLCH/USP

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Janice Theodoro da Silva – Foto: Youtube
O que a montanha pariu? Tem gente que acha que a montanha pariu um rato e, outras, que a montanha pariu um elefante. Afinal, o que a montanha pariu?

Primeiro vamos lembrar o mais simples: a frase – “a montanha pariu um rato” – ilustra uma reunião com diversos ministros ocorrida em Brasília, no dia 22 de abril de 2020, com o objetivo de expor um plano de governo chamado Pró-Brasil, enunciado pelo general Braga Netto. Nessa reunião o presidente da República teria expressado seu interesse em interferir nos quadros da Polícia Federal.

O vídeo da reunião veio a público em razão de uma suposta interferência, por parte do presidente, na Polícia Federal. O resultado foi o afastamento de Sergio Moro do cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública. Algumas pessoas, ao assistir ao vídeo, consideraram a prova de crime frágil e outras consideraram as provas evidentes.

A mensagem emitida pelo vídeo não apenas dividiu os espectadores como produziu uma metáfora, de grande impacto, desqualificando o vídeo enquanto prova de um ilícito: a montanha pariu um rato.

Atualmente as relações entre as palavras e as coisas andam mal das pernas. É melhor tomar cuidado com elas, com as palavras, especialmente aquelas cujo significado é metafórico, como montanha, ratos e outros animais, por ventura incluídos neste artigo.

As metáforas servem para dizer uma coisa, uma circunstância, objeto ou qualidade, sugerindo um outro objeto cuja semelhança, similitude, aumente o entendimento do que se pretende dizer. Apesar do esforço, as metáforas e mesmo as palavras nunca dão conta da realidade. Os acontecimentos, narrados por meio de palavras, vão além do que elas conseguem nomear, deixando transparecer uma parte pequena do que se vive e do que se quer dizer, ficando muita coisa na escuridão. Nenhum de nós diz tudo, vê tudo, ouve tudo sobre um fato ocorrido. Em circunstância específica, como a atual, a metáfora do rato pode “assassinar” um acontecimento político de consequências graves para a história do Brasil. Como diria Mario Chamie, em um poema de nome Metáfora assassina, ela, a metáfora, tem poderes assassinos. Cuidado.

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A situação brasileira, na atual conjuntura, é especialmente difícil. Por quê?

A democracia brasileira é jovem, carrega resquícios de um arcabouço legal proveniente de períodos autoritários de governo, de uma sociedade pouco preparada para compreender os limites entre os poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) para atuar e vigiar o bom funcionamento da res publica. A população brasileira, dispersa em um território de dimensões continentais, é marcada por baixa escolaridade, distribuição de renda desigual e conhecimento precário do papel do cidadão no funcionamento das instituições políticas. Essas características favorecem tanto a presença de regimes de vocação autoritária como a corrupção. O Estado, expressão da sociedade e de todas as suas mazelas, muitas vezes se torna instrumento de grupos interessados em obter benesses pessoais em detrimento do bem comum. Esses setores se utilizam de todos os instrumentos disponíveis para alcançar seus interesses, entre eles destaquem-se as linguagens: escrita, oral e, especialmente, digital.

Compreender metáforas é procedimento indispensável na atualidade porque elas são armas eficientes, potencializadas pelo mundo digital, para se atacar o adversário. A tomada de consciência da importância das palavras e das metáforas sugere a necessidade de equiparação, no debate, da forma narrativa. Conteúdos frutos do mesmo suporte (digital ou impresso, televisivo etc.) e do uso de determinadas figuras de linguagem exigem equiparação das formas, mais antigas ou mais atualizadas, mais eruditas ou mais populares, para instituir equilíbrio na discussão. Não se deve esquecer o fato de a metáfora, como todas as figuras de linguagem, remeter à arte (da poesia, por exemplo), à estética, às sutilezas da forma capazes de mudar as coisas de lugar, fazer ver e não ver. Observe-se, nas artimanhas da estética da linguagem, a metáfora do rato, utilizada para apagar, eliminar, roer o que foi dito.

Considerando o uso tão intenso da metáfora, vou completá-la com outra, similar: a montanha pariu um elefante.

Temos dois grupos de pessoas:

O primeiro grupo, do rato, é formado pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, por parte do mercado financeiro, pelos políticos fisiológicos e, especialmente, por aqueles que defendem o porte e uso de armas. Seu livro de cabeceira é Carl Phillip Gottlieb von Clausewitz. Esse grupo considerara, após a divulgação do vídeo, ter a montanha parido um rato.

O segundo grupo, do elefante, é formado pelos defensores do meio ambiente, atentos às desigualdades sociais, contrários à liberação do jogo e do uso de armas. Em geral são leitores de William Shakespeare (1564-1616), Fiódor Dostoiévski (1821-1879), Hannah Arendt (1906-1975), Haroldo de Campos, Mario Chamie, entre tantos outros. Este grupo considera que a montanha pariu um elefante.

O primeiro grupo viu, ouviu e sentiu o vídeo concluindo ter a montanha parido um rato, ou seja, as imagens e falas apresentadas na reunião ministerial não acrescentaram provas sobre a interferência do presidente na Polícia Federal em razão de interesses pessoais.

O primeiro sintoma do fortalecimento do rato foi o fechamento do mercado futuro, no positivo, logo após a divulgação do vídeo. O mercado foi a pedra de toque para os outros setores, alinhados com Bolsonaro, incorporarem a metáfora do rato. Os nove primeiros minutos do vídeo entusiasmaram a ala neoliberal em razão da fala ordenada do general Braga Netto propondo um novo plano, o Pró-Brasil Ordem e o Pró-Brasil Progresso, com uma política estratégica pensada até 2030. Na sequência, em tom professoral, o ministro Paulo Guedes corrige o uso da metáfora histórica, plano Marshall, citado pelo general. Desqualificar a metáfora do Outro (Braga Netto), nesta circunstância, representava hierarquizar o grupo qualificando a si mesmo como o melhor e mais importante entre os ministros, deixando ver vaidade e empoderamento (confirmado pelo presidente).

O mercado gostou muito de Paulo Guedes e de seu papel junto ao presidente. O que foi falado depois pelos outros ministros, beirando o absurdo, tinha que ser apagado do ouvido e da visão dos telespectadores. Como as imagens foram para a televisão, só restou o recurso da metáfora para fazer desaparecer o que foi dito. Como apagar?

Usando a metáfora “a montanha pariu um rato”.

Observe-se, entre os adeptos do rato, a indiferença em relação aos palavrões utilizados pelo presidente e pelos ministros. É fácil justificar e criar identidade com a população porque a vida é feita de circunstâncias e o palavrão, às vezes, brota. Você já bateu o carro? O que disse? Muita gente deve ter pensado assim. Para aceitar os palavrões basta relativizar a circunstância, a civilidade entre as partes e a dignidade dos cargos, autorizando, sem pensar muito, o uso de uma estética do grosseiro e do baixo corporal.

A indiferença torna palatável o passo seguinte: a agressão. Com relação ao meio ambiente, às populações indígenas e às minorias que vivem da floresta não se trata de achar, basta escutar palavra por palavra do ministro do Meio Ambiente. Ele não tem interesse na busca de soluções compartilhadas com os especialistas da área ou com a população da floresta. Sua proposta é clara em relação ao uso de artimanhas legais para implementar projetos em desacordo com a legislação ambiental. Mais uma vez uma metáfora: vamos deixar passar a boiada. A boiada vai para onde? Para o matadouro.

Por fim, não temos mais indiferenças e, sim, agressões, perfeitamente nomeadas contra governadores e prefeitos, sugerindo, a ministra, prisões. Palavra enunciada com clareza total.

Estamos diante de um rato ou de um elefante! Estamos diante de um notável desinteresse pela vida política onde as partes (convergentes e divergentes) de uma sociedade se encontram, discutem, constroem e executam planos e projetos. Observe-se finalmente: a reunião não discutiu o projeto citado inicialmente pelo ministro Braga Netto, ou políticas públicas para o Brasil. Apenas confirmou a importância da política econômica levada à frente pelo ministro Paulo Guedes e apoiada pelo presidente. O mercado futuro deu sinal positivo, o resto (a política e a ética) o rato pode roer.

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O grupo do elefante tem memória de longo prazo, lembra bem quais foram os ingredientes utilizados para justificar perseguições na Segunda Guerra, governos autoritários e golpes de Estado. Valoriza o Estado de direito, a preservação do planeta e a comunidade internacional como agente de equilíbrio entre as nações. Esse grupo ficou indignado com o que viu no vídeo, sonhou com o impeachment.

O grupo do elefante achou inadequada a linguagem utilizada pelo presidente e alguns ministros por considerar os palavrões uma forma de encerrar a discussão, convidando os interlocutores para a briga e estimulando a violência entre as partes. Shakespeare usa o baixo corporal para compor alguns personagens com o intuito de fazer a plateia ver melhor a realidade, por meio do impacto da ação da personagem e da tragédia. A noção do tempo para o grupo do elefante envolve a longa duração. Consideram ser a Terra uma parte pequena do universo, uma parte finita. A economia é pensada em razão da sustentabilidade do planeta, mantendo o equilíbrio no seu uso, garantindo a vida, não apenas para aqueles que aqui estão, mas lembrando daqueles que virão.

Outra grande diferença entre os dois grupos diz respeito aos povos indígenas. Não vou me alongar aqui, mas eles têm, sim, identidade própria, um imenso patrimônio cultural. Já existe consenso entre os especialistas sobre a matéria. Uma nação agrega populações com identidades, culturas, religiões e hábitos próprios. Uma viagem ao passado, com ênfase na guerra e nos golpes contra o Estado, pode ser um bom caminho para refletir sobre o tema exclusão por extermínio ou inclusão forçada com abandono da língua e da cultura.

Por que mataram judeus, ciganos e homossexuais na Segunda Guerra?

Porque eram diferentes.

Quais foram os argumentos utilizados para justificar o extermínio? Quais foram as metáforas utilizadas para desqualificar os judeus, por exemplo?

Animais.

Com relação à prática política, o segundo grupo, dos elefantes, considera o vídeo como uma evidência da vocação autoritária do presidente e seus ministros comprovada pela ameaça explícita de prisão contra governadores e prefeitos. Tal conduta, segundo esse grupo, expressa a incapacidade do governo em ouvir as partes e encontrar soluções compartilhas, típicas do funcionamento de um Estado de direito, colocando em risco a democracia brasileira. A indignação fez o grupo dos elefantes supor, por um instante, ter este governo acabado por não representar mais os brasileiros.

O que fazer com uma sociedade dividida e sem diálogo entre as partes?

A narrativa utilizada é bastante conhecida: criar um inimigo tirando dele qualquer humanidade, para liberar, no âmbito da consciência de cada um, a autorização para a eliminação do Outro. Alguns animais podem servir para desumanizar, por exemplo, o porco e o rato. Já aconteceu antes.

O que levou tantos nazistas, conscientes de seus atos, obedecerem a ordens para eliminar crianças, adultos, judeus, inimigos políticos, homossexuais e ciganos?

Para matar o Outro é fundamental, antes, negar qualquer identidade, retirar dele qualquer humanidade. As palavras são o primeiro passo. Em geral, as metáforas utilizadas referem-se a excrementos, alguma coisa que se elimina, ou animais, considerados de outra espécie, dominada ou ingerida pelo homem. A barbárie é uma construção social onde a linguagem tem papel importante separando, diferenciando, diminuindo, criando a insensibilidade e a invisibilidade para a dor, o sofrimento e a angústia do Outro. Cuidem-se todos que preferem não ver. O rato é um roedor e pode roer, você, eu e/ou a nossa jovem democracia.

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