Sobre as eleições na África do Sul: reflexões sobre uma jovem democracia

Laura Moutinho é professora livre-docente do Departamento de Antropologia da USP e bolsista produtividade do CNPq

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Laura Moutinho – Foto: Entrevista / Canal Futura via Youtube
No ano em que se completava 16 anos de democracia na África do Sul, ou seja, uma década e meia da eleição de Nelson Mandela e do fim do regime totalitário de extrema direita baseado no racismo conhecido como apartheid, fui exposta pela primeira vez a um questionamento público, com certa aderência social, do seu legado.

Em meio ao trabalho de campo que realizava em Cape Town, capital legislativa da África do Sul, um líder racista da extrema direita, que lutou contra o fim do regime de segregação, foi assassinado. Eugène Terre’Blanche morreu em 2010 como bradava que morreriam os whites[1] se o apartheid chegasse ao fim: assassinados enquanto dormiam em suas casas. Propagador do ódio, responsabilizado por episódios extremistas na década de 1990 e na anterior, esse personagem emulava outro que somente conheci a fundo naquele contexto: o jovem líder da Liga da Juventude do ANC (posição prestigiosa anteriormente ocupada pelo próprio Nelson Mandela). Julius Malema, então, aliado do antigo presidente Jacob Zuma, falava contra os whites diretamente enquanto mostrava-se simpático ao então controverso presidente do Zimbábue, Robert Mugabe.

Essas memórias do meu percurso de pesquisa estão me assombrando ao acompanhar as eleições em curso na África do Sul. Na quarta-feira, dia 8 de maio, o povo irá às urnas. O voto não é obrigatório. Tudo indica que o ANC – partido que chegou ao poder junto com Nelson Mandela – irá novamente sair vitorioso. Essa jovem democracia, entretanto, também está vivendo seus apertos. É notável, porém não surpreendente, a recusa de muitos jovens de participar desse momento político. Essa era uma questão que já se anunciava nas eleições passadas.

Lá como aqui, há muito descrédito entre a juventude com os políticos e com a política. A democracia sul-africana enfrenta o fato de que muitos desses que poderiam nesta semana exercer sua cidadania votando, não têm memória do apartheid nem tampouco experiência daquele tipo de segregação vinda de um regime autoritário da extrema direita racista. Em realidade, o ANC sofre o desgaste de estar há 25 anos no poder. Mesmo tendo conseguido produzir uma classe média negra, há nichos de desigualdade não resolvidos pelo partido de Nelson Mandela. Não se pode dizer também que os whites vão mal. Muito pelo contrário. Todos os dados mostram que, apesar de frequentes reclamações de “racismo ao contrário” e de terem cedido o poder para os blacks, os descendentes de holandeses (conhecidos como africânderes) e os descendentes de ingleses vão muito bem, obrigada. O que os ameaça? O candidato do ANC, que possivelmente ganhará as eleições – Cyril Ramaphosa? Não é o que indica o curso da história.

Quem continua em rota de colisão com os white farmers é Julius Malema. Após ser expulso do ANC, Malema fundou outro partido, que tem enorme apreço entre os mais jovens. Nelson Mandela, de fato, conduziu o país de uma guerra civil iminente para a conciliação nacional. Uma importante tecnologia de intervenção e mudança social foi acionada no sentido de enfrentar o passado, produzir informações sobre a ditadura de base racial para construir um novo futuro: a Comissão de Verdade e Reconciliação.

Conduzida por uma figura de enorme respeito moral, o arcebispo anglicano Desmond Tutu, a CVR[2] percorreu o país por dois anos e, num teatro de dor e catarse, produziu informações sobre as atrocidades cometidas pelo regime e tentou, nesse enfrentamento (colocando cara a cara vítimas e perpetradores), ressignificar o passado.

Há uma aposta aqui: a memória social como base para a nova democracia que foi construída tendo como esteio uma humanidade una. Essa foi uma perspectiva em grande parte bem-sucedida. O que então parece estar em questão? Por que os jovens negros não aderem às eleições, desconfiam dos whites e do partido de Nelson Mandela? O que pensam os jovens whites?

Diz a mídia sul-africana que Cyril Ramaphosa, antigo e respeitado militante do ANC contra o regime de segregação, era o preferido de Mandela para sucedê-lo. Em realidade, Ramaphosa, fora do páreo político, se transformou num riquíssimo e bem-sucedido homem de negócios. Há os que acreditam que ricos não se envolvem com corrupção, o que conta a favor do candidato do ANC, que tem também por esse motivo o apreço da maioria dos whites. A corrupção também é um problema na África do Sul. Algo que, de fato, não pode ser patenteado por nenhum país, sendo intrínseco a diferentes regimes, governos e contextos nacionais. O ex-presidente Jacob Zuma tinha, de todo modo, uma trajetória ainda mais controversa com, inclusive, uma acusação de estupro contra a qual lutou judicialmente ainda antes de se tornar presidente.

Zuma, de origem zulu, foi tido por muitos como alguém que reetnicizou a política: colocou no poder a cultura (e a poligamia) zulu, que tanto ofendia muitos whites e coloureds (aqueles que são classificados como mestiços), além de beneficiá-los em seu governo. Cyril Ramaphosa, de origem venda, que possui uma mesma esposa há décadas, restitui à cadeira da presidência padrões aceitáveis aos whites em amplos e vários sentidos.

Onde entra Julius Malema? Líder do Economic Freedom Fighters (EFF) e banido do ANC, Malema defende a reforma agrária, sem nem mesmo considerar algum tipo de indenização aos fazendeiros que são, em geral, whites. Malema (re)racializa em seu discurso a desigualdade social. Uma desigualdade, de fato, herdada do apartheid. Esse, sim, é um problema não resolvido pelos anos de governo do ANC, o que abre espaço para antigas experiências e ressentimentos de base racial. Se os whites em geral mantiveram ou mesmo aumentaram seu padrão de vida, se há uma classe média black, que era contida pelo próprio apartheid, o mesmo não se pode dizer dos que vivem nos townships, as moradias marcadas pela pobreza e pela miséria da África do Sul, que guardam semelhanças com nossas favelas.

Aqueles que estão mais à direita, mas não comungam de valores mais abertamente racistas, arriscaram anteriormente depositar na urna seu voto para o Democratic Alliance, o DA, que sempre teve maioria da região do Cabo. O partido há algum tempo tenta também incorporar e dar destaque a blacks e couloreds para contornar sua imagem excessivamente colada aos whites com respingos no apartheid, mas algumas controvérsias – como as falas pró-colonialismo de uma de suas mais iminentes políticas, Helen Zille – vêm complicando sua situação.

O fim do apartheid e a ascensão de Nelson Mandela permitiram que toda uma geração sobrevivesse e outra, de todas as origens, nascesse. Os jovens que não o conheceram talvez tivessem seu apreço: os mares da história são traiçoeiros e essa é uma juventude que somente pode questioná-lo porque está viva e enfrenta os desafios da sua própria era.

Dois movimentos recentes foram divisores de águas nesse cenário: o Rhodes Must Fall e o Fees Must Fall[3]. O primeiro confrontou o colonialismo questionando a manutenção da estátua de Cecil Rhodes, homem de negócios e imperialista, na University of Cape Town. O segundo movimento, que ganhou espaço na sequência do primeiro, estava relacionado à permanência dos estudantes nas universidades, que, apesar de receberem subsídios do governo, são pagas. A grande maioria dos estudantes não pode arcar com as altas taxas cobradas pelas mais importantes universidades. Esses dois movimentos produziram divisões incontornáveis nos meios acadêmicos e também fora deles. Tendo, entretanto, aberto certo espaço, o que permitiu uma maior presença daqueles que não podiam arcar com os altos custos, em geral, blacks e coloureds, na universidade.

O que então parece estar em questão nessas eleições que, de certo modo, atinge o próprio legado de Nelson Mandela? Em um governo com forte marca neoliberal, não é exatamente o racismo que não foi superado, mas a desigualdade social.

 

 

[1] Retenho as categorias de classificação raciais sul-africanas em inglês para demarcar a diferença entre seus usos e sentidos na África do Sul e no Brasil, tentando assim qualificar também o racismo operado e vivido nos dois contextos.

[2] Ver sobre o tema: Laura Moutinho, “Sobre danos, dores e reparações: The Moral Regenaration Movement: controvérsias morais e tensões religiosas na ordem democrática sul-africana”, in Wilson Trajano Filho (org.), Travessias antropológicas: estudos em contextos africanos, 1ª ed., Brasília, ABA, 2012, v. 1, pp. 10-36. Disponível no site da Associação Brasileira de Antropologia (ABA).

[3] Ver Paulo Neves et al., Nações e memórias em transe: herança colonial confrontada – África do Sul, Brasil e Estados Unidos, no prelo.

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