Um espaço de conexão com o mundo: os podcasts do IEB

Por Diana Vidal, professora titular de História da Educação da FE/USP e diretora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP)

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Diana Vidal – Foto: Arquivo pessoal

 

Em 1º de setembro, o Instituto de Estudos Brasileiros chega ao centésimo podcast. É um momento de celebração e, como tal, suscita que efetuemos dois movimentos: um que mira o passado e procura apreender o que tem sido a experiência; e outro que se projeta sobre o futuro e desfolha perspectivas do que a iniciativa ainda pode vir a ser. O olhar retrospectivo, por um lado, visa às origens do programa; por outro, pretende fazer um balanço do que foi apresentado como episódios ao longo destes quase cinco meses em que estamos no ar. O olhar prospectivo objetiva traçar nossas expectativas futuras e sinalizar para algumas das possibilidades que se abrem.

A ideia de criar um programa de podcasts ao IEB surgiu no contexto da pandemia da covid-19 e da preocupação da instituição em manter contato com o público que estava habituado a frequentar nossos espaços presencialmente, seja como alunos e alunas das disciplinas optativas oferecidas em vários cursos de graduação da USP ou do nosso mestrado em Culturas e Identidades Brasileiras; seja como pesquisadores e pesquisadoras das diferentes áreas de Humanidades às quais se associam os acervos arquivísticos, bibliotecais e artísticos sob a salvaguarda do instituto; além, é claro, da população estudantil em distintos níveis e da sociedade em geral. Emergiu na confluência de iniciativas similares realizadas por museus, bibliotecas e arquivos no Brasil e em demais países no mundo. Consolidou-se no desejo de se tornarem mais conhecidos os fundos e coleções, bem como a reflexão acadêmica, presentes no IEB.

Por certo, o início da experiência foi cercado de dúvidas e incertezas. Dúvidas quanto ao formato dos podcasts, às formas de produção e disseminação, às tecnologias a empregar e às plataformas a utilizar. Incertezas quanto à nossa capacidade de deslanchar um projeto ambicioso de ter todos os dias úteis, um novo episódio a incluir no site. Confiando nas indicações da equipe técnica, capitaneada por Pedro Bolle, e apoiando-nos em conselhos de docentes, como Jaime Oliva, que já tinham participado de iniciativas similares, definimos em uma primeira reunião que os episódios deveriam ter no máximo 15 minutos de duração e ser identificados por um título, autoria, resumo de 170 caracteres e uma imagem com a respectiva legenda; deveriam versar sobre o patrimônio documental do IEB ou traduzir as discussões acadêmicas efetuadas na instituição tanto nas disciplinas quanto na pesquisa e produção científica.

O começo foi bastante artesanal. As gravações, feitas no gravador do Windows, no celular ou Ipod, eram encaminhadas à Divisão de Apoio e Divulgação, que colocava os episódios no ar, inicialmente na plataforma Soundcloud. Mas rapidamente mudamos para a Anchor, que nos deu acesso imediata e gratuitamente ao Spotify e, com a continuidade dos downloads, às plataformas Breaker, Castbox, Google Podcasts, Apple Podcasts, Overcast, RadioPublic, ampliando de modo inesperado o número de países atingidos e de acessos ao site do IEB. Atualmente estamos em 23 países: Brasil, Estados Unidos da América, Colômbia, França, Suriname, Portugal, Irlanda, Reino Unido, Argentina, Chile, Alemanha, Índia, Itália, Países Baixos, Austrália, Suíça, Suécia, República Tcheca, Equador, Espanha, Canadá, México e Japão, e temos 8.300 ouvintes.

A iniciativa, ainda, despertou vocações. Paulo Moura, nosso arquivista, revelou sua atuação como locutor de web rádio e, junto com Flávia Toni, docente especializada em acervos musicais, propuseram, elaboraram e produziram a vinheta de início e de finalização, incluída em cada episódio. A voz que ouvimos é de Paulo e a música, de Chiquinha Gonzaga. Logo, associamos, aos episódios isolados, séries. E, nesse passo, chegamos ao centésimo podcast.

Um balanço despretensioso dos episódios já publicados, associado às estatísticas fornecidas pela plataforma Anchor, revela algumas curiosidades. Comecemos por estas últimas, ou seja, pelas estatísticas. Dentre os nossos ouvintes, 55% são do sexo feminino e 45% do masculino, 80% da audiência tem idades entre 23 e 44 anos. O episódio mais ouvido é o de número 44, intitulado Celso Furtado e o ápice do pensamento histórico-estrutural no Brasil, de autoria do professor Alexandre de Freitas Barbosa, o que suscita três comentários.

Primeiramente, é necessário lembrar que, neste ano, se comemora o centenário de nascimento deste economista brasileiro, um dos mais destacados intelectuais do País ao longo do século XX, o que, com certeza, despertou maior interesse por parte do público pelo episódio. O segundo é que, como casa recente de acolhida da documentação pessoal e da biblioteca do Celso Furtado, é com alegria que o IEB percebe a paulatina associação entre o intelectual e a instituição por parte de pesquisadores e do público em geral. Cabe, por fim, trazer a notícia de que este não é um episódio isolado. Ao contrário, justamente em virtude das comemorações, o professor Alexandre Barbosa está liderando a organização de uma série de podcasts para esmiuçar em detalhes a obra de Furtado. Portanto, aguardem as novas edições.

O segundo podcast mais ouvido é de autoria de uma jovem pesquisadora, professora de História do Vestuário e da Moda, editora, figurinista e doutoranda do Programa de Pós-Graduação da UFRJ. Carolina Casarin discorre sobre O guarda-roupa modernista: a aparência e os trajes de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade, evidenciando que os podcasts do IEB são um espaço democrático, aberto a todos os temas e a todos os pesquisadores que fazem ou fizeram uso do acervo; que trabalham ou trabalharam no instituto, independente dos estágios de formação e da atuação no campo das Humanidades. Representa o convite renovado a que mais pesquisadores de todas as idades se juntem a nós no esforço de socializar este monumental acervo sobre a cultura brasileira.

A presença de dois podcasts sobre o Fundo Gilda e Antonio Candido entre os TOP5 merece destaque. São eles: o episódio 069 – O projeto de organização dos arquivos de Gilda e Antonio Candido –, de autoria de Laura Escorel, e o episódio de número 070 – O espaço do talvez: cadernos de Gilda de Mello e Souza –, de autoria de Juliana Franco. Afinal, depois de todo o investimento do IEB, com apoio do Itaú Cultural em projeto liderado por Laura Escorel, para a organização da documentação doada pela família ao instituto, estamos iniciando a abertura do Fundo à consulta. Portanto, o interesse do público pelos episódios reflete a ansiedade com que é aguardada pelos pesquisadores e pela sociedade a liberação do acesso aos documentos.

Em quarto lugar de audiência, está o episódio 023 – Oficina de Leitura Guimarães Rosa: o prazer de ler em grupo, em voz alta –, de autoria de Regina Pereira. Ele revela uma outra dimensão das ações existentes no IEB, a extensão universitária. A Oficina de Leitura funciona desde 2004 e reúne, semanalmente, agora em formato remoto, pessoas que apreciam os livros do escritor. Os participantes fazem a leitura de obras de Guimarães Rosa em voz alta para perceber a sonoridade, a entonação e a beleza das palavras utilizadas pelo escritor. Depois de uma hesitação inicial, os componentes da oficina abraçaram a iniciativa dos podcasts e hoje representam o maior coletivo a publicar episódios. A série comporta 25 emissões até o momento e segue crescendo. A migração de formatos, que fez com que a oficina deixasse o modelo presencial para o remoto de maneira a manter a atividade em tempos de pandemia, foi iniciada pela adesão aos podcasts e, agora, se espraia para o streaming. No final deste mês, mais exatamente entre 28 de setembro e 2 de outubro, a Oficina organiza a Semana Rosiana no IEB.

No que concerne ao balanço possível destes 100 primeiros podcasts, vale destacar inicialmente que eles tanto se constituem em episódios isolados, quanto estão conjugados em séries. Até o momento, nove séries foram publicadas. As mais extensas são, em primeiro lugar, a realizada pela Oficina de Leitura, com 25 episódios, como dito anteriormente; seguida, com dez episódios, pela série sobre o Fundo Gilda e Antonio Candido, organizada por Laura Escorel e Elisabeth Ribas. Esta última faz uma bela incursão no setor de arquivo, desnudando as várias etapas do tratamento documental feito no IEB e congregando as vozes dos vários sujeitos envolvidos na tarefa (de alunos da graduação a profissionais do arquivo e pesquisadores confirmados).

As outras séries são de autoria de docentes, como a sobre o geógrafo Pierre Monbeig, por Jaime Oliva; e Uma antropologia do Antropoceno: sem natureza não tem história, por Stelio Marras; de autoria de servidores, como VOZOTECA LEK, por Paulo Moura; de autoria de pós-doutorandos, como Representações e imagens do sertão no Brasil e na África portuguesa, por André Heráclito do Rego, e O diário de Anita Malfatti de 1914, por Carlos Pires; e de autoria de pesquisadores, como Vadeia Coco com Mário de Andrade e Luiz Carlos Laranjeiras, por Luiz Carlos Laranjeiras. Mais uma vez fica patente a pluralidade e a diversidade de temas, acervos e autores.

Sem querer dar spoiler, antecipo a vinda de mais três séries em breve: a já mencionada série sobre Celso Furtado; uma nova iniciativa, capitaneada por Jaime Oliva, sobre Milton Santos, este geógrafo, escritor, cientista, jornalista, advogado e professor da USP, conhecido, dentre outros, por seus estudos de urbanização do Terceiro Mundo; e três episódios sobre paleografia, organizados por Vanessa Monte, docente da Faculdade de Letras (FFLCH-USP), que tem colaborado com o IEB pela oferta de cursos sobre a matéria, tomando para análise a documentação existente nos acervos.

As vozes que aparecem com mais frequência pertencem a Diana Vidal e Paulo Moura. A primeira discorre principalmente sobre temas associados ao Fundo Fernando de Azevedo, em particular à reforma educacional conduzida pelo educador, escritor e sociólogo no Rio de Janeiro entre 1927 e 1930 e, na maioria das vezes, estabelecendo um diálogo entre passado e presente da educação no Brasil. Já Paulo Moura, além de emprestar sua bela voz às vinhetas de abertura e encerramento dos podcasts, tem feito um trabalho importante de divulgação da VOZOTECA-LEK. A “vozoteca” consiste de cerca de 12 mil registros, não só com músicas, mas também discursos, entrevistas e depoimentos doados ao IEB por Luiz Ernesto Kawall em 2013. Possui raridades como as vozes de Santos Dumont, Antoine de Saint-Exupéry, Hitler, Washington Luiz, Thomas Edison e vários outros.

Mas chega de olhar para o que fizemos e vamos nos indagar sobre o que o futuro nos reserva. Pergunta difícil de responder, principalmente em tempos de tanta incerteza nos quais vivemos atualmente. Posso apenas relatar o que temos feito em termos de projetar o futuro. Estimulados pelos resultados iniciais da iniciativa, lançamo-nos na competição por apoio financeiro para a criação de um estúdio de gravação, por meio da participação em edital aberto pela Fundação Serrapilheira, que tem por propósito não apenas conceder recursos para equipamentos, mas também fornecer formação para a produção mais profissional de podcasts. O intuito aqui é superar a fase artesanal que nos permitiu chegar até o episódio de número 100, alçando novos voos em termos de qualidade das gravações, inovação em vinhetas, tratamento mais sofisticado dos produtos, enfim…, numa palavra, profissionalizando o trabalho e ampliando sua qualidade formal, de modo a dar mais destaque ao conteúdo.

Uma segunda ação, que está apenas em seus primórdios, é o estabelecimento de parcerias com demais instituições culturais que partilhem de objetivos similares aos do IEB, por exemplo, como a recente colaboração estabelecida com a Casa Mário de Andrade para a produção e veiculação conjunta de podcasts. Outras parcerias podem e devem emergir, pluralizando o alcance das emissões e amplificando a disseminação dos conteúdos, com o intuito de tornar o acervo e a reflexão acadêmica presentes no IEB cada vez mais acessíveis ao público em geral e ao ensino nos vários níveis escolares.

Premidos por circunstâncias alheias à nossa vontade, forçados a entrar em isolamento social, soubemos valer-nos da oportunidade para criar novos canais de comunicação com a sociedade e reinventar práticas. Por certo, os podcasts do IEB vieram para ficar. De uma solução passageira para o enfrentamento da crise provocada pela pandemia, eles se tornaram uma maneira efetiva de conectar o IEB com pessoas localizadas nos quatro cantos do mundo, de traduzir as pesquisas e o conteúdo do acervo em uma linguagem de fácil absorção, e de promover a circulação social de conhecimentos, aproximando a universidade da escola básica, a academia do público em geral, e devolvendo o patrimônio cultural a quem ele, de fato, pertence.

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