Todo ano fazemos sempre igual: um ano sem folia e as cinzas que não chegaram

Por Marília Belmonte Magalhães da Silva, mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da FFLCH/USP

Marília Belmonte Magalhães da Silva – Foto: Arquivo pessoal

 

Todo ano, para o “povo do carnaval”, a vida é sempre igual. São essas figuras, anônimas para a maior parte da população, que constroem a folia de Momo para a brincadeira dos foliões nas escolas de samba, blocos, sambódromo e ruas. Nesse momento atípico, não vivemos os carnavais do ano de 2021, termo utilizado no plural porque a folia no Brasil é múltipla, não se restringindo aos grandes centros e à divulgação midiática massiva. É importante pensarmos o carnaval a partir de outra ideia plural e simbólica, em uma categoria de “cidades” que existem em disputa em uma única cidade – em seu sentido físico e geográfico. O festejo é o encontro das pessoas nas ruas, é a ocupação intensa e repleta de tensão, é um momento para nos atentarmos às grandes cidades não como locais de trânsito, mas de acontecimento e materialização.

A quarta de cinzas para o sambista não representa o fim do carnaval, mas um novo começo com um novo projeto que prevê o reaproveitamento de materiais e a reelaboração de ideias, em um ciclo que tem começo, mas não tem fim. Fechamos um projeto, elaborando as lembranças do carnaval que se encerra. Em certa medida, este é um momento histórico e significativo para refletirmos a importância do carnaval enquanto manifestação popular e experiência cultural macro, mas também no micro, na convivência coletiva nas ruas, no festejo, com todas as disputas que envolvem o carnaval desde seu surgimento.

Em termos históricos, podemos pensar o carnaval enquanto manifestação cultural, mas também política e, por isso, houve e ainda hoje perdura a tentativa de um processo de controle e disciplinarização dos corpos festejantes. Tal concepção se assenta na elaboração de um discurso deslegitimador de longa duração, que aponta o festejo como alienado e alienante, buscando esvaziar a ideia de prática criativa inovadora, através do improviso e da resistência nas frestas da ordem cotidiana, no direito de ocupar e transformar a paisagem visual e sonora da cidade, articulando a ideia de pertencimento e identificação com vínculos afetivos, que contribui diretamente para a identidade cultural. Seu potencial democrático e plural não anula, e possivelmente escancara a gentrificação, as disputas econômicas que excluem uma parcela dos cidadãos e as problemáticas que envolvem o direito à cidade, tal como o discurso de desordem e de momento que permite que tudo aconteça. Tais problemáticas muitas vezes surgem camufladas no festejo, mas são bastante perceptíveis nas distinções cotidianas.

Tenho me debruçado há alguns anos na pesquisa acadêmica sobre samba e carnaval, buscando compreender o tema a partir do olhar dos agentes responsáveis pela estruturação cotidiana da festa carnavalesca. Os festejos carnavalescos são importantes e amplas as fontes de análise para refletirmos a ligação entre macro e microestrutura, não só nos debruçando sobre a teoria, mas também nos aproximando dos saberes formulados por seus agentes. Hoje trabalho especificamente com as mulheres da ala das baianas e da velha guarda de escolas de samba paulistanas. Essas mulheres constroem suas trajetórias de vida e elaboram suas memórias em uma relação direta com o carnaval e as escolas que, por diferentes razões, escolheram defender. Viver o carnaval é para elas parte da história de suas famílias, parte central de suas histórias e experiências, mas especialmente de suas redes de sociabilidade.

Na forma como nossa sociedade se estrutura, ao idoso, muitas vezes, é relegado um papel de cidadão improdutivo e com um espaço insuficiente de atuação, escuta e fala. O carnaval subverte essa ordem, centralizando e colocando como protagonistas tais figuras, valorizando saberes. Assim, uma escola não pode participar de eventos ou mesmo desfilar sem suas baianas, da mesma maneira que é um elemento distintivo ter uma velha guarda e apresentar seus baluartes, representantes vivos da história – em sua grandiosidade, mas também nos insucessos – de cada entidade carnavalesca, havendo uma troca constante e um processo de ensino e aprendizado através da experimentação e da prática.

Além disso, esses personagens são centrais na perpetuação das histórias das agremiações, a partir de suas vivências e convívio cotidiano com as comunidades que formam o carnaval das escolas de samba. Responsáveis pela formação dos mais novos, se aproximando muito da ideia de família ampliada, em que os cuidados com os membros da comunidade são partilhados e uma preocupação de todos, pois se os mais velhos são a forte raiz, os mais novos precisam ser sementes frutíferas, cientes da história que os antecede e dos desafios a serem enfrentados, para que essa cultura de encontro seja preservada e continuada. O encontro nas quadras, ensaios, celebrações e desfiles é um espaço importante de convívio e troca, significativo para a qualidade de vida, para a ocupação das ruas e também movimenta uma cadeia produtiva, de grande elaboração de conhecimento e técnica através da experiência prática.

Um ano sem o carnaval na forma que estamos acostumados, em um contexto de isolamento social, representa um afastamento desse contato e da troca, que deve ser olhado com atenção, especialmente ao pensarmos em pessoas idosas. Qual o impacto disso na rotina e na qualidade de vida dessas pessoas? É perceptível entre amigos e colaboradores da pesquisa a tristeza da ausência e da incerteza. O carnaval é o festejo, porém é ainda mais do que o festejo que participamos ou assistimos no feriado, é uma rede significativa de trabalho, saberes, técnica e convivência que acontece de forma intensa e contínua nos 365 dias do ano.

Para além dos aspectos afetivos e interacionais, há também grande prejuízo cultural e econômico com a não realização do carnaval e, por isso, a demora no anúncio do cancelamento oficial. Mesmo sem a festa em 2021, as escolas seguem trabalhando ativamente em seus barracões, se preparando para quando o momento de apogeu, com os desfiles, chegar e também se adaptando à realidade remota, com a realização de eventos que não sejam sinônimo de aglomeração, mas de manutenção da festa e fortalecimento de uma rede de solidariedade no momento crítico, demonstrando a relevância social dessas entidades. O cancelamento se faz necessário neste momento, visto que é impossível um carnaval que não exija a aglomeração, o contato, porém é necessário que nos questionemos sobre o impacto disso para os trabalhadores da festa.

Dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo apontam um crescimento regular da arrecadação nesta época e estimam que ao menos 8 bilhões de reais deixem de circular na economia. Esses valores envolvem a criação de empregos temporários, materiais utilizados nos eventos e na fabricação de fantasias e alegorias, além do aumento no consumo, na circulação a partir do turismo, nas áreas de eventos e marketing, mobilizando uma intensa cadeia produtiva. Assim, a ausência da festa agrava ainda mais a situação de crise e favorece a informalidade, pois ainda que sejam prometidos projetos de apoio e incentivo aos setores mais afetados, essa movimentação segue com lentidão e insuficiente para aplacar as perdas financeiras dos profissionais.

A pandemia tornou-se um momento de ressignificação, não em um contexto romantizado como muitos falam, mas que reforçou as escolas de samba (e outros locais) enquanto espaços associativos ativos em suas comunidades. Se, por um lado, observamos a disputa, o campeonato, quem se consagra campeão a cada ano, há um aspecto histórico e central de vivência coletiva comunitária, que articula o conceito de família mais abrangente e amplificado, isto é, a família para além de seu núcleo, em laços que se constroem a partir dos contatos e das experiências partilhadas. O festejo carrega em si saberes, e não é sem razão que as escolas de samba se chamam escolas, pois há um fundamento alicerçador. Mais do que a posse e o poder, observamos um exercício de aprendizado sobre a coletividade, ocupando papéis e funções, sobre as relações de tornar-se pertencente a um grupo, a uma comunidade e a um espaço, conhecido entre as escolas como o “chão”, e uma escola não sobrevive sem seu chão, sem sua comunidade.

A nós, pesquisadores, cabe um olhar reflexivo explorando a riqueza temática dos festejos no Brasil. Mas, especialmente, propor, ao lado dos agentes da festa, estratégias para a sobrevivência dessa cultura em um momento tão crítico. Nossos pilares são o ensino, a pesquisa e a extensão, e para que isso se efetive precisamos estar em um diálogo constante para que nossas pesquisas beneficiem também as comunidades, pois para um objeto de estudo vivo e presente no cotidiano, apenas a teorização não é suficiente. Se, por muito tempo, o carnaval foi um tema marginalizado na academia, hoje avançamos e temos cada vez mais contribuições significativas e de grande elaboração. Que essas possibilidades se ampliem, alinhadas às demandas práticas, que estejamos dispostos a compreender os agentes da festa não como meros objetos que compõem nossas pesquisas, mas como colaboradores que detêm saberes, com quem podemos trabalhar lado a lado, em relações mais dialógicas e menos verticalizadas.

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